Manhattan, Nova York – Diferentemente do Brasil que assumiu a falácia de que os problemas associados aos mais de 350 anos de instituição escravocrata foram resolvidos com a assinatura da Lei Áurea, em 1888 e, consequentemente, a “liberdade” total da massa de escravos, libertos, alforriados etc, aqui nos EUA, o tema da escravidão não deixa de ser debatido um único dia desde o final da Guerra Civil em 1865; seja por meio de histórias orais contadas por descendentes de escravos, ou através de livros escritos por ex-escravos, acadêmicos, documentários, filmes, exposições, leituras, artigos nos jornais, ou em sala de aula.

Em outras palavras, o tema não é empurrado para debaixo do tapete como uma simples sujeira como fazemos aí no Brasil, na vã esperança de que o problema será resolvido por si só, e o país seguirá deitado eternamente em berço explêndido sem ser incomodado acreditando firmemente na falácia da nossa “democracia” racial.

Uma das figuras mais reverenciadas da história norte-mericana foi Thomas Jefferson, um dos pais fundadores e subscritor da Declaracao da Independencia de 1776. Ele foi tambem um escravocrata convicto sulista que acreditava na inferioridade intelectual dos escravos negros. Porém, durante anos, amigos, familiares e historiadores tentaram esconder o seu relacionamento com uma de suas escravas chamada Sally Hemings.

Thomas Jefferson and Sally Hemings: An American Controversy, ou em português: Thomas Jefferson e Sally Hemings – Uma Controversia Americana, escrito magistralmente pela acadêmica da Universidade Harvard, Annette Gordon-Reed desbanca com fatos o mito falacioso do bom mocismo de Thomas Jefferson.

Com sólidos e fascinantes argumentos, a professora mostra que o relacionamente entre senhor e escrava foi duradouro – mais de 35 anos.

Amigos de Thomas Jefferson e familiares tentaram ridicularizar a história de Hemings desde o inicio. Posteriormente, historiadores e biógrafos seguiram na mesma linha concluindo que o romance entre ambos era impossível baseado na leitura da vida de Thomas Jefferson, seu caráter, suas convicções e, especialmente, o que ele afirmava sob a inferioridade intelectual dos negros.

Annette Gordon-Reed autora de vários livros sobre este relacionamento respondeu a estes críticos e familiares mostrando erros de julgamento e preconceito em seus escritos, citações e histórias. O mais importante de tudo é que os defensores de Thomas Jefferson nunca  levaram em consideração evidências claras do romance mostrado pela família de Hemings.

Ela demonstra claramente que estes acadêmicos e historiadores erraram acintosamente por causa de seus próprios preconceitos e talvez tenham até mesmo adaptado evidências para servir e preservar suas opiniões a respeito de Thomas Jefferson.

Mostrando uma mente aguda e a curiosidade de um advogado, Annette Gordon-Reed escreve com um estilo e compaixão irresistíveis. Sua análise é bem acessível. Cada capitulo  girando em volta de uma personagem chave.

Thomas Jefferson and Sally Hemings é uma visão polêmica numa questão antiga que deve certamente aguçar os leitores em geral e os aficionados da história dos EUA, em particular.

Edson Cadette