Tive a nítida percepção, depois de assistir a vários noticiários do Brasil, de que a
pobreza no país está associada aos afro-brasileiros. Todas as vezes que o cidadão afro-brasileiro é mostrado na TV é sempre onde a pobreza é manifesta, nunca a comunidade afro-brasileira e mostrada em um ambiente onde está associada a valores e lugares freqüentados pela classe média branca brasileira.
É mais ou menos como aquelas imagens da África onde somente a pobreza é mostrada diariamente nas redes de TV. Como se somente estas imagens africanas representassem aquele vasto Continente com mais de 50 países. Outro fator muito interessante que percebi em alguns destes noticiários foi a quase total exclusão de apresentadores afro-brasileiros na Rede Globo.
Por causa disto, eu resolvi fazer uma pesquisa não científica para poder comprovar minha tese de que a televisão brasileira é altamente preconceituosa em relação à sua população afro-brasileira, no que diz respeito à contratação de apresentadores de tele-jornais.
A Rede Globo oferece aos seus telespectadores um total de mais de 14 noticiários diários. Segundo minha pesquisa, há um total de 96 apresentadores de notícias, mas deste total, somente 2 são afro-brasileiros, o jornalista Heraldo Pereira, que é um dos substitutos do Jornal Nacional, e a apresentadora da revista dominical Fantástico, Glória Maria. E nós no Brasil achamos esta “diversidade” de apresentadores é a coisa mais natural do mundo. Um mês depois de serviço Globo.com eu sinto a mesma vontade que sentiu o crooner Marvin Gaye num de seus grandes sucessos dos anos 60 “Makes me Wanna Holler” (Tenho Vontade de Gritar!)
Paulo “Dono da Verdade” Francis
Há dez anos falecia o jornalista brasileiro que mais me influenciou intelectualmente. Comecei a ler sua coluna na faculdade no começo dos anos 80 através de um amigo. Lembro-me que, na época, especulávamos sobre como ele poderia escrever sobre assuntos variados e com tanta clareza e autoridade. Achávamos que tinha uma equipe que trabalhava para ele. Naturalmente nos enganamos.
É certo que ele escrevia tudo sozinho, e correto afirmar também que, às vezes, exagerava no que escrevia, e em outras não se preocupava muito em verificar se as afirmações estavam corretas. Muitas vezes também foi acusado de xenomaníaco,anglomaníaco, sexista, homossexual (enrustido) já que ele vivia com a jornalista Sonia Nulas, e até racista. Mas, isto não nos impedia de acompanhar suas colunas na última página da Folha de São Paulo duas vezes por semana. Era impossível ficar passivo após lê-lo.
Suas informações sobre livros, museus, teatros, cinema, música, restaurantes e cultura em geral me deixavam com água na boca. Lendo sua coluna, eu me via caminhando pelas ruas da Capital mais famosa do planeta. A maneira como ele escrevia nos fazia passear pelo museu Metropolitan de Nova York (seu (favorito). Quando mencionava sobre alguma exibição em cartaz na cidade, ou nos fazia querer comprar o mais recente livro publicado de um de seus autores favoritos – o Sr. John Updike.
Lembro-me a primeira vez que o contactei por telefone aqui em Nova York. Procurei seu nome na lista telefônica e estava lá. Perguntei-lhe se ele poderia autografar seu livro “Trintas Anos Esta Noite”. Cordialmente pediu-me que deixasse o livro na portaria do prédio onde morava na esquina da rua 47 com a segunda avenida e me avisaria quando eu poderia ir buscá-lo.
Tive o privilégio de conhecê-lo pessoalmente. Fui também convidado por ele para ver a gravação do programa “Manhattan Conection” com a equipe original: Lucas Mendes, Paulo Francis, Caio Blindar e Nelson Motta. E sempre que o trabalho me permitia eu estava lá para dar muitas risadas e ouvir suas histórias ao vivo.
Hoje, quando vejo a coleção de livros que possuo, os lugares que visito em Nova York, a cultura que adquiri, o que eu aprendi sobre os EUA nos livros indicados por ele e, principalmente, a visão que adquiri de um cidadão afro-brasileiro, sobre a sociedade brasileira mesmo fora do país há mais de 15 anos, eu devo muito ao Francis. Sua influencia continua sendo enorme dentro do Brasil, apesar de seus destratores.
Para aqueles que desejam iniciar-se na aventura do conhecimento, e desejam saber também o que é ser um “Freethinker” (Pensador livre), ler o Sr. Paulo “Dono da Verdade” Francis é um ótimo começo.

Edson Cadette