Manhattan, Nova York – Em primeiro lugar é preciso dizer que esta gaúcha de 23 anos com seu racismo latente fez muito mais para colocar em evidencia e discutir o racismo no Brasil em âmbito nacional do que a SEPPIR em seus mais de 10 anos de (in) existencia.

É claro que Patricia Moreira preferiria ter recebido toda a atenção midiática por estar em alguma conferência, de preferencia na ONU, abordando o tema, ou em alguma sala de aula numa universidade de prestigio discutindo como o Rio Grande do Sul, e a sociedade em geral, ainda veem o negro brasileiro como um cidadão de segunda classe.

Contudo, não poderíamos esperar nada melhor da mente de uma pessoa que vai a um estádio de futebol para ofender racialmente um jogador.

Estes tipos de ofensas racistas vem acontecendo desde que o negro colocou o primeiro uniforme para disputar uma partida de futebol. Dizer que isto é um fenômeno recente na sociedade brasileira mostra o quanto as pessoas ainda desconhecem a história do negro nos gramados.

Nem mesmo o maior jogador de futebol de todos os tempos escapou disso. Quando comecou a jogar futebol era constamente chamado de “crioulo”, “macaco” como o próprio já admitiu um sem número de vezes em entrevistas. Não foi por acaso que o goleiro Barbosa passou mais de trinta anos da sua vida sendo escorraçado porque o Brasil perdeu a final do Mundial de de 1950 para o Uruguai. Por décadas qualquer goleiro negro no Brasil tambem carregava o estigma da cor.

Em 1982, estava na casa de um amigo com um grupo de torcedores assistindo ao Mundial na Espanha quando o jogador Serginho “Chulapa” perdeu um gol na partida contra a Itália se a memória não me trai. A primeira coisa que ouvi em uníssono de todos foi “tinha de ser preto”. Eu era o único negro no grupo. Todos me pediram desculpas pela maneira como reagiram ao lance.

Como um “bom” negro que era aceitei os pedidos de desculpas e segui ali sentado terminando de ver a partida. Minha reação foi reveladora da minha ingenuidade em aceitar o ocorrido calmamente e o meu total desconhecimento histórico do racismo do negro no futebol e fora dele.

 Na mente pequena de Patricia Moreira chamar um cidadão negro de “macaco” e ou “negro fedido” em um estádio não  constitui racismo. Eles estão ali para entretê-la, se não estão felizes com seus xingamentos, ora, que procurem então outra profissão. Como se outras profissões de prestígio  fossem de fácil acesso para a metade da população brasileira.

 Como ela mesmo declarou a Políciaa: “foi no calor da emoção”. Pois é, foi no calor da emoção que houve o holocausto. Foi tambem no calor da emoção que os negros eram linchados constantemente aqui nos EUA até a década de 1940.

Há mais de 120 anos,  desde que deixou de labutar com escravo no Brasil, o negro incorporou fielmente seu papel de subalterno. Reclamações de racismo, ou tratamento diferenciado, eram vistos como rancorosos ou expressão de revolta. Afinal de contas, o Brasil havia eliminado a questão racial com a assinatura da Lei Áurea, em maio de 1888. Para a sociedade brasileira não havia, e para muitos ainda não há problema racial. Há somente uma questão social mal resolvida associada ao negro. Quando ele obtiver uma melhor condição social o problema estará eliminado.

 A hipocrisia no Brasil em relação ao racismo sempre foi tanta que foi preciso uma bailarina negra norte-americana ser barrada em um hotel em São Paulo na década de 1950 para que fosse criada uma Lei contra o racism, a Lei Afonso Arinos.

A Constituição de 1988 declara que o racismo é um crime inafiançável e imprescritível. A sociedade se recusa a cumprir a Lei quando o assunto é racismo. Assim como a sociedade tambem se recusa a cumprir a Le 10.639/2003.

Parafraseando o ativista Malcolm X na sua fabulosa biografia, o negro brasileiro simplesmente cansou de ser engabelado. Ele não aceita mais ser tratado como um subalterno e sorrir quando é tratado de maneira racista. Felizmente depois de uma longa hibernação, finalmente acordou para sua cidadania.

 

 

Edson Cadette