Lembro-me de ter comprado este livro no Brasil. Infelizmente, ainda um jovem adulto na época, e com uma percepção completamente equivocada sobre a “democracia racial” brasileira, não tive a paciência necessária para lê-lo.
Pois bem, quase 20 anos depois, numa de minhas viagens de férias ao Brasil comprei novamente este importante livro. Após ler esta obra magna, acredito sinceramente que este livro deveria ser leitura obrigatória a todo docente de história brasileira que atua na rede pública de ensino no país. Para extinguirmos, de uma vez por todas, a noção de que a escravatura brasileira não foi assim tão ruim como sempre pregaram os defensores da nossa suposta “democracia racial”. Graças ao movimento negro brasileiro esta falácia vai se dissipando, ainda que lentamente.
Casa Grande & Senzala foi publicado em 1933. Somente 45 anos após a abolição da nossa instituição peculiar – a escravatura. O seu autor, Gilberto Freire nasceu na virada do século XX em Recife, foi neto de dono de escravos e, portanto, ouviu muitas histórias sobre a escravatura na sua terra natal.
Freire estudou nos EUA e Europa. Aos 33 anos escreveu o livro que, para muitos, é considerado o melhor guia para o entendimento das relações entre Portugal, África e o Brasil colonial.
Nesta obra você não vai ficar sabendo da nefasta travessia da África para o Brasil e, tampouco, sobre as condições sub-humanas a que foram submetidos os milhões de escravos acomodados como sardinhas nos porões fedorentos das naus portuguesas que, por mais de 300 anos, fizeram a travessia do Atlântico. Muita menos lerá sobre as péssimas condições de habitação e abusos físicos aos quais foram submetidos milhões de homens e mulheres escravizados trabalhando nas plantações e nas minas de ouro no Brasil.
Entretanto, a gama de informações sobre os índios, portugueses e depois os africanos no Brasil, durante os séculos XVI, XVII, XVIII e XIX farão com que você veja o Brasil como ele deve ser visto. Um país que foi forjado nas relações destas três etnias. Você vai ficar sabendo que os portugueses quando chegaram ao país trouxeram consigo a sífilis, contaminando, primeiro, os autóctones, e depois as escravas africanas.
Aprendemos que o arcabouço do país foi levantado em cima das costas dos escravos africanos. Estes mesmos escravos que, muitas vezes, tinham mais conhecimento do que o próprio português.
Vemos como o índio não se rendeu à escravidão e tampouco à monocultura das plantações de açúcar por ser um grupo nômade. Aprendemos como os portugueses corromperam, não somente com seu modo de vida, mas também com suas relações familiares, de amizade e de sociedade. Além, é claro, de usarem as índias para o prazer sexual sem a intenção de assumirem a paternidade dos filhos nestas relações. Nem mesmo a Igreja escapa do seu cepticismo como nesta passagem: “No século XVI, com exceção dos jesuítas-donzelões intransigentes-padres e frades de ordens mais relapsas, um grande número se amancebou com índias e negras; os clérigos de Pernambuco e da Bahia escandalizando Nóbrega. Através dos
séculos XVII e XVIII e grande parte do XIX continuou o livre arregaçar de batinas para o desempenho de funções quase patriarcais, quando não para excesso de libertinagem com negras e mulatas”. Pagina 495.
A Igreja Católica, não só foi uma forte aliada dos senhores de escravos no período colonial, como também defendeu arduamente a permanência do status quo. Para aqueles que quiserem saber mais sobre as relações entre as culturas africanas e portuguesa no Brasil colonial, e como os africanos “adaptaram-se” à monocultura das plantações e das minas de ouro, os dois últimos capítulos dedicados a este assunto, valem o preço do livro. Ainda hoje, muitos na comunidade afro-brasileira, sofrem com o estereótipo de vagabundos ou preguiçosos.
Entretanto, vejam o que escreveu Gilberto Freire sobre os negros recém-libertos: “Não se pode acusar de sujos e propagadores de imundíciesos os negros que, quando libertos, deram para baixeiros, dentistas, fabricantes de vassouras de piaçaba, importadores de sabão-da-costa; alguns, para lavar chapéus-do-chile, as negras para doceiras caprichosas na limpeza de seus tabuleiros; ou para lavadeiras igualmente asseadas”. Pagina 512. Há muito mais
informações sobre a sociedade brasileira no período colonial nesta obra-mestra de mais de 600 páginas acompanhada de notas em cada capítulo e uma extensa bibliografia.
Hoje, penso nos anos de condicionamento ao qual fui submetido nas aulas de história do Brasil. Em aulas que sempre exageram a participação dos europeus e asiáticos na construção do país em detrimento da contribuição do negro africano e o papel crucial que ele teve, não só na construção do país, mas também na cultura em geral. Felizmente, livros como Casa Grande & Senzala estão aí para serem descobertos por uma nova geração.
A leitura deste livro me fez colocar, de uma vez por todas, uma estaca no coração da nossa pseudo-democracia racial. Ideologia esta, jamais defendida pelo autor, como querem alguns de seus críticos na comunidade afro-brasileira.
MAL INFORMADO(A)
É o que posso dizer do leitor da FOLHA DE SAO PAULO que, está acompanhando o debate que está ocorrendo na sociedade brasileira sobre as Ações Afirmativas. É triste acompanhar o desenrolar deste debate na FOLHA, onde o periódico acirradamente ataca este programa governamental nos seu editoriais.
No editorial do dia 05.07.06, em mais um de seus ataques, o periódico reconhece que, por mais de quatro gerações, negros e pardos tem sido prejudicados (eufemismo para discriminados)quanto ao acesso à escola, ao salário, à saúde, aos empregos etc.
Entretanto, o periódico diz que o programa de Ação Afirmativa coloca em risco fundamentos conquistados com dificuldades ao longo do tempo pela democracia brasileira. Acredito que, para a imensa maioria de afro-brasileiros, estas palavras não passam de retórica pueril. É fato que o afro-brasileiro vem sendo veladamente discriminado no país desde 1888 com a cumplicidade da mídia que se esconde atrás da falácia da democracia racial.
É interessante notar que, ao mesmo tempo que o jornal aceita dados mostrando a disparidade entre brancos e afro-brasileiros em todos os índices sociais, critica uma política governamental que, pela primeira vez, está tentando nivelar um pouco o acesso aos bens oferecidos pelo sistema capitalista à população afro-brasileira.
Por não dividir igualmente seu espaço de opiniões aos que são contra e aos que são a favor deste programa o jornal acaba prestando um desserviço a nossa sociedade.
Mas o que podemos esperar de uma mídia que ainda não sabe o significado da palavra diversidade em suas próprias redações? A presença de opiniões de jornalistas afro-brasileiro nas redações dos grande jornais no país segue sendo história de ficção cientifica.
Shame! Shame! Shame!

Edson Cadette