O Imperador mantinha uma profunda afinidade com a Europa (não com o Brasil), principalmente com a França. Entretanto, o que a história oficial brasileira costuma omitir é que no assunto mais importante durante o período do seu reinado, ou seja, a escravidão, ele não deixou nada escrito que pudesse indicar sua constante luta intelectual contra esta abominável instituição.
É isso que é possível perceber após a leitura do excelente “As Barbas do Imperador”, que trata da vida do Imperador brasileiro desde dia do seu nascimento, em 1825, até sua morte em Paris em 1891. D. Pedro II assumiu o trono brasileiro aos 14 anos em 1840. Nesta época, o tráfico de escravos estava a todo vapor entre o Continente Africano e o Brasil.
É verdade que desde 1831, depois de um acordo com a Inglaterra – a superpotência da época – o tráfico estava proibido. Entretanto, este mesmo acordo foi durante anos desrespeitado. Usando vários tipos de subterfúgios, o Estado brasileiro, por anos, ludibriou o Império Britânico fazendo a Inglaterra acreditar que os acordos assinados para por fim ao tráfico eram cumpridos. Daí vem a famosa expressão brasileira “para inglês ver”.
O abominável negócio da escravidão perduraria por mais 19 anos. Somente em 1850 o país foi realmente forçado a por fim ao comércio. Mas isto não quer dizer que o mesmo não continuasse internamente, entre os Estados do Norte e do Sul. Com a ascensão da cultura do café, no Sudeste, os escravos foram sendo vendidos das plantações de canas no Nordeste para as plantações no Rio de Janeiro e em São Paulo.
É verdade também que, depois de 1850, o país gradualmente caminharia para o fim da escravidão. Leis como a do Ventre Livre (1871), juntamente com a dos Sexagenários (1885) mostravam que a instituição estava com seus dias contados. Porém, isto só viria a acontecer em 1888.
É importante notar também neste livro que, durante os momentos mais importantes da luta para a Abolição do escravismo, o Imperador sempre esteve ausente em viagens à Europa. Deixou, assim, nas mãos de sua herdeira, a princesa Isabel, a responsabilidade de dirigir o país por várias vezes por longos períodos. Num destes momentos a princesa acabou assinando a Lei Áurea dando fim a escravidão negra.
A finalidade destas viagens era tentar mostrar aos europeus que o Brasil, apesar de seu enorme contingente de escravos e a fama de país exótico era sério e poderia colaborar com o desenvolvimento das Nações. Hoje em dia podemos ter perdido a fama de país escravocrata, mas a fama de exótico, adicionada a de corrupto, com governos ineficientes e com uma péssima distribuição de renda segue firme e forte.
A história da escravidão brasileira, a maior e também a mais duradora no hemisfério, e suas ramificações nas relações sociais entre negros e brancos, infelizmente ainda é pouco conhecida e muito pouco estudada. E aqui não estou me referindo ao estudo dos enredos das Escola de Samba, nos quais a imagem folclórica e mitológica do bom negro escravo ainda segue viva e forte na mente dos letristas.
Por esta e outras razoes, os alunos das escolas publicas terminam seus estudos antes de irem para a faculdade/universidade com uma imagem romantizada do escravismo brasileiro, ou seja, a imagem de que os escravos negros brasileiros aceitavam passivamente as péssimas condições que viviam e os senhores de escravos não eram tão duros assim.
Esta imagem também tem ajudado a perpetuar o mito de que depois de 1888 os negros libertos junto com a Princesa Isabel e a população brasileira saíram às ruas cantando em uníssono um “skindô, skindô” nos moldes das tradicionais danças africanas, dando início aquilo que muita gente ainda hoje insiste em chamar de democracia racial.
A verdade é que houve, sim, celebração depois da Abolição, entretanto, dizer que os cidadãos brasileiros em geral receberam os libertos de braços abertos e passaram a reconhecer sua humanidade e a aceitar sua cidadania é pura ficção sem qualquer embasamento histórico. A comunidade negra pode ter se libertado das correntes que a manteve em cativeiro por séculos, entretanto, muitos de seus contemporâneos ainda seguem presos à corrente mental de subalternidade.
Por conta disso, milhões de negros continuam pagando um alto preço por esta ingenuidade em seguir acreditando na falácia da pseudo democracia racial brasileira.
As Barbas do Imperador: D. Pedro II, um Monarca nos Trópicos
Lilian Moritz Schwarcz
Editora – Companhia das Letras
630 paginas
ARRUMANDO AS MALAS
O mineiro Marcos Siva de Paula é engraxate. Ele chegou à Nova York no final da década de 90. Depois de aventurar-se trabalhando em diferentes áreas, conseguiu juntar algum dinheiro e comprou não só a caixa de engraxate de um compatriota que se mudou para Flórida, mas também seu ponto de trabalho.
Trabalhando de edifício em edifício na área financeira da cidade conhecida como ‘Wall Street’ o senhor Paula costumava levar para casa a bagatela de US$ 4 mil por mês. É importante notar também que esta quantia era recebida limpinha sem nenhum pagamento de imposto Federal, Estadual ou Municipal. Ele viu seus sonhos de poupar dinheiro e, quem sabe, até mesmo comprar alguma propriedade ou negócio em Minas Gerais evaporar-se com a mesma rapidez com a qual os pseudos tétano financeiros de “Wall Street” quase arruinaram o sistema financeiro mundial.
Decidido a voltar ao Brasil por causa da crise econômica que se abateu sobre seu rendimento, que agora não passa de US$ 2,5 mil/mês, recentemente ele deu uma entrevista ao periódico “The New York Times” falando do lado positivo de sua possível volta ao Brasil.
Tenho certeza que ele se recusa a enxergar a realidade que o espera assim que chegar a Guarulhos. Da minha parte, quando sinto vontade de voltar a São Paulo, sintonizo nas noticias do site globo.com e espero a vontade passar. Para alguém que ficou morando tantos anos nos EUA, voltar para o Brasil com a idéia de que a vida por aí está melhor, que os brasileiros são mais felizes, que não há guerras, tsunamis, racismo, etc., o famoso ufanismo nacional, é o mesmo que acreditar nas mágicas do senhor Uri Geller, aquele famoso entortador de colheres dos anos 70/80. Talvez quando ele acordar na realidade brasileira seja um pouco tarde demais.
Correção: Na minha ultima coluna eu escrevi que a peça “The Shipment” foi escrita por um jovem chinês. Na verdade a peça foi escrita por uma jovem coreana-americana de 31 anos de idade.

Edson Cadette