Moçambique/S. Paulo – O diretor da Escola de Comunicação e Artes da Universidade Eduardo Mondlane, a maior de Moçambique, Natanael José Ngomane, defendeu que a integração Brasil/Moçambique não deve se dar apenas ao nível dos Governos. “Tem de acontecer nos diferentes níveis, da Academia, do Jornalismo, da Música, do Teatro, das coisas do dia a dia. E é nesse sentido que estou otimista porque acredito que essas coisas vão acontecer e já estão acontecendo”, afirmou.

Na entrevista que concedeu a Afropress, fazendo o balanço do I Seminário Nacional de Jornalismo Cultural – no qual o editor, jornalista Dojival Vieira, foi um dos palestrantes convidados – Natanael Ngomane, que viveu por oito anos no Brasil e fez doutorado na Universidade de S. Paulo (USP), lembrou que a relação no período da escravatura era "horrorosa".

Escravatura

“No início da história, era uma relação péssima, horrorosa, e hoje é uma relação que se vai estreitando cada vez mais. Nós temos uma história muito longa desde os tempos da escravatura. Os africanos viajavam forçosamente (não sei se chamo isso de viagem) do continente africano para o Brasil como escravos, eram recebidos como tal e tratados como tal, vendidos, espancados, mortos etc. Mas, numa fase mais adiantada da história – estou a falar mais concretamente dos anos 30, 40 – o Brasil através de sua literatura, de sua música, através do futebol (e quem fala de música fala particularmente do samba, mas também outros estilos como MPB) começou a visitar a África novamente, particularmente, Moçambique. Começa a criar uma ponte de volta, mas uma ponte com outra visão“, disse.

Lembrou que essa ponte começa a tomar forma já na década de 40, quando, por causa da vigência da ditadura do Estado Novo, em Portugal, escritores moçambicanos, proibidos pela censura do regime de publicar seus livros, o faziam na Revista Sur, de Florianópolis. “Em Florianópolis, havia uma revista chamada Sur, onde autores como Noemia de Souza, José Craveirinha, Orlando Mendes publicavam por volta dos anos 40. Então começou a haver uma nova relação. Porque já nos século XX, mais prá cá, anos 90, anos 2000 há muito africano, moçambicano que vai para o Brasil mas vai já de livre e espontânea vontade, não para ir trabalhar na roça mas para estudar nas universidades brasileiras. Essa relação vai sendo melhorada ao longo da história“.

Escolha

Ele citou o seu próprio exemplo, ao escolher a Universidade de S. Paulo para fazer doutorado, quando tinha opções de fazê-lo na França e em Lisboa, onde já tinha, inclusive orientadores. “E devo dizer que eram orientadores pesos pesados”, acrescentou, sem revelar os nomes. “Mas eu optei por S. Paulo, eu fui para a Universidade de S. Paulo. Quer dizer eu fui também de livre espontânea vontade para o Brasil, já não como escravo. Quer dizer a história muda”, frisou.

O diretor da ECA lembrou a influência do escritor baiano Jorge Amado na formação do pensamento de esquerda do país, e da influência do modernismo, da literatura e da música brasileira para que Moçambique tivesse uma consciência literária nacional que se antecipou a independência e estimulou a idéia de independência. “Bom, se os brasileiros tem uma literatura própria, nós podemos ter uma literatura própria, mas ter uma literatura própria significa ter um país próprio, então vamos lutar pela independência“, lembrou como passou a pensar a intelectualidade moçambicana, após tomar contato com a literatura brasileira. Moçambique deixou de ser colônia portuguesa em 1.975, depois de uma guerra que durou 10 anos. 

Sede da África

Segundo ele, a evidência de que as relações vem sendo melhoradas é que “o Brasil hoje tem sede da África e da africanidade e nos pede, a nós africanos, para ensinar esses fatos e nós vamos prá lá ensinar". “Quer dizer: é uma outra era que estamos a viver na relação entre Moçambique e o Brasil. E neste momento atual o que nós temos, no Brasil, de estudante – seja estudante no sentido estrito como estudante profisisonal que vai lá para fazer superação de conhecimento – é incontável. E o que nós temos do Brasil, em Moçambique, nos diversos setores, desde a agricultura – e quando falo da agricultura, falo das variantes do amendoim, milho, da mandioca. Nós temos o Brasil na Medicina, temos o Brasil, na Educação, temos o Brasil na indústria para falar da mineração do carvão. Então, quer dizer: isso é ótimo, em termos de crescimento de uma relação de cooperação“, sublinhou.

Ele ressaltou como positivo o fato da Presidente Dilma Rousseff ter escolhido o país para uma das suas primeiras visitas do seu Governo à África e também citou a enorme popularidade das novelas e de músicos brasileiros como Caetano Veloso, Gilberto Gil, Maria Betânia, Clara Nunes (já morta) e, mais recentemente, de Alcione e Gabriel, o Pensador, muito popular na juventude adepta do rap. "E é nesse sentido que estou otimista, porque acredito que essas coisas vão acontecer e já estão acontecendo“, finalizou.

Da Redacao