Talvez esse intenso desejo mundial pela erradicação da pobreza seja um dos fatores de sensibilização e engajamento de alguns líderes mundiais nessa cruzada. Há poucos dias, o primeiro-ministro britânico, Gordon Brown, anunciou uma aliança “moral” de líderes de governos e multinacionais com o objetivo de combater a pobreza, e declarou, em discurso nas Nações Unidas, que a globalização pode ser uma força de promoção da justiça.
Disse ele: “Quero promover a criação da maior coalizão de consciências para promover a maior das causas (…) Quando as consciências e as forças morais se unem, não há limites para o que a nossa capacidade de fazer o bem pode realizar”. Informa ainda a mídia que o objetivo de Brown é atrair apoio político, empresarial e popular, a fim de promover a retomada das tentativas, quase abandonadas, de atingir as Metas de Desenvolvimento do Milênio — objetivos da ONU quanto à redução de 50% da pobreza mundial, aprovadas sete anos atrás.
Entre as sete metas de desenvolvimento do milênio, a terceira delas é o compromisso de promoção da “igualdade entre sexos e valorização da mulher”. Embora com a devida descrença pelo fracasso de iniciativas anteriores similares, Jeremy Carver, do Conselho da Transparência Internacional, entende que “é preciso receber de maneira positiva qualquer esforço de empresas em benefício de um propósito moral mais elevado”.
No Brasil, as mobilizações dos setores médios e altos da sociedade têm passado ao largo dessas pautas mundiais nas quais se engajam os protagonistas de sempre, a turma que acredita que outro mundo é possível. Dizem estudiosos do perfil de nossa classe média, como Ricardo Amorim, que “ela não quer transformar coisas. Protesta contra algo que não lhe agrada, mas depois volta ao normal”. Para Fábio Wanderley Reis, esses setores convivem “em silêncio com as chacinas na periferia, mas se manifesta quando a criminalidade nos atinge ou os aviões começam a cair”. Clóvis Rossi, em recente artigo, assim a descreve: “É difícil encontrar em outro país, fora da América Latina, elites tão pequenas e tão predadoras como a brasileira”.
Mas ainda é tempo de mudar. E os movimentos de cansados e indignados poderiam alargar as suas pautas, intenções e indignações, engajando-se decisivamente nessa agenda mundial por meio da adesão à versão nacional, cuja jornada se inicia em 15 de agosto próximo, em Brasília, com o evento A mulher e os desafios da emancipação. Em foco, o fato de que, do total de 1,3 bilhão de pobres no mundo, 70% são mulheres; que 2/3 dos 860 milhões de analfabetos são mulheres; que a renda das mulheres representa de 30% a 60% da renda dos homens; e que, no Brasil, a renda das mulheres equivale a 43% da renda dos homens.
Desnecessário dizer que, quando se recortam por raça os dados relativos às mulheres brasileiras, encontram-se as negras em situação de extrema vulnerabilidade social, o que motivou, em 18 de julho, a apresentação, pela Articulação de ONGs de Mulheres Negras Brasileiras (AMNB), de relatório sobre a situação dessas mulheres, na 128ª reunião da Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH), da Organização dos Estados Americanos (OEA). A Comissão acolheu as recomendações apresentadas pela AMNB, em especial a visita da CIDH ao país para observar a situação das mulheres negras brasileiras, relatada no documento.
Para combater essas e muitas outras modalidades de desigualdade e exclusão social, a Chamada Global para Ação Contra a Pobreza — Aliança pela Igualdade foi criada em 2005 e já atua em mais de 100 países, visando mobilizar a sociedade civil para pressionar governos a agir mais e melhor no combate à pobreza e à desigualdade. No Brasil, a Chamada Global realiza este ano a maior mobilização já promovida no país: em Brasília, a programação será de 15 a 30 de agosto e, em Fortaleza, de 17 a 19 de outubro.
Nesse tipo de mobilização, não há fantasias de que, por decreto ou profissão de fé, possa-se eliminar a desigualdade entre ricos e pobres, negros e brancos, homens e mulheres. Há apenas o inevitável reconhecimento de que essas desigualdades existem e se concretizam na extrema pobreza de muitos e na bárbara concentração de riqueza de poucos. Age-se com a certeza de que somente com políticas públicas destinadas à erradicação dessas desigualdades será possível superá-las. E que conquistá-las exige o incansável protagonismo de diferentes agentes sociais.

Sueli Carneiro