Entretanto, num encontro onde havia somente imigrantes muçulmanos, e após explicar aos presentes de que tanto os afro-americanos como os pasquistaneses e indianos são irmãos da mesma fé, o Imã Talib não ficou convencido de que sua mensagem alcançou a audiência como esperava. “Eles vivem num outro mundo”, disse o Imã.
Apesar dos dois grupos representarem a maioria dos muçulmanos nos EUA, um enorme fosso separa os dois campos, seja pela raça, classe, cultura, e ou ou história.
A conversão ao Islã por parte dos afro-americanos foi uma experiência tanto espiritual como política. Uma expressão de poder num país onde muitos acreditavam que eram dominados por uma elite branca. Enquanto isso, para os imigrantes muçulmanos, a religião é hereditária, e os EUA um lugar não só de assimilação como também de prosperidade.
Por décadas, estes dois mundos pouco se comunicam. Porém, por causa dos ataques de 11 de setembro, os muçulmanos afro-americanos começaram a aconselhar seus “irmãos” imigrantes em como lutar pelos seus direitos civis.
Eles começaram a sentir na pele o que é ser olhado de forma diferente por causa da cor da pele e religião. Os muçulmanos de origem estrangeira estão dando um papel de destaque aos afro-americanos em suas organizações. Os dois grupos decidiram unir-se e, em alguns casos, até mesmo endossar um único candidato político.
“Os muçulmanos estrangeiros não terão sucesso nos EUA até o dia em que eles entenderem que precisam fazer uma aliança com os muçulmanos locais, e tambem com a comunidade de imigrantes”, disse o senhor Siraj Wahhaj, um Imã afro-americano com um grande número de seguidores entre os imigrantes nos EUA.
A divisão que há entre os negros e os muçulmanos imigrantes mostra a difícil tarefa de co-existência entre ambos. Talvez em nenhuma parte do mundo, muçulmanos de direrentes raças, cultura e até mesmo antecedentes teológicos estejam tentando compartilhar o mesmo espaco.
Somente em Meca, durante a perigrinação, é possível encontrar tanta diversidade de fé entre negros e brancos, ricos e pobres, sunitas e xiitas.
O Imã Al Hajj Talib Abdur-Rashid dirigiu até “Long Island” com a missão de conseguir doações para sua mesquita. Ele foi pedir dinheiro a comunidade de imigrantes a qual chama, com um certo desdém, de elite muçulmana. Precisando de dinheiro, e observando que as portas das mesquitas de imigrantes estão se abrindo, o Imã Talib, juntamente com outros lideres afro-americanos, começaram a bater nas portas destas organizações que arrecadam milhões de dólares durante o mês sagrado do Ramadã.
Antes dos ataques terroristas de 11 de setembro, o Imã Talib tinha uma pequena e distante conexão com o Centro Islâmico de “Long Island”. Ele encontrou de passagem o senhor Faroque Khan, um doutor indiano que ajudou a fundar o Centro.
Entretanto, ambos tinham pouco ou quase nada em comum. O Imã Talib é um ex-prisioneiro, cujo passado está ligado diretamente ao ativista Malcolm X. Ele faz parte da primeira geração de muçulmanos. Já o sexagenário doutor Khan é uma pessoa eclética que gosta de colecionar antiquidade chinesa, e tambem de esquiar. Contudo, depois do 11 de setembro seus caminhos se estreitaram.
Cada qual reconheceu o que o outro poderia oferecer. Os afro-americanos possuem uma fluência histórica e cultural que milhões de imigrantes desconhecem, disse o senhor Khan. Em contrapartida, para o Imã Talib, os imigrantes trazem uma ligação essencial com o mundo islâmico, e uma tradição erudita, bem como a sapiência que vem juntamente com a herança do Islamismo.
O primeiro encontro entre o Imã Talib e o doutor Khan, numa convenção no ano 2.000, em Chicago, não foi lá muito caloroso. A apresentação, um tanto quanto fria entre ambos, pode ser atribuida ao relacionamento não muito amistoso entre as duas comunidades.
O Imã Talib e outros muçulmanos afro-americanos traçam suas raízes aos escravos africanos trazidos do Oeste da Africa para trabalhar nas plantações no Sul dos EUA. Esta conexão histórica fez surgir o movimento de inspiração muçulmana no começo do século XX.
O mais importante deles é conhecido aqui como “Nation of Islam”(Nação do Islã). A pessoa que fundou a Nação do Islã, em 1930, o senhor W. D. Fard, espalhou a mensagem de que os negros pertenciam a uma tribo perdida de muçulmanos que eram superiores aos diabos de olhos azuis.
O ativista Malcolm X, até desligar-se por completo da Nação tambem pregava esta ideologia. Sob a tutela do senhor Elijah Muhammad, a Nação cresceu nos anos 60 em meio as lutas pelos direitos civis e o aparecimento do movimento negro de separação.
Este crescimento se deu, em grande parte, graças ao carisma de Malcolm X. É claro que eruditos islâmicos denunciaram este foco na raça como extremamente anti-ético. Entretanto, esta visão de raça perdeu sua força nos anos 70 quando o filho do senhor Elijah Muhammad assumiu a liderança do grupo após a morte de seu pai. Levando, inclusive, a Nação a seguir o caminho ortodoxo sunita da religião.
Louis Farakhan que, para muitos esteve envolvido na morte de Malcolm X, separou-se do senhor Muhammad levando consigo o nome e também a tradição da Nação do Islã. Contudo, hoje em dia, a vasta maioria dos muçulmanos afro-americanos segue a prática sunni que domina o mundo muçulmano.
Estima-se que há um total de 6 milhões de muçulmanos vivendo nos EUA atualmente. Destes, 25% são afro-americanos, 34% asiáticos, e 26% árabes, disse o senhor John Zogby, um pesquisador da população de muçulmanos nos EUA.
Para muitos afro-americanos, a conversão ao Islamismo significou uma ruptura com a cultura dominante anglo-saxã.
Há, nesta mistura, tensões econômicas. Assim como o doutor Khan, muitos imigrantes muçulmanos chegam aos EUA com diploma universitário e rapidamente prosperam, mudando-se para os prósperos subúrbios do país.
Há décadas, os afro-americanos observam frustrados os imigrantes remetendo milhões de dólares a seus países de origem, ignorando completamente os problemas dos muçulmanos pobres dos EUA.
Para o Imã Talib, foi impossível galvanizar a atenção das centenas de mesquitas depois que, em 1.999, a polícia de Nova York matou com uma rajada de balas na porta de sua casa o africano Amadou Diallo, que vivia no bairro do Bronx. “O que nós percebemos foi que quando o problema é doméstico, de repente nos encontramos sózinhos”, ele disse.
A longa tensão estourou na eleição presidencial de 2.000. Naquele ano, uma forte coalisão de imigrantes muçulmanos apoiou Geroge W. Bush porque ele prometeu, em campanha, parar com o assédio contra os árabes.
Semanas antes do ataque de 11 de setembro, o doutor Khan leu o livro “Black Rage”, de William H. Grier e Price M. Cobbs. O livro, publicado em 1.968, explora os inimigos psicológicos dos afro-americanos, e como o impacto do racismo é passado de geração a geração. “Ajudou-me a entender que, mesmo antes de você nascer, coisas que aconteceram 100 anos antes provavelmente o afetarão, disse o doutor Khan.
Ele enviou um e-mail aos amigos muçulmanos, incluindo o Imã Talib, compartilhando aquilo que ele aprendeu. O Imã do bairro do Harlem ficou contente, mas não convencido. “Eu o encorajei a seguir na luta” disse ele respondendo ao e-mail.

Edson Cadette