Com o fim do tráfico, o Estado brasileiro começou a buscar trabalhadores europeus livres para substituir a mão de obra escrava no país. A mesma mão de obra que construiu o arcabouço do país sob a chibata, mas que ficou à mercê de sua própria sorte sem o respaldo do Estado para fazer a transição do cativeiro para o trabalho livre.
Entretanto, os europeus se recusavam a ir para o Brasil porque o país tinha a fama de gente sem palavra que não respeitava tratados, e país de piratas que não respeitava leis internacionais. Esta reputação era um grande impedimento para atrair trabalhadores europeus à nossas praias. Hoje, sabemos que para atrair os imigrantes, o governo brasileiro ofereceu incentivos financeiros e, sabe-se lá, mais o que para atrair a turba de ignorantes e sem perspectivas em seus países de origem para trabalhar no novo mundo. E uma parte da população brasileira, ignorante da nossa história ainda acredita que as Ações Afirmativas ferem a isonomia da Constituição. Blá, blá, blá…
O livro “Mauá Empresário do Império” é um livro cheio de informações importantes para as pessoas que querem entender a complexa realidade em que vive o país e o porque do nosso perpétuo atraso. O livro se concentra na biografia de Irineu Evangelista (Barão de Mauá), um brasileiro com uma visão bastante avançada para a época. Acompanhamos sua saída do Sul enquanto criança para ficar primeiro sob a tutela do português Pereira de Almeida traficante de
escravos no Rio de Janeiro, e depois sob a tutela do mentor escocês Richard Carruther que o moldaria no grande empresário que se tornou.
Fundador de várias empresas, entre elas, um estaleiro, um banco, e uma ferrovia. Poderíamos considerá-lo como uma grande alavanca do progresso brasileiro, num país onde a mentalidade escravocrata e a ojeriza ao trabalho, a não ser, é claro, o feito pelos escravos, era a norma. Será que a nossa mentalidade mudou muito hoje em dia? Não acredito.
Uma vez mais, aprendemos neste importante livro, que a grande força motriz da economia brasileira e o centro de toda a engrenagem do dinheiro no Brasil era o comércio de carne humana que os portugueses, e depois os brasileiros, aperfeiçoaram de tal maneira que, no ápice deste comercio, mais de 50 mil africanos ao ano aportavam no país. O Rio de Janeiro, capital na época,
era a principal receptora desta carga de seres humanos que durante a noite ficava trancafiada em saletas e porões para serem expostos como mercadorias, e durante o dia, acorrentados, ficavam expostos perto do porto da cidade para inspeção e futuro trabalho em alguma fazenda de café ou açúcar.
Aqueles que se interessam pela nossa história, e quiserem aprender um pouco mais a cerca de onde vem a nossa mentalidade escravocrata e o racismo latente que ainda permeia a cultura brasileira no século XXI, o livro de Jorge Caldeira é uma excelente opção.
Mauá Empresário do Império
Jorge Cadeira
557 paginas. Companhia Das Letras.
África
O descaso com o qual os chamados países desenvolvidos têm com o Continente Africano esteve mais uma vez presente em recente episódio envolvendo um navio-tanque holandês.
Com uma carga de lixo tóxico que custaria em torno de 300 mil dólares para ser tratada e depositada na Europa, o navio-tanque saiu da Holanda para Estônia e seguiu para a Costa do Marfim, onde seu lixo foi despejada na calada da noite.
O navio-tanque pertence a uma companhia suíça com escritório em Londres chamada Trafigura que, em 2005, obteve o astronômico lucro de 28 bilhões de dólares. Como o escritório se recusou a pagar pelo tratamento do lixo tóxico na Europa, o navio-tanque seguiu para a África.
Segundo autoridades médicas africanas, mais de 85 mil pessoas procuraram serviços médicos e 8 morreram por causa da intoxicação com o cheiro do lixo.
É claro que agora ninguém quer assumir a responsabilidade por mais este desastre ecológico na Mãe-Pátria. Contudo, uma coisa é certa: enquanto os cidadãos africanos não forem aceitos como iguais perante o resto do mundo, continuaremos a presenciar atitudes como esta com a população africana.
Para milhões de pessoas ao redor do mundo, incluindo aí os brasileiros “não racistas” do Senhor Ali Kamel, a África continua sendo nada mais do que um grande depósito de lixo. Triste, muito triste!

Edson Cadette