Segundo ele, o grande problema que impede este avanço é que os afro-brasileiros não estudam muito (comparando com os brancos e asiáticos), e quando estudam são em escolas precárias e mal equipadas, que não possibilitam aos seus alunos o conhecimento necessário para que possam competir em igualdade.
Parece que, por ignorância ou inocência, o Senhor Kamel esquece que o único grupo étnico que não obteve nenhuma política pública do governo direcionada a sua comunidade foram os afro-brasileiros, ao contrário de italianos, alemães, japoneses etc.
Ele afirma que as políticas de Ação Afirmativa, que estão sendo atualmente debatidas no país, e implementadas em algumas universidades, tomaram sua forma durante os anos 50 na chamada escola de sociologia da USP onde o presidente FHC era um dos mentores, trará o ódio racial até aqui inexistente. Entretanto, somente quando FHC tornou-se presidente essas políticas começaram a ser implementadas.
Logo no primeiro capítulo Kamel afirma. “Foi um movimento lento. Surgiu na Academia, entre alguns sociólogos na década de 1950 e, aos poucos, foi ganhando corpo até se tornar política oficial de governo” (pág. 17). Temos a impressão, lendo este livreto, que, enquanto o debate acerca dos afro-brasileiros, era confinado aos acadêmicos a sociedade não estava muito preocupada com este tema, ou com o papel dos cidadãos afro-brasileiros.
Segundo ele, o Brasil sempre sentiu orgulho de sua miscigenação, só que não nos informa o porque deste orgulho ou como ocorreu esta miscigenação. Hoje é fato conhecido que esta miscigenação foi, nada mais, do que o coito forçado dos portugueses com as mulheres escravizadas sequestradas durante a escravidão.
Seria também interessante que ele nos informasse porque esta tão decantada miscigenação é quase inexistente nas classes A e B, ou o porque na empresa do seu patrão durante os anos 80 não havia, entre as crianças que dançavam para a loura mais famosa do país na época, uma única criança afro-brasileira. Afinal para participar de um programa infantil não é necessário nenhum diploma especial, ou o porque por mais de 30 anos nenhum afro-brasileiro foi apresentador do jornal mais assistido.
Onde estão os exemplos deste tão decantado orgulho da nossa miscigenação que ele escreve ad nauseum neste panfleto. Talvez fique para o próximo livreto.
O livreto segue o seu vomitório afirmando que depois da Abolição os afro-brasileiros não enfrentaram nenhuma barreira institucional e foram criadas leis rigorosas para punir os infratores, sendo a lei Afonso Arinos a mais famosa delas. Ficamos esperando exemplos concretos de cidadãos que foram punidos por racismo no país, mas o autor não cita um único caso.
Entretanto, para tentar mostrar que o problema do país é somente a pobreza, ele cita o caso dos policiais que assassinaram o jovem dentista (Flávio Santana) em São Paulo. Para ele, o jovem dentista foi assassinado somente porque tinha a aparência de pobre, já que os policiais que o assassinaram eram todos negros, então não poderiam ser racistas.
Infelizmente, parece que o Senhor Ali Kamel não está familiarizado com o termo “SELF HATE”. Numa tradução livre, quer dizer que o afro-brasileiro é tão humilhado psicologicamente e o estigma de sua cor é tão negativo que ele passa a se odiar. Ele próprio não aceita outro afro-brasileiro bem sucedido. O que aconteceu com o jovem dentista não tem nada a ver com “classismo” como ele quer nos fazer entender. Mas, é claro que isso você não lerá neste panfleto barato. Há discursos e mais discursos como a nossa sociedade combate o racismo. Vejam o que está escrito na pagina 101. “O negro que dirige um carro de luxo e é confundido com um motorista, e, por isso, maltratado, é mais vítima de” classismo” do que de racismo. Uma vez desfeito o mal-entendido, um tapete vermelho se estende para a vítima.”
Em outras palavras, ele vive num mundo virtual, um mundo fictício que insiste em ver as relações entre os afro-brasileiros e os brancos no país como as mais cordiais do planeta. Ele se esquece que no seu Estado até os anos 80, aos afro-brasileiros não era permitido acesso à área social do clube Fluminense. Sua colega de profissão e de empresa foi barrada em um hotel também na cidade maravilhosa. Foram estes casos isolados? Não.
O penúltimo capítulo é dedicado ao que ocorre freqüentemente com jogadores negros nos campos europeus. Ele defende o jogador Ronaldo que foi alvo de críticas por ter declarado ser branco. Ele escreve na pagina 139. “Em outros tempos, talvez muitos racistas questionassem a cor de Ronaldo, mas envergonhadamente, porque a nossa etiqueta social nos impunha ignorar questões relativas à cor. Ronaldo se acha branco? Ótimo, a vida é dele. Para a maioria, a cor do Ronaldo não seria uma questão. Mas, no Brasil de hoje, vira escândalo.”
O autor não se pergunta o porque do Jogador Ronaldo se achar branco mesmo sabendo que seus pais são afro-brasileiros. Esta negação do Ronaldo é o ódio a tudo que está relacionado ao continente africano; se puder distanciar-se do “negativismo” que ainda acompanha a Mãe-Pátria melhor para ele. Infelizmente ele não é o único a pensar assim dentro do Brasil. Livros como este são bons porque mostram que há muitas pessoas no país em posições vantajosas que acreditam que somente estudar mais horas será o suficiente para quebrar a barreira invisível do preconceito e do racismo. Enquanto pensamentos como estes fizerem parte da nossa elite a comunidade afro-brasileira seguirá patinando sem sair do lugar!
Serviço
Não Somos Racistas
Ali Kamel
Editora Nova Fronteira. 143 paginas

Edson Cadette