Desde as primeiras denúncias toda a direção do Partido caiu, dirigentes foram flagrados carregando dólares nas cuecas e o ministro chefe da Casa Civil teve de abandonar às pressas o cargo e agora vê o próprio mandato ameaçado de cassação.
Diante da crise, Lula se equilibra blindado por amplos setores – que vão do empresariado aos banqueiros felicíssimos com os juros estratosféricos – e contemplado com a boa vontade de uma oposição pouca habituada a mobilizações de rua, para quem, um processo de impeachment acabaria por acirrar rupturas que não convém estimular.
Perplexos e paralisados diante da crise, setores como a UNE, CUT e MST inventam o “protesto a favor” e levantam a tese do “golpe branco” que estaria sendo tramado pelas elites e pela imprensa, como se este Governo não tivesse mantido intocada a política econômica que premia banqueiros com os lucros mais altos já registrados na história e não fosse o mesmo que penaliza a produção com os juros mais altos do mundo.
O Presidente ainda tenta vender à opinião pública a idéia de que nada sabe, nada viu, e, ora recorre às velhas metáforas – que, de gastas perderam a graça (se é que um dia tiveram alguma) – ora se refugia nas “bravatas” ao gosto de Zagalo com o que “vão ter de me engolir”.
Diante desse quadro, o Movimento Social Negro – o mais antigo da história do País – também precisa de rumo. Os discursos de trinta anos atrás não servem à realidade de hoje, por melhores que tenham sido; a lógica da fidelidade canina ao partido inviabiliza a união de todos. A cultura do “farinha pouca, meu pirão primeiro”, é cega e só serve a interesses individuais menores. Não merece a solidariedade de quem sabe que nossa única chance está em nos erguermos como homens e mulheres livres.
Precisamos de união – da periferia a Academia – passando pelos milhões que são vítimas cotidianamente do racismo e da discriminação; da juventude – a vítima de sempre da truculência e da violência policial; do movimento de mulheres negras no qual devemos nos inspirar.
A mulher negra que foi capaz, mesmo sob a violência da escravidão, de se constituir no alicerce fundamental para que hoje exista a família negra, também será a base para a construção de um poderoso movimento que coloque na ordem do dia a bandeira por um Brasil sem Racismo capaz de unificar 82 milhões de brasileiros afrodescendentes.
Para nós negros, independência significa não continuar ganhando menos da metade do salário de um trabalhador branco; significa ter acesso à Educação e à saúde; participar da vida social e política do país em igualdade de condições; não ser vítima da violência policial; viver, enfim, em um país onde negros, brancos, indígenas, árabes, judeus, ciganos, palestinos e orientais, homens e mulheres tenham iguais direitos e oportunidades.
Este país e esta independência ainda não existem no Brasil. Teremos de conquistá-la para não dependermos de “abolições” feitas pelos outros, como as que já tivemos. Mãos à obra!