Entre os abolicionistas brasileiros que lutaram árduamente para o fim do escravagismo no Brasil, a figura mais destacada não foi o poeta Castro Alves, ou o advogado Rui Barbosa, nem tampouco, o político e filho de senhor de escravos, Joaquim Nabuco.
Nabuco, por sinal, tem um lugar de destaque entre os abolicionistas, apesar de nunca termos ouvido dele que tenha advogado nos Tribunais na defesa de algum escravo. Isto porque depois de 1831, estava não só proibida a importação de mão de obra escrava, como a partir desta data, qualquer negro que chegasse em algum tumbeiro deveria ser posto imediatamente em liberdade. Por imposição do Império britânico, o Brasil estava proibido de continuar na suja empreitada.
Joaquim Nabuco só perde em importância quando se fala em abolicionismo no Brasil para a grande redentora, a princesa Isabel. A verdadeira historia dos abolicionistas, entretanto, é outra.
“O Advogado dos Escravos”, escrito pelo professor de Direito, advogado, e também escritor, Nelson Câmara, diz que a figura mais importante na luta em favor da emancipação na segunda metade do século XIX, foi o ex-escravo, poeta, jornalista, e também advogado autodidata, Luiz Gonzaga Pinto da Gama (Luiz Gama). Porém, para muitos fazendeiros escravocratas, o ex-escravo não passava de um rábula, que tinha como única finalidadedestruir o grande negócio da instituição do escravismo.
Fica claro nas páginas deste livro a admiração que o autor tem, não somente pelo tema, mas com seu protagonista. Tanto é verdade que, para o autor, Luiz Gama é muito mais importante para a história do Brasil do que o próprio Zumbi dos Palmares.
Vale a pena repetir um pouco sua trajetória. Luiz Gama foi o fruto do relacionamento entre um fidalgo português com uma escrava livre da nação Nagô chamada Luiza Mahin. Portanto, nasceu livre na Bahia em 1830. Aos 10 anos, viu seu pequeno mundo ruir ao ser vendido pelo próprio pai como escravo para sanar dívidas de jogo.
Segundo o livro, o pequeno Luiz Gama foi levado de Salvador a cidade do Rio de Janeiro, depois para Santos, indo terminar finalmente em Campinas . Vários senhores recusaram seus serviços devido a reputação que os escravos da Bahia tinham ao redor do Brasil por causa das constantes revoltas organizadas naquele Estado. Principalmente por escravos mulçumanos.
Devido à sua inteligência, mesmo passando anos no cativeiro, Luiz Gama aprendeu a ler e a escrever com o sobrinho de um de seus donos. Aos 20 e poucos anos, alfabetizado, ele provou perante os Tribunais que havia nascido livre. Um feito certamente extraordinário, se levarmos em conta as circunstancias em que se encontrava. Com a alfabetização veio também sua consciência a respeito da escravidão.
Ficamos sabendo que a não aceitação de sua situação tinha um precedente. Sua mãe era uma ativista com participações importantes nas revoltas que aconteciam quase que diariamente principalmente na cidade de Salvador, reduto de um grande número de escravos muçulmanos.
Luiz Gama foi funcionário publico.
Entretanto, foi demitido do cargo de amauense, uma espécie de escriturário, por causa de seu pensamento radical. Na época, como advogado, ele achava que era um dever do escravo lutar pela sua libertação. E matar seu senhor, era um conseqüência natural deste ato. Ele foi proibido também de freqüentar a Faculdade de Direito do Largo São Francisco em São Paulo.
Autodidata, não se incomodou com esta recusa. Acredito que isto o encorajou ainda mais a seguir seu curso de ajudar juridicamente a libertação do maior número possível de escravos. Para ele, o diploma era meramente um papel sem qualquer valor intelectual. Tanto era verdade que famosos ex-estudantes de Direito o rodeavam como crianças tentando pegar doces das mãos de um adulto.
Nomes como Rego Freitas, Bernardo de Campos, Raul Pompéia, Rui Barbosa etc, buscavam em Luiz Gama a luz que certamente lhes faltava apesar de terem concluído seus respectivos cursos de Direito. Todos estes senhores o reverenciavam como a um deus do Olimpo.
Como o escritor deste importante livro é um advogado. Ele mostra o labirinto de leis e regras criadas pelo Estado escravocrata para dificultar o máximo possível qualquer tipo de manumissão aos escravos. Mais isto não impediu nosso paladino de usar das próprias leis brasileiras para mostrar que milhões de cativos eram mantidos em cativeiros apesar da Lei Feijó que proibira a escravidão a partir de 1831.
Luiz Gama foi o precursor dos folhetins satíricos que serviam não somente para advogar o fim imediato da escravidão, como também para criticar a Corte, e o status quo vigente. Ele trabalhou para vários deles. Entre os mais famosos estão “O Mequetrefe” e “O Polichinelo”. Além do mais, participou na fundação do jornal “O Radical Paulistano” juntamente com Rui Barbosa, e Américo de Campos, este último redator chefe do jornal “Província de São Paulo” que se transformaria anos depois no jornal “O Estado de São Paulo”.
Luiz Gama faleceu em 24 de Agosto de 1882. Portanto, seis anos antes do fim da escravidão. Seu funeral foi o maior ocorrido na época. Para se ter uma idéia de sua importância, metade da população de São Paulo que, na época girava em torno de 50 mil habitantes, compareceu ao enterro. Seu caixão foi levado do Brás, onde morava, até o cemitério da Consolação.
No meio do caminho, os negros tomaram o caixão e não permitiram que branco algum tocasse mais nele. Quando chegou as portas do cemitério, a multidão era tão grande que não coube dentro. E as centenas de pessoas que se acotovelaram para prestar a última homenagem prometeram continuar sua luta.
Este livro é aprofundado e bastante detalhista. Mostrando, inclusive, vários Habeas Corpus usados por Luiz Gama para a libertação de centenas de cativos. Há de tudo um pouco no livro. História, aventura e muita emoção. Há também a revelação de uma mente brilhante que lutou até o fim contra uma instituição que via o negro não como um ser humano, mas simplesmente como uma mera mercadoria.
Advogado dos Escravos.
Nelson Camara
Editora – Lettera.doc
Cotação – excelente

Viva Nova York
Jim Crow era a nefasta Lei estadual, adotada por vários Estados no sul dos EUA, que proibia negros e brancos de dividirem o mesmo espaço. Elas foram consideradas ilegais e abolidas pelo governo federal no caso “Boynton x Virginia” em 1960.
No verão de 1961, a Lei foi testada por centenas de jovens brancos e negros que partiram de Washington em vários ônibus em direção ao sul. Principalmente para o Mississippi e o Alabama, dois reconhecidos bastiões da segregação racial que repudiavam qualquer intervenção federal no status quo.
As centenas de jovens negros e brancos que participaram destas viagens ficaram conhecidos como “Freedom Riders” (Passageiros Da Liberdade).
A vontade de manter o “status quo” em certos Estados sulistas como, por exemplo, o Mississippi e o Alabama, era tão forte que autoridades locais, não só se recusaram a proteger os jovens passageiros negros e brancos chegando às suas cidades, como questionavam a constitucionalidade de intervenção do governo federal em assuntos que eles viam como um problema a ser solucionado pelas autoridades locais.
No Mississippi, o próprio governador do Estado, Ross Robert Barnett, desafiou o governo federal negando-se a proteger os jovens estudantes que chegavam ao estado em ônibus da companhia “Grey Hound” e “Trailways”. Cada ônibus era recebido por uma massa ignara racista com todo o tipo de armas em punho. Essa atmosfera era encontrada também em outros Estados sulistas.
Este ano, o país esta celebrando 50 anos deste importante acontecimento, que certamente ajudou na passagem das leis dos direitos civis aos afro-americanos assinada, em 1965, pelo então presidente Lyndon Johnson.
Um importante documentário com depoimentos de alguns dos protagonistas deste episódio foi mostrado recentemente pela rede pública de televisão PBS . Entre os vídeos, fotos de ônibus queimados, de pessoas sangrando, e o depoimentos de vários protagonistas. Tem-se uma idéia do racismo norte-americano, principalmente, no sul.
É importante lembrar também o quanto estavam dispostos os cidadãos destes Estados em não aceitar os afro-americanos como seus concidadãos.
É claro que muita coisa mudou de lá para cá. Mas documentários como estes são importantes para mostrar às novas gerações , que a igualdade de direitos que o cidadão negro alcançou nos EUA foi feita através de luta, resistência, tenacidade e também morte.

Edson Cadette