Rio – Indignado com a ausência de políticas dos Governos e da falta de ação dos órgãos do poder público para atender as demandas da população negra brasileira, o cineasta carioca Flávio Leandro enviou carta à socióloga Luiza Bairros, ministra chefe da Secretaria Especial de Políticas de Promoção da Igualdade Racial (SEPPIR), da Presidência da República questionando a omissão da pasta, que tem status de ministério: “Diante dessa inércia eu pergunto: para que haver no país uma Secretaria de Promoção da Igualdade Racial?”, pergunta.

Segundo Leandro, que garante não pertencer a qualquer partido político, associação, instituto ou entidade, mas ser "apenas um cidadão negro da Baixada Fluminense", o objetivo da carta foi tentar obter respostas a questões que não são pessoais, mas de interesse da comunidade negra.

“Senhora ministra. A principal vítima de toda essa política segregacional, estúpida e cruel, a qual a sua Secretaria deveria combater, é a Mulher Negra. Racismo, sexismo e a exclusão social são armas diariamente disparadas contra a Mulher Negra da Baixada Fluminense; pré-natal realizado às duras penas, devido à falta de uma política médica humana; falta de creches para os filhos enquanto vão trabalhar; agressões domésticas; assédios nos transportes e no trabalho e uma quantidade incomensurável de problemas conhecidos por toda população, talvez desconhecidos apenas pela sua Secretaria. Isso porque, cerca de 98% das mulheres negras no Rio de Janeiro desconhecem a existência da SEPPIR. Se desconhecem é porque a SEPPIR não  tem nenhuma política social que as beneficiem”, afirma.

O cineasta diz ter enviado a carta ao próprio e-mail corporativo da ministra (foto abaixo), a sua chefe de gabinete, Terezinha Gonçalves, a chefe da Comunicação Social, Jucinete Machado, ao Ouvidor, Carlos Alberto de Souza e Silva Júnior, e ao assessor especial, Edson Cardoso.

Sem resposta

Passados mais de 30 dias, Leandro disse não ter tido resposta, nem de Bairros, nem dos assessores. Apesar do silêncio da ministra e da assessoria, o cineasta – que garante já ter recebido ameaças de autoproclamadas lideranças do movimento negro oficial – afirma que não se calará.

“Não estou querendo ganhar notoriedade e nem me promover. A minha revolta é perceber, é sentir na pele, os infortúnios sociais lançados contra negros e negras, e ver aqueles que existem e recebem para combatê-los, manterem-se na inércia. Sem proposta, sem projetos e discursando balelas”, afirma.

Ele se diz inconformado com o fato de existirem inúmeros órgãos, organizações, entidades e secretarias da igualdade racial no país “todas ligadas a partidos políticos, e recebendo vultosas quantias de dinheiro público, mas que nada fazem".

O cineasta disse que se cansou do descaso, inclusive de entidades ligadas aos partidos e aos Governos. "A cada semana vemos surgir inúmeras queixas de racismo na vida social, esportiva, artística e cultural do país; vemos violências praticadas contra negros e negras pelas forças repressoras dos  Governos dos quais a Seppir, Supir Cedine, Condedine [entidades e ou órgãos do movimento negro carioca] e outras baboseiras do gênero são subalternos; e não vemos nenhuma ação de combate a esses crimes fomentada por esses vendilhões da raça. Alguém tem que se levantar contra essa gente. Irrita-me profundamente ver a minha raça ser usada como ferramenta de barganha pelos próprios negros", conclui.

Quem é

Flávio Leandro iniciou a carreira em 1.977, como boy de set no filme "A Dama do Lotação", de Neville D’Almeida, e com a atriz Sonia Braga no papel principal. Já participou de mais de 50 filmes, nacionais e internacionais, como assistente de produção, assistente de direção, continuísta, diretor de produção, produtor executivo e diretor cinematográfico de curtas e documentários.

Foi, durante mais de uma década, o único negro assistente de produção do cinema brasileiro, trabalhando com os cineastas Nelson Pereira dos Santos, Roberto Farias, Carlos Diegues, Paulo César Saraceni, Oswaldo Caldeira, entre outros. Entre os filmes de que participou estão "Quilombo", "Natal da Portela", "Amazonian Conection", "Woman in Fury", "Delta Force Comando", "Tirandentes" e "Navalha na Carne".

Ele também já dirigiu nove curtas-metragens, e foi premiado duas vezes em concurso de roteiros. Em 1994, no III Concurso Resgate do Cinema Brasileiro, do MINC, com "Comportamento Humano", que deu origem ao curta-metragem, em 1995; em 2007, no Concurso de Roteiros da RIOFILME, com o roteiro "A Vênus da Lapa", baseado no conto A "Pomba Enamora", de Lygia Fagundes Telles. Em 2009, representou o Brasil em Ouagadougou, Burkina Faso, no XXIII FESPACO, com o curta metragem "A Condição Humana".

Para 2015 o cineasta se prepara para dirigir o longa-metragem "Os Tambores de São Luís", baseado no livro homônimo de Josué Montello, que retrata a saga da escravidão negra no Maranhão. Ele também é professor de Produção e Legislação Teatral na tradicional e centenária Escola de Teatro Martins Pena, no Rio de Janeiro.

Leia, na íntegra, a carta enviada a ministra ainda sem resposta.

Exma. Sra. Ministra da Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial.

Luiza Bairros.

 

Prezada Ministra.

Como cidadão brasileiro, negro, cumpre-me fazer uso da minha cidadania e se dirigir a digníssima Ministra em busca de respostas para questionamentos que não são pessoais, mas de interesse a toda comunidade negra em nosso país.

A sua Secretaria tem a pomposa denominação de Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial. Eu pergunto: onde estão essas políticas? A quem elas são direcionadas? Tais questionamentos estão embasados em situações e acontecimentos que eu e meus iguais, moradores da Baixada Fluminense, no Rio de Janeiro, vivemos e presenciamos. Descaso do poder público quanto a saneamento básico, boas escolas para nossos filhos e netos; transporte público sofrível e caro; hospitais públicos e postos de saúdes que são verdadeiros campos de concentração de negros e nordestinos; e uma série de outros fatores negativos que atingem, principalmente e, sobretudo, a comunidade afro brasileira.      

Os trens que servem os ramais de Saracuruna e Belford Roxo, de comunidade predominantemente negra, estão em estado deplorável. O Grande Rio e a Baixada Fluminense vivem uma situação climática de altíssimo calor. Apenas 15% dos três da concessionária servem a esses dois ramais possuem ar refrigerados. A preferência, notadamente, é para a região onde a incidência negra não é tão intensa e visível.

Senhora ministra. A principal vítima de toda essa política segregacional, estúpida e cruel, da qual a sua Secretaria deveria combater, é a Mulher Negra. Racismo, sexismo e a exclusão social são armas diariamente disparadas contra a Mulher Negra da Baixada Fluminense.  Pré natal realizado às duras penas, devido à falta de uma política médica humana; falta de creches para os filhos enquanto vão trabalhar; agressões domésticas; assédios nos transportes e no trabalho e uma quantidade incomensurável de problemas conhecidos por toda população, talvez desconhecido apenas pela sua Secretaria. Isso porque, cerca de 98% das mulheres negras no Rio de Janeiro desconhecem a existência da SEPPIR. Se desconhecem é porque a SEPPIR não  tem nenhuma política social que as beneficiem. 

Uma onda de racismo tem assolado o país, mas ganha notoriedade quando atinge jogadores de futebol. Estatais como a CEF e o Banco do Brasil nas suas propagandas, filmes institucionais e publicitários, quando não excluem usam numa percentagem mínima a presença do negro.

Sempre que violência cometida contra o negro desperta a indignidade da sociedade – foi assim com o menino Juan, da Baixada Fluminense, e com o Amarildo, da Rocinha – num paradoxo inexplicável, ouvem-se as vozes da classe média alta da zona sul do Rio, mas nunca se ouve nenhum manifesto ou ação da SEPPIR. Posso aqui enumerar diversas outras agressões racistas e mortais cometidas contra cidadãos e cidadãs negras, somente no Rio de Janeiro, em que a SEPPIR não se fez presente ou se o fez foi de maneira pífia e insignificante.

Agora mesmo, de maneira violenta e cruel, uma mulher negra e favelada, foi atingida por disparos de armas de fogo efetuadas por policiais militares e colocadas de maneira indigna no porta malas do carro da polícia. O porta mala se abriu e a infeliz foi arrastada por pelo menos 250 metros pelo asfalto. Está acontecendo manifestações de repúdios vindas de todos os segmentos da sociedade, mas não se ouve e nem se percebe nenhuma ação concreta e de impacto da SEPPIR. Nunca a sua presença ou fala se faz notar.

Diante dessa inércia eu pergunto: para que haver no país uma Secretaria de Promoção da Igualdade Racial?

Meus respeitos, senhora Ministra.

Flávio Leandro

www.cineastaflavioleandro.blogspot.com

 

 

 


 

 

Da Redacao