Segundo dez dos onze ministros que compõem a Corte, as ações afirmativas/quotas são ferramentas indispensáveis para que haja, de fato, uma equiparação de oportunidades para uma grande parte da população brasileira que dificilmente teria acesso ao ensino superior por causa, única e exclusivamente, do sistema perverso chamado vestibular.
O sistema atual de triagem para o ingresso na universidade defendido pela elite Brasileira branca, e de negros ignorantes de seu próprio passado, como sendo totalmente meritocrático. Portanto, ele deve ser mantido sem qualquer alteração. É claro que a justificativa para é manter o status quo no pais. É fato indiscutível que não há, nas universidades brasileiras, a mesma diversidade étnico/racial da população do país.
Nunca houve por parte do ensino superior no Brasil e, consequentemente, por parte da nossa elite qualquer preocupação para que seus campus universitários representassem de fato a nossa tão decantada miscigenação.
(A nossa falsa democracia racial é uma ótima propaganda para que não haja mudanças, e também para vender a imagem do Brasil ao exterior de que não há qualquer animosidade e ressentimento entre negros e brancos.).
Se pesquisarmos as principais instituições acadêmicasl desde suas origens, veremos uma composição praticamente europeizada. Não somente com relação ao acesso ao ensino superior, mas também em todas as outras áreas: econômica, acadêmica, política, cultural e ou social.
(Recentemente fiquei sabendo que a revista Pais & Filhos há um ano não posta na sua capa a fotografia de uma criança negra. Isto não gera indignação na nossa elite europeizada.)
Acredito que nem mesmo num Estado como a Bahia, onde a população de afrodescendentes compõe a vasta maioria, o corpo estudantil na universidade federal local represente sua população.
A histórica decisão da Corte Suprema de que as quotas raciais não ferem a Carta Magna brasileira foi um duro golpe para aqueles que se recusavam em ver o abismo que ainda persiste entre negros e brancos em pleno século XXI. (Veja, Estadão, Folha, Globo etc).
Com toda certeza a decisão histórica de 26 de abril deveria ser comemorada por todos aqueles que desejam um país em que as oportunidades sejam realmente iguais para todos, independente de suas origens ou etnicidade. Infelizmente, o que se seguiu assim que a decisão foi anunciada foi um ataque dos formadores de opinião tentando desacreditar a decisão do STF.
Minha “surpresa”, entretanto, veio não do fato da mídia contrária as cotas, mas, sim, de um moribundo movimento negro brasileiro que fora algumas almas mais corajosas mal saíram de suas sinecuras estatais para celebrar esta data histórica. As ruas eram para estarem entupidas de pessoas celebrando a decisão dos juízes do Supremo.
Afinal de contas, a decisão afeta diretamente metade da população do país. Guardadas, é claro, as devidas proporções, esta data e tão importante como o 13 de Maio de 1888.
Quinta-feira, 26 de Abril, foi o dia em que o Estado brasileiro finalmente reconheceu a enorme dívida social que tem com os decendentes dos escravos. Detalhe: na semana do julgamento sobre a grande mídia deu mais destaque ao acidente envolvendo o filho do cantor sertanejo Leonardo do que a decisão do STF. Metade da população Brasileira aceitou passivamente esta inversão de importância. Triste, muito triste.
Viva São Paulo
São Paulo vista do alto é assustadora. A cidade se expande desordenamente. Foi isso que percebi ao avistar a cidade na minha chegada depois de um longo voo de 9 horas. Leio em jornais que favelas urbanizadas valorizaram os bairros afastados das periferias. Ao invés de criar condições para uma população carente poder comprar um imóvel decente, o Governo “urbaniza” favelas.
Para mim, isto mais parece uma maneira de manter os privilegiados em seus lugares. Só há mobilidade social quando as pessoas saem de seus “guetos” para conhecerem outras áreas nobres e ricas, e lutam para conseguir alcançar uma melhoria de vida, tanto material como intelectual.
Foi exatamente essa experiência que obtive ao deixar o “gueto” para frequentar escolas privadas de classe média alta, em São Paulo. Garantir que as pessoas tenham água encanada, luz, rua asfaltada etc. é obrigação de qualquer Governo que se preze. Agora, ajudar na mobilidade social da população, e preocupar-se com os cidadãos, é dever de qualquer Governo decente. Os Governos brasileiros nos três níveis (federal, estadual e municipais) está muito aquém disso.
Viva São Paulo II
Estive, juntamente com minha filhinha e uma estimada amiga, no Mercado Municipal localizado nas cercanias da região central da cidade, mais precisamente no Parque Dom Pedro II para comer um pastel. Segundo os guias culturais da cidade, o MM é visita obrigatória para aqueles que gostam desta iguaria paulistana.
Não posso dizer que fiquei decepcionado com o pastel que comi, tão pouco com o chopp escuro que bebi. A ressalva certamente fica para as cercanias do Parque Dom Pedro II. A área necessita de uma revitalização urgente, tanto do Poder Público como do setor privado.
Não sei quem está cuidando da revitalização do espaço, mas se a região da Rua 25 de Março é uma amostra do que os vários prefeitos vem fazendo nos últimos 20 anos, os paulistanos estão condenados a terem uma excelente refeição no MM, mas ao saírem continuarão altamente decepcionados com a enorme Calcutá que encontrarão à saída.
É uma pena que uma cidade da importância de São Paulo siga sendo tratada como uma filha bastarda por políticos preocupados somente com seus próprios interesses mesquinhos e não com a qualidade de vida dos mais de 11 milhões de almas que a habitam.
Viva São Paulo III
Estive nos arredores da Praça da Luz, aquela região que há décadas encabeça a lista da revitalização da região central, para ver a excelente exposição “Jorge Amado É universal”.
Segundo informações da Fundação Casa Jorge Amado, o escritor baiano já foi traduzido para 49 idiomas, o que o tornou o escritor brasileiro mais conhecido no exterior. Provavelmente só fica atrás do diletante Paulo Coelho. Sua obra é conhecida até mesmo em países como a Rússia.
A exposição, que fica em cartaz ate o dia 22 de Julho no elegante espaço do Museu da Língua Portuguesa, tem nada maenos do que oito mil fitas do Nosso Senhor do Bonfim, 1.800 garrafas de 2 litros de azeite de dendê, quatro sacas de cação, mais de 600 imagens de santos e orixás africanos, 80 documentos originais, 110 livros traduzidos, e 243 placas cronológicas.
Todo este material nos dá uma ideia sobre quem foi o escritor, sua relação com a cultura baiana, e o que provavelmente passava por sua cabeça ao criar personagens tão distintos e conhecidos como a brasileiríssima Gabriela, do romance Gabriela, Cravo e Canela.
A única nota triste na exposição foi que ao sair não encontrei livros, cartões postais da Bahia, camisetas do tema da exposição etc. para comprar. Os organizadores do evento certamente pecaram neste quesito.
Jorge Amado E Universal
Museu da Língua Portuguesa
Praça da Luz, S/N
3326-0775

Edson Cadette