Uma hora da manhã. Acabei de chegar em casa. Antes mesmo de pendurar meu casaco de frio, tirar a blusa, e também as galochas, liguei o computador para ler as notícias do dia. Procuro no site do Youtube uma música que não ouvia há pelo menos 25 anos: AM/FM da cantora Natasha King.
Um sucesso musical dos anos 80, especialmente, entre os jovens negros da periferia de São Paulo, que eu costumava ouvir nos bailes do Grupo Chic Show, no Ginásio da Sociedade Esportiva Palmeiras, bairro da Água Branca, Zona Oeste da cidade. A música é para esquentar um pouco o esqueleto e também tirar da cabeça a onda de frio que envolveu Nova York nos últimos dias.
De repente, o nome de um outro grupo aparece ao lado na tela. Não acreditei quando vi o nome do grupo KWICK. Uma música, em especial, que marcou muito minha vida amorosa em São Paulo no final dos anos 80 não sai da minha cabeça desde que cheguei em Nova York numa friorenta noite de abril de 1990.
Por causa do refrão da música, eu costumava chamar uma antiga namorada de estrela do meu show.
Vinte anos depois, e as memórias daquela época continuam vivas na minha mente, como se tudo tivesse acontecido há poucos dias. É o sinal de que as recordações continuam intactas no meu coração. Não sei o que dizer, ou o que pensar.
É um sentimento que ainda carrego comigo depois de tanto tempo. É muito difícil explicar. Se é que o conseguirei. As memórias ao lado dela são tantas. Eu as guardo como um homem que guarda um tesouro à sete chaves enterrado no fundo do oceano.
Longe dela há tantos anos, pensei que o tempo se encarregaria de apagar a saudade. Entretanto, o mesmo frenesi que senti na primeira vez que a beijei há mais de vinte anos, não diminuiu no meu coração. Longe de mim querer culpá-la por me sentir assim depois de tanto tempo. Ela não tem culpa de absolutamente nada. Acredito que o que aconteceu entre nós foi maravilhoso.
Tenho certeza que ela também, às vezes, deve pensar naquela época, ainda que por alguns segundos, quando escuta algum velho sucesso musical do final dos anos 80, ou na temporada de verão quando vê alguém passando de moto e pensa nos nossos passeios na moto 125 Yamaha, em que passeávamos.
Ou quando vê algum filme antigo na televisão. Como aquele que vimos juntos no vídeo cassette na casa da minha mãe estrelado pelo canastrão Mickey Rourke e a belíssima Kim Basinger chamado Nove Semanas e Meia.
Hoje acredito que não era o nosso destino ficarmos juntos. A minha única tristeza é não passar o resto da minha vida ao lado dela, admirando seu rosto, seu sorriso, cheirando seu corpo e rindo com ela. Ah! como eu ainda carrego comigo sua imagem depois de tanto tempo.
Posso fechar meus olhos e imaginar sua pele cor de caramelo, seus longos cabelos pretos ondulados, seus olhos castanhos, e sua enorme boca com seu enorme sorriso. Ainda me recordo dos muitos momentos que passamos juntos.
A vida tem mesmo destas coisas, não é mesmo? Quando a gente menos espera alguma surpresa acontece. Se, por um lado, ganhei Nova York e tudo o que esta cidade oferece, por outro perdi para sempre a estrela do meu show. Sempre serei eternamente grato por um dia ter tido a chance de compartilhar do seu amor.
Lembro-me que, na época quando estávamos juntos, não pensava em outra coisa a não ser uma maneira de sempre ver o seu enorme sorriso. Dizem que o amor é difícil de acontecer na vida das pessoas. Ou que o amor só acontece uma vez na vida. Pois bem, naquela época eu amei você com todas as minhas forças. Tenha certeza disto.
Posso afirmar para quem quiser ouvir que um dia estive perdidamente apaixonado. Mas por um daqueles caprichos da vida, não foi possível ficar ao lado da pessoa amada. Nossos caminhos seguiram destinos diferentes, é verdade.
Entretanto, tenha certeza de uma coisa: você sempre terá um espaço na minha memória como a estrela que um dia iluminou uma parte importante na minha vida.
Viva Nova York
Há 30 anos apareceu no mercado norte-americano o “walkman”, o aparelho de fita cassette que fez algumas pessoas de certa idade se sentirem com a bola toda, do mesmo jeito que o Ipod faz hoje em dia com a molecada mais jovem.
O pequeno toca-fitas que mudou para sempre o hábito de se ouvir música começou a ser comercializado no Japão em 1979 e, segundo a Sony, deixou de ser produzido em 2010.
Apreciado por uma geração de corredores, passageiros aéreos, alunos de escolas, e fãs de música, em geral, o “walkman” revolucionou a maneira como escutávamos música. Lembro-me de conseguir um no começo dos anos 80. Andava com ele à tira colo por toda São Paulo. É claro que fazia questão de mostrar a novidade eletrônica onde quer que fosse.
Parte de um passado tecnológico inovador, o “walkman” foi substituído há uma década pelo Ipod e MP3. Na verdade, o áudio cassette começou a cair em desuso bem antes destas inovações. O declínio começou com a introdução do “compact disc” e do “discman”, este último também em vias de extinção.
Segundo a página da Sony na Internet, as vendas do produto terminarão com o fim dos últimos exemplares que restarem nas lojas, porém, um número limitado será produzido na China direcionado a turma da velha guarda ainda presa a antiga tecnologia.
Com o passar dos anos, a Sony vendeu mais de 220 milhões de “walkmans” a um custo inicial de US$ 200.00.
O co-fundador Massru Ibuka apareceu com a idéia do aparelho numa viagem na qual escutou música num gravador e considerou o aparelho muito grande para ser considerado portátil. Os lojistas duvidaram de sua invenção, e muitos acharam que um tocador de cassette sem gravador não iria vender.
O “walkman” se junta ao disquete 3.5 pronunciado morto em Abril de 2010 quando a Sony disse que pararia sua produção.
Viva Nova York II
Zadie Smith é uma talentosa escritora britânica. Ela é autora dos aclamados “White Teeth” e “On the Beauty’. É também colaboradora do jornal literário “The New York Review of Books”, e da centenária revista “The New Yorker”.
Recentemente esta eclética e linda escritora foi contratada para escrever livros para uma das revistas culturais mais antigas dos EUA – a HARPER’S.
Outro dia, Smith participou de uma longo bate papo sobre literatura, maternidade e a banalidade das coisas simples do dia dia, com a editora da revista, Ellen Rosenbush, em que mostrou muita descontração e um charme incrível. Falou de sua paixão por livros, de ser mãe, e também sobre seu vício na internet.
Ela vive em Nova York desde o começo dos anos 90, e disse que a banalidade do dia a dia deve sempre servir de inspiração aos escritores.
Segundo ela, a busca da perfeição nem sempre se traduz numa obra prima literária. Com a fria temperatura de bater os dentes aqui em Manhattan no mês de fevereiro, foi ótimo ter participado deste evento e ter esquentado não somente os ossos, mas também meus neurônios que estavam quase congelando ao caminhar pelas ruas da cidade.
Viva Nova York III
Passei minhas “ferias” longe da Afropress fazendo o que mais gosto em Nova York, ou seja, indo ao teatro, frequentando a famosa livraria “Strand”, visitando o Museu Metropolitano, o “Studio Museum” no Harlem, vendo filmes, e, claro, lendo o “The New York Times” de cabo a rabo todos os dias para ficar antenado na disputa eleitoral dos EUA. A eleição vai acontecer em Novembro.
Porem, nenhuma destas atividades me deu tanto prazer (e risos) como ler algumas colunas do jornalista Paulo Francis enquanto ele trabalhava para a Folha como seu correspondente morando aqui.
Explico: descobri recentemente que a Folha digitalizou suas edições diárias desde de 1921. Decidi então procurar nas décadas de 70 e 80 as colunas do jornalista. Há pérolas de sua opinião (preconceituosa, é verdade) contra tudo e todos. Mas há também informações que são valiosas ainda hoje.
Principalmente informações pertinentes a livros e cultura. Se você leitor/a está interessado na cultura anglo-saxã dos EUA das décadas citadas recomendo a leitura.
Vejam o que ele escreveu na coluna do dia 26.04.84 sobre fumantes e cigarros. “E há muito saque. Sacarina da câncer (nos EUA). Isto porque submeteram alguns ratos no Canadá a dietas de 180 quilos (sic) de sacarina. Tenho a impressão que se qualquer um de nós se submetesse a 180 quilos de qualquer comida desenvolveria câncer de desgosto”.
Pode-se falar o que quiser de Francis. Ele certamente despertava sentimentos, tanto de raiva como de admiração. Acredito que sua função principal como intelectual era tentar fazer com que seu leitor/a saísse do marasmo mental (ou caverna como gostava de chamar).
Podíamos discordadar de suas opiniões (e chutes), mas era impossível ficar em cima do muro após ler sua coluna. Não se faz jornalista, e ou jornalismo como o do Francis hoje em dia. É uma pena.
O título original do artigo é “Reminiscências de um grande amor”
Impressões de NY – Reminiscências de um grande amor

Edson Cadette