Pensei no Brasil enquanto sentava. Isto mesmo, pensei nas peças teatrais que assisti, e onde, muitas vezes, eu e uma antiga namorada éramos os únicos afro-brasileiros na platéia. No Brasil, gostamos de ser reconhecidos pela nossa cordialidade entre negros e brancos, mas é triste saber que ainda hoje você vai ao teatro em São Paulo e não encontra uma única peça teatral que trate do tema da experiência única e da historia dos afro-brasileiros no país.
É interessante notar também que quando há alguma remontagem de peça de teatro norte-americana, em São Paulo, jamais alguma de dramaturgos afro-americanos é escolhida para encenação. Onde está a nossa tão decantada diversidade?
“Radio Golf” faz parte de um repertório de 10 peças contando a experiência afro-americana nos EUA durante o século XX – particularmente, na cidade de Pittsburgh. Esta história acontece em 1997 em uma comunidade chamada Bradford Hill. Uma comunidade em decadência que necessita urgentemente ser revitalizada.
Um empreendedor imobiliário (Harry Lemix, do filme Ray) com sonhos de tornar-se prefeito de Pittsburgh e seu sócio associam-se com algumas empresas para um negócio que renderá milhões de dólares e, ao mesmo tempo, o lançará como candidato à prefeitura.
Seus planos políticos começam a minar quando o dono de um casarão abandonado reaparece para reclamar a propriedade que está a ponto de ser demolida para dar lugar a uma construção de condomínios.
Com diálogos memoráveis, a peça trata das dificuldades da classe média afro-americana em fazer parte do sonho americano e, ao mesmo tempo, não esquecer que sua raizes estão ligadas também a história daqueles que estão na base da pirâmide social e não conseguiram a ascenção, ou seja, a historia comum do passado escravocrata que ambos os grupos compartilham nos EUA.
Assim com eu, todos que estavam no teatro aplaudiram de pé para mais esta ótima peça deste ótimo contador da história afro-americana contemporânea nos EUA. É uma pena que o afro-brasileiro ande à passos de tartaruga para contar sua própria história dentro do Brasil.
LEGADO
(Octavia E. Butler, 1946-2006)
Você provavelmente já ouviu falar de Philip K. Dick, autor do livro “Do Androids Dream of Electric Sheep?”. Este livro foi inspiração para o filme “Blade Runner”(1982) estrelado por Harrison Ford e dirigido por Ridley Scott. Acredito também que você já ouviu falar de Isaac Isimov, autor do livro “I, Robot” que foi inspiração do filme homônimo estrelado por Will Smith e dirigido por Alex Proyas em 2004.
E que tal a escritora Octavia E. Bluter? Você já ouviu falar dela ou do seu livro mais famoso intitulado “Kindred”(Afim)? Este livro ainda não foi transformado em filme. Entretanto, também faz parte da coleção de livros de ficção científica publicados aqui nos EUA. A senhora Butler escreveu uma dezena de livros de ficção cientifica e, apesar de ter ganho vários prêmios literários ao redor do mundo, esta escritora afro-americana é pouco conhecida no Brasil.
Seu livro mais conhecido “Kindred” conta a história de uma jovem afro-americana nos anos 70 na Califórnia que, de repente, é transportada para o tempo da escravidão no sul do país. O livro mistura ficção, fatos históricos e, ao mesmo tempo, tenta mostrar aos leitores como era a vida durante o período escravocrata.
A senhora Butler, em uma entrevista para o periódico “New York Times”, disse que se sentia como uma estranha dentro da sociedade norte-americana. Por isso, seus personagens estão sempre lutando contra as convenções da sociedade. Muitos de seus personagens foram baseados na sua mãe que, segundo a autora, trabalhava como empregada doméstica sofrendo humilhações de famílias brancas. Mesmo em uma área que sempre foi dominada por homens brancos, a senhora Butler conseguiu através de seus livros de ficção mostrar um pouco da história afro-americana nos EUA. Senhora Butler, descanse em paz!
PELÍCULA
“Akeelah and the Bee” (2006) é uma fábula contemporânea. É a história de uma jovem afro-americana inteligente, mas que não está muito preocupada em destacar-se entre suas amigas na escola onde estuda. Apesar de tirar ótimas notas ela se recusa a participar de uma competição escolar para saber quem é o melhor aluno (a) em soletrar palavras. O termo aqui e chamado “Spelling Bee”. É uma mania nacional. Jovens disputam nacionalmente quem é o melhor soletrador do país.
Depois de ganhar o concurso na sua escola, Akeelah (Keke Palmer) é convencida a participar de uma competição interescolar. O problema surge quando sua mãe desconfia que Akeelah está mais preocupada em participar das competições do que em passar de ano.
Neste filme, estão mais uma vez reunidos Larry Fishburne e Angela Bassett. O senhor Fishburne faz o papel de um professor sizudo que irá ajudar a pequena Akeelah a superar todas as barreiras até chegar a grande final, e ao mesmo tempo, tentará exorcisar o fantasma da morte de sua pequena filha. Enquanto isso, a senhora Basset no papel da mãe durona tentando manter a família unida no bairro barra pesada do “South Central” após a morte do marido.
Ela irá amolecer sua postura após perceber que sua filha tem um talento especial. Até mesmo o “bad boy” do filme irá torcer junto com toda a comunidade para o sucesso da pequena Akeelah. O filme combina humor, tristeza e perseverança. Você sai do cinema altamente inspirado pela melhor palavra soletrada do filme A-M-O-R.

Edson Cadette