A cidade também estava às voltas com uma onda de crimes cometidos por um assassino em série chamado Sam. Neste mesmo ano, eu deixava a escola pública, na Zona Leste de São Paulo, para estudar o Colegial (atual ensino médio) em uma escola de classe média alta chamada Álvares Penteado. Até hoje acredito que, ter ido para esta escola, foi uma das melhores coisas que aconteceram na minha juventude. É claro que o preço pago foi de alguma maneira alto. Minha assimilação pelos valores da classe média branca paulistana, ou seja, sua maneira de falar, de se vestir, os livros que deveria ler e até mesmo meu gosto musical foram marcados pelos três anos de Álvares Penteado.
Na época ainda acreditava fielmente na não existência do problema racial no país. Minha assimilação foi tanta que as pessosas nas quais tentata me inspirar, ou era alguém branco da sociedade brasileira, ou alguém branco da sociedade norte-americana.
Lembro-me de ter ido ver o filme “Os Embalos de Sábado à Noite” e ter ficado fascinado com o ator John Travolta. É claro que, na época, não sabia que os ítalos-americanos como grupo no bairro do Brooklyn, eram – como continuam sendo – altamente racistas em relação aos afro-americanos. Vim descobrir isso muitos anos depois.
Havia poucos afro-brasileiros estudando na Álvares Penteado. Não creio que o número deva ser muito grande hoje em dia. O interessante era que eu pouco me aproximava deles, e eles pouco se aproximavam de mim. Hoje fico pensando qual teria sido o motivo. Não me passava na cabeça que deveríamos nos unir, não para algum tipo de separação (nós negros e eles brancos) mas, para trocarmos idéias e experiências e, ao mesmo tempo, entender que éramos privilegiados por estarmos estudando em um ambiente de primeira linha.
Minha consciência sobre a realidade do afro-brasileiro veio muitos anos depois, mas cada um de nós já havia seguido seu próprio caminho.
MÚSICA
Eu não sabia quem era John Legend. Li na revista cultural “UPTOWN” que ele tem apenas 28 anos de idade. Três anos atrás ele ficou famoso após lançar o CD “Get Lifted”. Este álbum também lhe rendeu três prêmios Emmy, de Música, e para muitos foi considerado o álbum do ano. Sua popularidade foi tanta que a animadora Oprah Winfrey e o ex jogador de basquete Magic Johnson o chamaram para cumprimentá-lo. Junto com o sucesso vieram tambem seus detratores, os que o acusavam de pomposo e arrogante.
É claro que isto não o abalou. Ele credita estas falsas percepçõess à sua maneira confiante e séria de encarar o trabalho. Eclético, ouve de Marvin Gayle a Beatles. Sua meta à longo prazo é fazer um tipo de música que dure por muitos anos.
O jovem Legend não se encaixa na categora dos seus pares da música Rap, ou seja, ele não usa calça caindo, tênis desamarrado e tampouco enormes correntes de prata penduradas no pescoço. (Aqui o termo é conhecido como “Bling Bling”.) Quando jovem leu biografias dos importantes líderes pelos direitos civis dos afro-americanos junto com biografias dos presidentes norte-americanos. Aos 4 anos comecou a tocar piano, e por volta dos seis comecou a cantar solo nas igrejas.
Quando deixou a casa dos pais, em Ohio (Meio Oeste) aos 16 anos, para estudar na Universidade da Pensilvanya na Philadelphia (Leste), o jovem John já sabia que gostaria de ser um animador. Ainda na universidade, conheceu a cantora Lauryn Hill, em 1998, participando, inclusive, no álbum solo dela intitulado “The MisEducation of Lauryn Hill”.
Não me lembro exatamente quando, mas alguns meses atrás eu escutei uma de suas composições chamada “Save a Room”, e ela ficou “grudada” na minha cabeça. E por coincidência o vídeo desta música estava passando na televisão no quarto do hospital no dia que minha filha Núbia nasceu.
Há muito tempo eu não ouvia uma melodia romantica da nova geração que não falasse vulgarmente sobre sexo. A prova de que nem tudo está perdido em matéria de música é a presença deste jovem e talentoso cantor que se recusa a fazer parte da mediocridade que abunda nas rádios FM daqui de Nova York.
Servico
CD Once Again – 2006
CD Get Lifted -2004
John Legend

Edson Cadette