É interessante notar nesta discussão que as pessoas contrárias a esta política, e suas visões apocalípticas sobre o suposto efeito negativo nas “harmoniosas” relações raciais no Brasil, têm muito mais espaço na mídia brasileira para expressarem suas opiniões do que aqueles que são a favor de tal política, ou aos benefícios que esta poderia trazer aos milhões de afro-brasileiros que não teriam outra maneira de cursar uma Universidade.
Um observador mais atento pode notar também que os críticos são todos beneficiários do status quo no país, e em suas áreas de atuação, a presença do negro brasileiro e em muitas instâncias é quase sempre rara ou nula. As políticas de Ação Afirmativa, no Brasil, não estão sendo debatidas, elas estão sendo massacradas como o boneco do Judas no sábado de Aleluia.
Vejam, por exemplo, o caso dos três principais meios de comunicação de São Paulo – os jornais O ESTADO DE SÃO PAULO, a FOLHA DE SÃO PAULO e o semanário VEJA, que é distribuído nacionalmente; nenhum deles tem algo positivo a dizer a respeito de tal programa.
Nem mesmo a ousadia de admitir que algum tipo de política governamental precisava ser criado para inserir os milhões de afro-brasileiros desprovidos, no mundo cosmopolita e capitalista do século XXI. Entretanto, é só algum pseudo-intelectual entrar em contacto com estas publicações que sua diatribe contra esta política será publicada prontamente.
Leitor(a), quando foi a última vez que você leu alguma coisa positiva sobre este tipo de programa? Quando foi a última vez que você leu algo do ponto de vista de algum intelectual negro a favor de tais medidas? Ou melhor ainda: quando foi a ultima vez que você leu na mídia a admissão de que existe racismo no país, e que certamente ele afeta a milhões de afro-brasileiros diáriamente?
A mídia brasileira gosta de citar os EUA quando lhe é conveniente. Neste caso, ela gosta de apontar casos onde há disputa dentro do sistema norte Americano das Ações Afirmativas. Ela se esquece, porém, de notar que este debate vem acontecendo nos EUA há mais de 40 anos. Diferentemente do Brasil, os EUA estão sempre discutindo a condição dos seus cidadãos afro-americanos, e o legado racista ao qual sua população foi submetida.
Por causa desta discussão, e de programas voltados para esta população, é que hoje o negro norte-americano é o mais influente do Planeta. Por mostrar coragem, os EUA, apesar de todo seu passado de conflitos raciais, está a caminho de eleger um presidente negro.
No Brasil, temos medo de falar a palavra racismo, e a mídia brasileira não tem resposta para explicar a disparidades entre os brancos influentes e donos do poder, e os milhões de afro-brasileiros desprovidos.
Em sua cegueira, a mídia não consegue perceber também que o negro brasileiro sempre foi tratado como subalterno em seu próprio país, enquanto outros grupos étnicos avançavam. Tampouco ela se pergunta porque os afro-brasileiros, em sua vasta maioria, seguem na base da pirâmide social em pleno século XXI, depois de ter deixado o cativeiro há 120 anos.
O clichê de que o problema da pobreza entre os afro-brasileiros é puramente social não cola mais. Aparentemente, a mídia no Brasil não vê, ou melhor não quer enxergar o óbvio ululante, ou seja, o negro brasileiro vem sendo veladamente discriminado desde sua emancipação com sua total cumplicidade. De minha parte eu também fui iludido ao acreditar na utopia do Shangri-lá brasileiro da democracia racial quando ainda morava no Brasil.
Felizmente, acordei deste torpor e, para minha felicidade, há uma extensa literatura sobre a história brasileira aqui em Nova York. Através de leituras sérias consegui escapar de dentro do pensamento da caverna mental que abunda a cultura brasileira em geral. Uma cultura que se recusa a debater o assunto mais importante do pais, ou seja, o legado nefasto que a escravatura deixou ramificada em todas as áreas da sociedade brasileira, afetando desproporcionalmente os afro-brasileiros no país.
ÁFRICA
No espaço de apenas uma semana, um dos países mais estáveis, promissores e desenvolvidos do Continente Africano, o Quênia, tornou-se um campo de batalha entre duas de suas principais etnias, os Kikuyus e os Luos.
Tudo começou com o resultado da eleição que ocorreu no dia 27.12.07 para escolha do presidente. O atual presidente Mwai Kibak, da etnia Kikuyu, foi declarado o vencedor. Porém, muitos analistas internacionais afirmam que o resultado foi manipulado, para dizer o mínimo. Enquanto isto, o candidato da oposição, o senhor Ralia Odinga, da etnia Luo afirma que foi o ganhador da eleição pelo voto popular.
Ambos os candidatos estão usando de suas etnias distintas para causar separação entre os cidadãos, provocando, com isto, um enorme estrago e transformando grande parte do país, num campo de batalha, onde a lei do mais forte impera. Diferentemente de seus vizinhos, o Sudão, Etiópia, Uganda, Somália e Tanzânia, o Quênia é um pais que se orgulha de ser um mosaico étnico onde mais de 40 etnias vivem harmoniosamente.
Por causa da disputa eleitoral, mais de 1000 pessoas já morreram e aproximadamente mais de 100 mil pessoas fugiram de suas casas. Recentemente uma igreja foi queimada com mais de 40 pessoas dentro.
Apesar dos apelos da ONU, da União dos Países Africanos, e dos EUA, o impasse continua. Ambos os candidatos se recusam a sentar-se à mesa de negociação para tentar resolver este enorme impasse. O Quênia, que até pouco tempo, era tido como um exemplo de que nem tudo é destruição na Mãe-Pátria, certamente caminha a passos de gazela para a beira do precipício.
RESTAURANTE
Outro dia fui até o bairro do Harlem para conhecer o restaurante de comida típica do sul norte-americano chamado Spoonbread. Ele pertence a uma ex-modelo chamada Norman Jean Jarden. Depois de agraciar as páginas das principais revistas da moda (Vogue, Italian Vogue, Harper’s, Bazaar, Mademoiselle and Essence), esta senhora entrou para o mundo da culinária.
Quem ganhou com isto foi a cidade porque o Spoonbread é um ótimo espaço localizado ao lado do famoso “Central Park” servindo porções gigantescas de comida caseira. O principal prato é o frango frito. O restaurante não é pomposo, a decoração é bem simples.
Comi o prato principal acompanhado de arroz, ervilha e uma deliciosa couve cozida. Para ajudar na degustação tomei uma limonada que estava do balacubaco. Deixei de experimentar a sobremesa porque não havia espaço para mais nada. Mesmo assim, deixei o restaurante satisfeitíssimo.
Aproveitei a paisagem do famoso parque e a temperatura amena, para caminhar alguns blocos até a estação do metrô para ajudar na minha digestão.
SERVICO
SPOONBREAD
364 WEST 110 STREET.
NEW YORK, NY 10025
(212) 8650700

TELENOVELA
A personagem Solange (Sheron Menezes) da novela Duas Caras, exibida pela TV Globo, sofre de um forte complexo racial de inferioridade. Ela mostrou o desdém a tudo aquilo que é relacionado à negritude ao dizer a Evilázio (Lazaro Ramos) no capítulo que foi ao ar no dia 30.10.07, em alto e bom som, que sua tez é morena.
Ela afirma toda orgulhosa que sua mãe atée era negra, mas ela, no máximo é morena. O diálogo desta cena é engraçado, e ao mesmo tempo, triste. Evilázio diz-lhe algumas “verdades”, mas não a questiona à fundo.
Ele, por exemplo, não lhe pergunta o que significa para ela ser morena no Brasil, ou qual a diferença entre ela e uma pessoa negra. É claro que se fosse perguntada sobre este assunto não saberia o que responder. Solange ainda é bombardeada ad nauseaum com imagens negativas e esteriotipadas da população negra do país.
Tenho certeza que, no Brasil, muitas “morenas” também se identificam com esta personagem. Podemos perceber também em Solange que ela, provavelmente, nunca teve nenhum amigo(a) negro (a). Provavelmente ela também nunca perguntou a sua mãe se sofreu preconceito racial na vida. Em outras palavras, Solange se recusa a enxergar a realidade que insiste em bater no seu lindo rosto negro, preferindo mentir para si mesma de que ela tem as mesmas oportunidades das patricinhas brancas, as quais certamente se associava antes de ir morar na favela da Portelinha.

Edson Cadette