A cultura negro-africana está impregnada na alma do povo brasileiro. Mas foi no esporte, por meio dele, que os negros tiveram uma verdadeira ferramenta de ascensão social ou que pelo menos lhes possibilitaram vislumbrar horizontes para além das mazelas cotidianas, superando as expectativas de manutenção da pobreza, que significativas vezes eram quase hereditárias.
O esporte na comunidade negra tem uma função estratégica bem diferente do nas camadas burguesas ou mais endinheiradas da sociedade. Nestas, o esporte é usado como instrumento estético, de embelezamento e proteção contra o envelhecimento natural do corpo numa repetição vulgar da Antiguidade clássica.
Naquelas, o esporte foi descoberto e declarado como rota para a superação da exclusão social e racial, em que a tonalidade preta da cor da pele era indicio de garra, virilidade, condicionamento físico, porém, de forma guetizada e recheada de tantos estereótipos como de aberrações que entraram para a história.
A bobagem de Hitler, por exemplo, que creditava loas a uma raça ariana superior, caiu por terra, numa vitória vinda dos pés de Jesse Owens, o “antílope de ébano”, como ficou conhecido por sua grande velocidade, saiu da bacia do Mississipi, no sul dos Estados Unidos – onde foram cometidas muitas atrocidades em nome do preconceito racial contra os negros – e veio a ganhar quatro medalhas de ouro na Olimpíada de Berlim, em 1936, de 100m rasos, 200m, revezamento 4X100m e salto em distância, causando a irritação de Hitler e derrotando sua propaganda nazista de superioridade da raça ariana.
O desempenho dos africanos e afrodescendentes em determinados esportes que requerem força e velocidade, despertou o interesse do mundo e das pessoas que estudam o fenômeno esportivo. Mas, apesar disso, durante muito tempo, o negro ficou estigmatizado nessas modalidades, estabelecidas por discursos científicos que o naturalizaram com habilidades corporais a priori.
Essa imagem “natural”, produzida do atleta negro, alude a um outro debate, o da diferença, presente também em outros importantes setores da sociedade como o emprego, educação, convivência social e atuação política, ambas moldadas pelo preconceito racial amplamente apoiadas no discurso filosófico, pseudo-científico e reforçadas pelo aparato ideológico.
Com as mudanças trazidas pelas atitudes e valores do século XXI, tais diferenças começam a se dissipar. No entanto, a grande visibilidade que os atletas negros e negras têm em determinados esportes é fruto não de oportunidades democráticas; até porque somente agora elas começam a funcionar de fato, e sim de habilidades pessoais construídas numa enorme capacidade de superação das mais penosas dificuldades.
A ocidentalização da maneira de ser e ver das pessoas, ou seja, macho, branco, católico, heterossexual, se espraiou e se difundiu para grande parte das sociedades mundiais, enquanto uma concepção de alteridade foi atribuída para aqueles que fugissem a esses padrões preestabelecidos e, como conseqüência, remetidos a um lugar diminuto no cenário social. ”os atletas negros têm em determinados esportes é fruto não de oportunidades democráticas e, sim, aliadas a fatores econômicos”, acredita o compositor e escritor Nei Lopes.
A capoeira, no Brasil, esteve proibida durante muito tempo pelo decreto número 487, de outubro de 1890. Nele, percebe-se a produção de algumas representações que geraram identidades negras a partir dos efeitos de falsa verdade que elas produziram no pós-cativeiro como: formadores de bando, vadios, malandros, desordeiros, preguiçosos, etc.
Todas essas representações passaram a conviver com os afrodescendentes, frente à sociedade brasileira, que queria um negro dócil e comportado e que aceitasse a condição de inferioridade. Já na América do Norte, os negros, no período escravagista, foram coibidos de manifestar sua cultura corporal na forma de dança, assim como na religião, sendo que, nessa última, deu-se o processo de aculturação. Esses aspectos levaram ao entoar de cânticos, como expressão de desgosto, frente à situação de penúria da condição escrava.
Traçando um paralelo dos negros brasileiros e estadunidenses, pode-se notar uma maior vinculação cultural dos brasileiros, principalmente para o futebol, a dança e, também, a música. Já entre os norte-americanos, para o basquete, o atletismo e, fundamentalmente, a música. A Educação Física aparecerá, nesse contexto, vinculada aos ideais eugênicos e de regeneração e embranquecimento da raça, figurando em congressos médicos, em propostas pedagógicas e em discursos parlamentares.
A Educação Física, aos poucos, foi adentrando no país; em 1931 torna-se obrigatória, por lei, a sua prática nas escolas secundárias, como promotora da saúde física, da educação moral e da regeneração da raça. Adotou-se, primeiramente, o método francês ou militar, que buscava eficiência nos movimentos, de forma racional e metódica, visando obter qualidades físicas e morais do indivíduo, de forma disciplinada.
A institucionalização da Educação Física no ensino brasileiro veio atender aos discursos eugênico e autoritário do Estado, nos anos de 1930, quando também foi intensa a entrada de livros e artigos, de cunho eugênico, de autores estrangeiros, como o periódico de Irving Fischer,
A nova educação física. Agora, no limiar dos preparativos da Copa do Mundo de 2014 e das Olimpíadas de 2016, podemos dar um salto civilizatório importantíssimo para colocar o Brasil entre os 10 mais do esporte mundial; com a inserção produtiva da massa de desempregados nas obras desses eventos, melhorar a prática estruturada da atividade física e aumentar significativamente nossa presença no esporte de alto rendimento. Isso, é claro, para todos e todas independentemente da cor, credo ou time de preferência.

Alexandre Braga