Principalmente a história de que os negros escravos e libertos não contribuíram muito para a civilização brasileira, e ou, que os escravos não tiveram uma participação importante na abolição da escravidão. O mérito da abolição tinha ficado inteiramente nas mãos da princesa Isabel, e o Brasil só deixou de ser um país atrasado por causa da imigração européia.
Mas, voltando ao anos 80, o autoritarismo militar estava ficando para trás. Apesar das manifestações de greves que pipocavam país afora – lideradas, principalmente, pelos metalúrgicos do ABC, na pessoa do atual presidente Lula à frente do sindicato. O presidente Ernesto Geisel dava claros sinais de que a abertura democrática estava em curso e o inicio da década trazia novos ventos. Os anos 80 surgiam no Brasil como um sopro de ar em um ambiente carregado por anos de autoritarismo.
No cenário internacional, foi também no começo desta década que o líder operário polonês Lech Walesa desafiou o governo comunista, controlado pela antiga União Soviética com a greve nos estaleiros Gdansk.
Nos EUA, o ex governador da Califórnia e também ex-ator, Ronald Reagan, era eleito presidente da única potencia mundial que restava. O mundo voltava também seus olhos para o apartheid na África do Sul.
Ainda no Brasil surgiria no inicio da década, o Partido dos Trabalhadores (PT), com o slogan de renovação, de legenda imaculada. O país também ainda vivia a ilusão do milagre brasileiro (1969-1973). O milagre, tão decantado pelo então ministro da Fazenda, Delfim Neto, pregava que a onda do crescimento levantaria todos os barcos. Fazer o bolo crescer para então fazer a distribuição de renda.
O problema era que os barcos estavam encalhados. Somente uma coisa não se discutia: a situação de cidadão de segunda classe e da total invisibilidade em que se encontrava a vasta maioria da população afro-brasileira. Aliás, o Brasil convivia com esta disparidade racial sem nenhum problema. Era como se o negro não estivesse registrado no radar nacional.
Da minha parte, estava entrando na fase das responsabilidades. Para entrar na faculdade e, quem sabe, conseguir um bom trabalho. É claro que minha inocência nesta época pouco me permitia ver, e até mesmo articular com clareza, as divisões que haviam, principalmente, a divisão racial.
Toda minha formação escolar em São Paulo ensinou-me que o Brasil jamais teve algum problema racial a resolver. Ou mesmo que tivesse, tudo tinha sido resolvido com a declaração da Princesa Isabel, em 1888, pondo fim numa instituição que, havia definhava: a escravidão negra.
Entretanto, por causa dos grandes proprietários de escravos que se recusavam a aceitar a abolição, o escravismo se arrastava, tal qual um morimbundo, buscando sobreviver.
O fato é que o Brasil nunca resolveu, ou melhor, nunca tentou resolver o legado do escravismo, prá mim e para mais muita gente, hoje isso está claro.
Este, sem dúvida alguma, sempre foi fator determinante na condição social dos descendentes dos escravos. Para a sociedade brasileira, porém, sempre foi mais fácil abafar qualquer manifestação que entrasse em conflito com o mito da nossa suposta democracia racial.
O conflito entre o escravo negro e o senhor branco sempre existiu desde que os primeiros negros desembarcaram acorrentados em portos baianos. Muitos historiadores e intelectuais chegaram ao absurdo de afirmar que a escravidão brasileira não foi assim tão ruim, e que as escravas tinham relações sexuais voluntárias com seus senhores. Como se algum escravo tivesse alguma opção a não ser obedecer a seu dono.
Assim como milhões de afro brasileiros na minha geração, eu acreditava que a sociedade brasileira era sim, um democracia racial, e a mobilidade social dependia somente do esforço de cada indivíduo. Acreditar nesta falácia oficial do Estado brasileiro é uma das coisas que ainda me revolta, mesmo afastado ha décadas dos bancos escolares brasileiros.
Mesmo sem saber articular com muita clareza a divisão racial existente, ela começou a ficar clara a partir de 1981/82 quando fui pela primeira vez a um baile black. Até então, minha formação era de completa aceitação de tudo quanto era valor ditado pela elite branca.
Fossem estes valores estéticos, históricos, e ou morais. Em outras palavras, quanto mais distante – e ou indiferente -, eu pudesse ficar a tudo que fosse relacionado com a história da escravidão, o relacionamento entre a África e o Brasil, e também concordar com a absurda afirmação de que o continente africano em nada contribuiu para a humanidade em geral, mais aceitação eu encontraria dentro da sociedade brasileira.
É claro que nada disso eu consegui articular com clareza. Naturalmente sentia que havia no ar um problema racial. Por causa da minha condição social, freqüentava lugares onde muitas vezes era a única pessoa negra. Entretanto, como articular com clareza algo que ninguém, ou melhor, poucas pessoas estavam dispostas a discutir. Onde uma literatura sobre o nosso verdadeiro passado histórico estava restrita a Academia em teses uspianas.
O absurdo da minha inocência era tanta que quando fui procurar um trabalho na companhia aérea Varig, no inicio dos anos 80 como comissário de bordo, ainda acreditava que o perfil para uma vaga deste tipo era de uma pessoa branca, e de preferência de olhos azuis.
Nessa época, estava também cursando faculdade e tive a felicidade de encontrar um amigo que abriu minha cabeça intelectualmente para a situação de inviabilidade que o negro vivia. Isto num país que se vangloriava de ser um democracia racial. É claro que esta democracia tinha seus espaços demarcados, e os negros certamente sabiam quais eram seus lugares. Ou seja, nas quadras das escolas de samba e dentro dos gramados nos campos de futebol.
Me lembro bem da primeira vez que fui a casa desse meu amigo na Vila Mariana, na Zona Sul de São Paulo, e como fiquei impressionado ao entrar em seu quarto e ver pilhas de jornais espalhados por todo canto. Fiquei fascinado com sua inteligência, e também sua aguda percepção do problema racial.
Sempre conversávamos e nos perguntávamos como era possível em pleno final do século XX o negro brasileiro ainda ser visto, principalmente, como um bom sambista e ou um bom jogador de futebol. Não havia negros nas Letras, nas Artes ditas eruditas, na Política, na Academia, no Jornalismo, ou seja, em áreas que influenciam a cultura eclética, exemplos para que jovens negros como eu e meu amigo, com certo acesso as informações, pudéssemos nos guiar.
O MNU não era tão importante assim, e Abdias do Nascimento remava praticamente sozinho contra a maré. Por incrível que possa parecer, o ex-jogador de futebol Pelé ainda seguia sendo o exemplo de sucesso do negro brasileiro.
Em outras palavras, só nos restava conversar e pegar um pouco aqui e ali alguma informação sobre o tema. A nossa principal inspiração era a história dos afro-americanos. Tentávamos, através deles, transportar para a realidade brasileira o debate da invisibilidade dos afros brasileiros em todas as áreas.
Posso afirmar hoje em dia que há na cultura brasileira, em geral, uma idéia disseminada de que a cultura africana, ao mesmo tempo em que é elogiada “ad nauseam” como parte intrínseca da miscigenação brasileira, não é levada muito à sério como alta cultura.
A prova disso é que pouco sabemos do continente africano. Somos alimentados com as mesmas imagens de miséria e guerras tribais, como se a África, com seus mais de 50 países, se resumisse a isso. É claro que, quando se fala em alta cultura no Brasil, a Europa vem em primeiro, segundo e terceiro planos.
Em outras palavras, a área de influência africana no Brasil fica restrita quase que praticamente ao carnaval, a certos rítmos musicais associados aos negros, e também a culinária. Aliás o carnaval brasileiro é sempre usado como exemplo de que há uma irmandade entre negros e brancos.
Com minhas viagens, primeiro para Nova York, e depois para a África no final dos anos 80, comecei perceber com maior nitidez o racismo brasileiro. Ajudado por livros comprados no exterior e também no Brasil, percebi que o legado da escravidão ainda estava impregnado nas relações entre brancos e negros.
A diferença é que no final dos anos 80 eu não aceitava mais ser tratado como cidadão de segunda. Investido de conhecimento que até então não tinha, entrei a década de 90 preparado intelectualmente para refutar, de uma vez por todas, a falácia da nossa democracia racial.
Finalmente, tinha me libertado das amarras da minha ignorância e servilismo mentais a tudo que era ditado pela elite branca brasileira. Tinha atingido finalmente meu iluminismo, ainda que tardio!
*O título original do artigo é “Viva os anos 80: a década do meu iluminismo, ainda que tardio”.

Edson Cadette