Manhattan, Nova York – O Hospital Psiquiátrico de Barbacena, conhecido como Colônia, abriu suas portas na cidade mineira em 1903 – apenas 15 anos após a abolição da escravidão negra no Brasil. Os horrores da escravidão ainda pairavam pesadamente na atmosfera das Minas Gerais, Estado em que o trabalho escravo foi largamente utilizado durante séculos.

Seu principal objetivo, nunca foi outro senão tirar de circulação os indesejáveis à sociedade, especialmente, a parte da população que teve suas raízes vinculadas ao trabalho nefato regime do trabalho escravo vigente no Brasil até 13 de maio de 1.888.

Nunca é demais lembrar que, logo após a Abolição, o Brasil, por meio do Estado que acabara de adotar a República como sistema de Governo, buscava fervorosamente o enbranquecimento da população. Foi essa razão que patrocinou durante décadas a vinda de imigrantes, especialmente, italianos e alemães a quem foram entregues para colonizar terras no sul do país. Confinar negros, os indesejáveis, entre portões fechados foi também uma opção utilizada.

Os indesejáveis trancafiados no Colônia não se restringiam aos negros; eram tambem os abandonados por suas próprias famílias, mesmo os que não sofriam de qualquer problema mental. A perda da virgindade (no caso da mulher), era motivo para alguém ser trancafiado e ficar à espera da própria morte.

Gracas ao incansável trabalho da jornalista Daniela Arbex que resultou no excelente livro Holocausto Brasileiro é possivel adentrar nesta câmara de horrrores que nada ficava a dever aos campos de concentração nazistas. Detalhe: o nazismo tinha como meta eliminar os judeus da Europa e do mundo; no Colônia, o objetivo era manter excluídos da sociedade, trancafiados até a morte, pessoas consideradas deliquentes, inclusive os acusados de pequenos delitos ou delito nenhum. Tudo sob o silêncio conivente, cúmplice e criminoso da comunidade medica, do Estado e da sociedade civil.

Segundo Daniela Arbex, 60 mil cidadãos morreram dentro desta catacumba, após terem suas dignidades humanas complementamente violadas. Há relatos de pacientes dormirem em camas forradas de capim, comerem seus próprios excrementos e andarem nus sob condições climáticas adversas. Choques elétricos eram aplicados ao mais rebeldes rotineiramente. Cadáveres amontoados eram deixados expostos em estado de putrefação. Os estupros eram corriqueiros, inclusive de crianças.

Apesar dos esforços de alguns funcionários bem intencionados, e de reportagens bombásticas chamando a atenção para as calamidades que aconteciam diáriamente, o Colonia funcionou por quase um século.

Lendo o livro dá para perceber que foi com esta mesma passividade que o Brasil convivem com mais de 350 anos de escravidão de africanos e também com a mesma passividade que aceita o verdadeiro genocídio praticado contra jovens negros pelo aparato do Estado.

Holocausto Brasileiro – Daniela Arbex – Editora: Geração

Viva Nova York

Se há um filme que deveria ser visto por muita gente no Brasil é o excelente Lee Daniel’s Butler (O Mordomo de Lee Daniel). O nome do diretor foi adicionado ao título em respeito aos direitos autorais de obra homônima.

A estória é baseada na vida de Eugene Allen, um mordomo que trabalhou por 30 anos na Casa Branca. O filme, logo nas primeiras cenas, mostra dois corpos pendurados envoltos na bandeira norte-americana. Era o que acontecia naqueles tempos aos que desafiavam o status quo no sul do país. Contado em off, Cecil Gaines (vivido pelo excelente Forest Whitaker) começa sua estória numa plantação de algodão. Feliz pore star ao lado do pai, o pequeno Cecil observa a fragilidade da relação entre negros e brancos quando sua mãe (vivida por Mariah Carey, numa participação especial) é levada para uma choupana para ser violentada enquanto seu pai atônito tenta manter a calm e a do filho. Ao confrontar o patrão, o pai é morto à queima roupa.

A patriarca da família (Vanessa Redgrave) acolhe o pequeno Cecil num ato de caridade e leva-o para trabalhar como serviçal encarregado de services domésticos. Ela mostra como deve realizar os services e também como manter-se invisível para os brancos. Estes ensinamentos ele carrega consigo até conseguir um trabalho como mordomo na Casa Branca.

Durante os 30 anos em que trabalhou como mordomo vemos as transformações sociais pelas quais o país passou. Foram oito presidentes. O filme mostra tambem sua vida fora do trabalho e com os amigos. Vemos sua casa bem decorada e limpa, mostrando a ascenção social de uma classe média negra entre os anos 50 e 80.

Interessante notar o conflito entre Cecil e o filho, com este ultimo buscando uma mudança radical no país, enquanto que Cecil encara tais mudanças radicais com reticência por saber o que pode acontecer quando se desafia o status quo, experiência vivida na própria carne.

O filme conta com atores de grande gabarito nos principais papéis. Entre eles estão: Robin Williams, Jane Fonda, Clarence Wiiliam III, Cuba Gooding jr., Terrence Howard e Allan Rickman.

Edson Cadette