Aprendemos lendo seu livro, o desrespeito que a elite cafeicultora, e depois a elite industrialista, mantinha em relação à cidade, e a massa de trabalhadores que começavam a habitar a cidade no começo do século XX.
Por mais de 50 anos a área a qual denominamos periferia hoje em dia, receptora de uma massa de migrantes do norte/nordeste do país (o chamado êxodo rural), ficou praticamente a mercê dos especuladores imobiliários, e com pouca intervenção do Estado em relação à aplicação das leis, regulamentos, e também a infra-estrutura. Vemos com clareza que, muito dos problemas que a cidade continua enfrentando hoje em dia, é o legado da mentalidade escravocrata passada de geração à geração da elite paulistana.
É fascinante, e ao mesmo tempo triste, o que ela nos mostra a respeito da cultura do descaso a cidadania e aos direitos de seus cidadãos que sempre permeou a mentalidade das nossas elites. Mostrando como a infra-estrutura da cidade foi erguida em áreas onde a elite morava, vemos que fora destas áreas, o descaso com o resto da cidade era total. Percebemos ao ler este livro de onde vem nossa total falta de cidadania e espírito público. Este descaso com os cidadãos menos afortunados é passado para todas as áreas do poder publico e quem sofre com isto são estes mesmos cidadãos que dependem destes serviços públicos que o Estado teria como obrigação oferecer.
Um dos destaques entre muitos que me chamaram a atenção, é a maneira como o cidadão afro-brasileiro vem sendo tratado dentro da cidade desde o momento de sua libertação do cativeiro. Mesmo sendo somente uma parte da população, o afro-brasileiro sempre representou a maioria da população carcerária. Isto não quer dizer que o negro paulistano sempre esteve mais propenso ao crime, o que significa é que ele é freqüentemente assumido como sendo criminal.
É estarrecedor ler um mote entre os policiais da cidade a respeito da população negra:”Um negro correndo e sempre suspeito”. Infelizmente, este é um mote que ainda acompanha não somente a mentalidade da polícia, mas também a mentalidade de muitos cidadãos em São Paulo ainda hoje.
“City of Walls” mostra a iniqüidade na cidade, onde a elite em seus condomínios “fechados”, a classe média presa em seus edifícios, e a periferia a mercê de bandidos e policiais fazem parte do pandemônio que é esta megalópolis.
Ao terminar de ler o livro, percebi que a mitologia da formação da cidade com seus barões do café, seu industrialistas e seus imigrantes recém chegados da Europa e do Japão, não passa disto: uma grande mitologia. É só olharmos ao nosso redor, e observaremos com nossos próprios olhos o caos urbano que e a cidade de São Paulo e seus arredores!
“City of Walls – Crime, Segregation, and Citizenship in Sao Paulo”
University of California Press
Teresa P.R. Caldeira
IMIGRANTE
De acordo com o último censo da cidade, Nova York está deixando de ser uma cidade com uma maioria branca para tornar-se uma cidade onde a maioria será composta por grupos de minorias. Tão robusto tem sido o influxo de imigrantes à cidade que, hoje em dia, quase 40% de sua população é composta por imigrantes.
O departamento de planejamento da cidade estima que, de cada 10 nova-iorquinos, pelo menos seis são imigrantes ou filhos de imigrantes.
Os latinos e asiáticos estão na frente, assim como no passado estiveram os ingleses, italianos e alemães. Entretanto, a grande diferença com o passado é a variedade de nacionalidades que agora compõem a cidade. Além do mais, o número de pessoas que vive em uma casa que fala uma língua diferente do inglês é de 3,5 milhões.
Apesar da idéia apocalíptica que os conservadores tentam pintar contra os imigrantes(principalmente os latinos), e o desejo de voltar a um tempo utópico que nunca existiu, a verdade é que os imigrantes com sua ética de trabalho e sua cultura, contribuem para a grandeza deste país. Nova York, com seu mosaico de imigrantes, segue na vanguarda em acolher a todos de braços abertos.
COPA DO MUNDO
A equipe de futebol brasileira que disputou o mundial de futebol 2006 na Alemanha, com a aura popular de oitava maravilha do mundo, com os jogadores mais caros do planeta (Ronaldinho, Robinho, Adriano, Ronaldo, Dida etc.), não passou de um ato improvisado de circo de segunda categoria.
A equipe brasileira conseguiu iludir a todos os aficionados do futebol-arte no mundo até chegar ao seu jogo contra a França. O grande mago da partida entre o Brasil e a Franca foi Zidane. Enquanto conduzia a bola como se fôsse uma varinha de condão, cada vez que a tocava, os jogadores brasileiros entravam em transe.
É claro que até a próxima Copa do Mundo na África do Sul (onde muitos brasileiros farão piadas racistas a respeito deste Continente), surgirão várias teorias para explicar a grande decepção em matéria de jogo bonito que foi a equipe de Parreira.
Entretanto, uma coisa é certa: em matéria de oitava maravilha do mundo, esta seleção estava mais para Rocinha do que para o Taj-Mahal.
COPA DO MUNDO II
Um artigo bastante interessante foi publicado no periódico “The New York Times”, do dia 25.06.06 acerca da nossa habilidade de produzir craques de futebol (Leônidas, Didi, Pelé, Garrincha etc.).
O autor do artigo e o correspondente do periódico no Rio de Janeiro, Larry Rother. É o mesmo jornalista que, em 2005, quase foi expulso pelo nosso bronco grão vizir, que sentiu-se ofendido por causa de um artigo a respeito de sua ligeira dipsomania publicada no periódico.
O artigo tenta explicar aos leitores americanos (que pouco se importam com o futebol em geral), como o país segue produzindo jogadores talentosos (Ronaldinho, Robinho, Adriano, Dida etc.), em meio ao caos administrativo que são os clubes e a CBF. Dos 23 jogadores da equipe atual, somente três poderiam ser considerados jogadores que vieram da classe média. Apesar dos avanços que o país tem conseguido, para a imensa maioria dos jovens humildes (eufemismo para afro-brasileiros pobres), o melhor tíquete para conseguir prosperidade e prestígio continua sendo correr atrás de uma pelota de futebol dentro das quatros linhas do gramado.
Se a grande maioria dos jogadores profissionais no país vem das camadas mais pobres da população é porque, é através do futebol – onde a meritocracia ainda é respeitada – que estes jovens visam uma oportunidade de tirar suas famílias da periferia, e ou favela, e ao mesmo tempo, perder a invisibilidade dentro de seu próprio país.

Edson Cadette