Encastelada em sua redoma de vidro, a mídia, no país, está prestando um desserviço ao debate que está acontecendo em praticamente todas as áreas dentro da nossa sociedade, mesmo reconhecendo que a grande maioria da população brasileira apóia este tipo de programa público. Enquanto o negro brasileiro “concordou” com o mito da democracia racial porque as imagens e informações controladas pela mídia mostravam informações distorcidas sobre afro-descendentes reinvidicando seus direitos em outros países, especialmente nos EUA, mostrando, neste ultimo, distúrbios em áreas urbanas densamente povoadas por afro-americanos, as relações cordiais entre negros e brancos eram respeitadas pelos donos do poder no Brasil.
A mídia usava estas mesmas imagens para tentar perpetuar a idéia de que os afro-brasileiros viviam bem melhores que seus irmãos afro-americanos, porque no Brasil, não só não havia racismo, como brancos e negros viviam harmoniosamente lado a lado. Por outro lado, esta mesma mídia deixava de mostrar também os avanços e conquistas dos afro-americanos nos EUA, resultando no grupo de afro-descendentes mais forte economicamente e intelectualmente no mundo.
A partir do instante que a população afro-brasileira começou a obter informações através de outros meios de comunicação, (Internet) fora da mídia principal, e começou a duvidar não só do mito da democracia racial, mas também das informações distorcidas que estava recebendo sobre o debate acerca das Ações Afirmativas vindo de outros paises, vimos os representantes da mídia nacional junto a seus lacaios saírem de suas tocas com suas garras afiadas, não para a troca de idéias e debates, mas para sua supressão.
O mais recente ataque veio do Grupo Abril, o qual fiquei sabendo, está associado a um grupo sul-africano que era defensor do regime racista naquele país conhecido como apartheid. Veja, em matéria de capa intitulada “Raça Não Existe”, em artigo de apenas 7 páginas recheadas de fotos com celebridades afro-brasileiras, tenta suprimir o debate sobre as Ações Afirmativas. No artigo, a Revista afirma que, por circunstâncias históricas e não racismo há um enorme contingente de negros pobres no país. A Revista deveria ter explicado melhor o que são circunstâncias históricas. A Revista também afirma, em mais um famoso clichê, que manifestações racistas são punidas na letra da lei.
Entretanto, os autores não apresentam um único exemplo concreto de punição por racismo no país (*). Por último, somos (mal) informados que autores afro-americanos elogiam nossa democracia racial. Mas isto não é um contra-senso já que raça não existe?
Nada poderia ser mais mentiroso. Conversei pessoalmente com vários autores afro-americanos. Michael Eric Dyson, Cornel West, Brent Staples e Orlando Patterson, para ficamos somente em alguns. Sem exceção, todos afirmam que o Brasil é um país altamente racista. A elite brasileira, através da mídia, não quer enfrentar este problema, ela acha melhor continuar alimentando a idéia de que os negros no Brasil estão felizes e não tem o porque reclamar de sua condição dentro do país. Ainda bem que nem todos os afro-brasileiros vivem na “Terra do Faz de Conta” da democracia racial brasileira!
* Este artigo foi escrito antes da suspensão do professor da UnB por ofensas racistas a seus alunos.
PELÍCULA I
“Catch a Fire” (2007) é um filme de suspense baseado em um fato real ocorrido na África do Sul. É a história do jovem Patrick Chamusso (Derek Luke) um trabalhador apocalíptico que trabalhava em uma refinaria nos anos 80. O país ainda vivia sob o regime racista conhecido como Apartheid.
Patrick era casado, vivendo com sua esposa, duas filhas e sua mãe. Sua maior preocupação, além da família, era cuidar de um time de futebol infantil. Após ser acusado injustamente de ter sabotado o lugar onde trabalhava, ele é preso, torturado e colocado na mesma cela junto à sua esposa. Depois de perder tudo o que possuía, ele jura vingar-se dos africâneres que o humilharam e também destruíram sua vida. Sem mais nada a perder, ele deixa o país e vai para Angola para receber treinamento militar junto a outros sul-africanos para tentar derrubar o governo racista branco. Ao retornar, é preso novamente passando um período de 10 anos na prisão saindo somente com o fim do regime apartheid no começo dos anos 90.
O filme conta ainda com a participação do ator norte-americano Tim Robbins, no papel de um coronel no comando do grupo anti-terrorista. Recomendo este filme para os jovens que gostariam de aprender um pouco sobre o relacionamento entre brancos e negros durante o período do apartheid na África do Sul.
PELICULA II
O dinheiro compra felicidade? Não. De acordo, é claro, com o dito popular entre os pobres. Para o lúmpen proletariado, o importante é ter saúde. Entretanto, não é bem isto que pensa Chris Garner (Will Smith), no filme “The Pursuit of Happyness” (Em Busca da Felicidade, 2007). O senhor Garner é vendedor de máquinas “scanner” no começo dos anos 80. Após investir a poupança da família neste negócio, ele chega à conclusão de que, além de caras, as máquinas não são de muita praticidade para seus compradores, neste caso os hospitais da Califórnia.(Oeste dos EUA)
Endividado, ele conta com a ajuda de sua mulher Linda (a belíssima Thandie Newton do filme “Crash”) que segura as pontas em casa fazendo horas extras no trabalho. Junto com seu filho eles vivem em um pequeno apartamento. As coisas começam a ficar mais complicadas quando o aluguel atrasa mais de 3 meses e sua mulher começa a perder a paciência com a situação desesperadora em que se encontram. Daí para a separação não demora muito.
Sózinho, com a custódia do filho, acompanhamos a trajetória de sua luta desesperadora atrás do “American Dream”. (Sonho Americano)
Em nenhum momento ouvimos uma única palavra dele contra o sistema capitalista pela ma distribuição de renda, ou o racismo que é notório em “Wall Street” em relação a oportunidades aos afro-americanos. Mas como isto é um filme hollywoodiano, e o filme e baseado em uma história real como dizem em Hollywood, é difícil ficar indiferente à ótima atuação do ator principal neste conto de fadas.

Edson Cadette