Carinhosamente chamado Apollo desde 1934, o Teatro é conhecido como o grande lançador de carreiras de artistas afro-americanos, entre os quais, Michael Jackson, James Brown, Sarah Vaughn, The Supremes, Cab Calloway, etc.
Isto, sem duvida, é motivo de alegria em uma área onde são bastante conhecidos casos de músicos de um único sucesso, o que eles chamam por aqui de “one hit wonder’. Apos todos estes anos, o Apollo continua sendo o principal veículo para músicos aspirantes e renomados dentro da comunidade afro-americana.
Um de seus principais destaques continua sendo a famosa “Amateurs Night” (Noites dos Amadores) que acontece todas as Quartas-feiras, dando oportunidades aqueles que procuram o estrelato musical. Diz a lenda que um músico para conquistar o público afro-americano tem que primeiro pisar no palco do Apollo e ser aprovado pela exigente platéia.
Erguido em 1914, o Teatro foi desenhado pelo arquiteto nova-iorquino George Keister. No começo, era palco para shows do tipo rebolado. O Teatro é da época em que a segregação racial era comum e suas portas estavam abertas somente para o público branco. Entretanto, em 1933, o então prefeito da cidade, o senhor Fiorello Laguardia, lançou uma famosa campanha contra aquilo que ele chamava de safadeza deslavada, referindo-se ao que era apresentado pelo teatro do rebolado naquela época.
O declínio da popularidade do Teatro burlesco levou ao aparecimento do Teatro de variedades, isto é, o Teatro de vários atos, entre eles, a música e a comédia. O Teatro Apollo foi um dos precursores a oferecer entretenimento ao vivo para a audiência afro-americana com músicos afro-americanos. Por mais de 40 anos o espaço tem exercido grande influencia no imaginário popular mais do que qualquer outro Teatro no mundo, diz o autor do livro “Show Time at the Apollo”, Ted Fox.
É verdade também que a grande maioria dos músicos que se apresentam no palco do Apollo são afro-americanos, entretanto, o Teatro abre espaço também para músicos brancos. Dentre os que já se apresentaram no seu palco estão Elvis Presley, Tom Jones and Hall & Oates.
O Teatro Apollo tem sido uma grande força positiva no Harlem. Inicialmente o bairro abrigava grande número de imigrantes, entre os quais, russos, judeus, alemães, italianos e irlandeses. Contudo, a partir de 1910 os negros começaram a migrar do sul do país, ajudados pelo chamariz da Renascença do Harlem (Harlem Renaissance), um período altamente fértil na literatura, no pensamento político e artes em geral.
Passados todos esses anos, o Apollo segue sendo o grande marco neste bairro mundialmente conhecido. Há toda uma programação especial em andamento para celebrar o aniversário. Se você quiser conhecer um pouco mais sobre a história do Apollo e o que ela significa não são para a comunidade afro-brasileira, mas também para os EUA, e só entrar no site www.Apollotheater.org.
Encontro
Outro dia estive na famosa Universidade Columbia, localizada na Rua 116 com a Avenida Broadway. A melhor maneira de chegar a este magnífico campus universitário é pegar o Metrô. Pegue o trem um (linha vermelha) sentido Uptown até a Parade 116. Não há como errar ao sair da estação. De qualquer maneira, fui até lá para ter dois livros (As Barbas do Imperador e O Espetáculo das Raças) autografados pela escritora e professora uspiana, a senhora Lilia Moritz Schawarcz, que estava na cidade participando de um evento de dois dias na Columbia, em homenagem a ex-primeira dama e docente da universidade, a senhora Ruth Cardoso.
Aproveitei também a oportunidade para conversar alguns minutos com o ex-presidente FHC que foi muito simpático. Perguntei-lhe o que ele achava do legado da escravidão no país. Ele me disse que este legado continua sendo um dos grandes problemas brasileiros, se não o maior deles, e que o Brasil insiste em não enfrentar com seriedade.
Perguntei-lhe também porque a mídia brasileira é totalmente contra as políticas de Ações Afirmativas. Ele simplemente disse que há muita gente no país que não quer mudança no status quo brasileiro. Ele afirmou que a mídia timidamente esta mudando sua posição quanto a estas políticas púublicas.
Para o presidente, esta historia de que somos todos misturados, e que não existe problema racial no país, não passa de uma forma subversiva da sociedade brasileira não enfrentar de frente este sério problema. Percebi nitidamente o que quis dizer com isto. Neste encontro entre professores da USP e da Columbia não havia um afro-brasileiro entre eles.
O senhor FHC ainda foi mais longe. Ele disse também que o Brasil deveria discutir seriamente alguma forma de reparação por causa da escravidão, e que é preciso que a comunidade negra brasileira siga pressionando o Estado para que políticas publicas sejam adotadas em todas as áreas onde a presença do negro seja inexistente.
O papo com o presidente foi curto, mas certamente foi suficiente para mostrar que há muita coisa ainda para ser feita no país, se um dia quisermos mostrar ao mundo que somos realmente uma Democracia Racial, e que as oportunidades para a ascensão social são iguais para todos, independente de sua origem ou da cor de sua epiderme.
O título original do artigo é TEATRO APOLLO: ONDE ESTRELAS NASCEM E LENDAS SAO CRIADAS.

Edson Cadette