Tel Aviv – Intelectuais israelenses realizaram protestos neste domingo (07/11) contra o que consideram uma onda de manifestações de racismo dirigidas aos cidadãos árabes residentes no país.
Os manifestantes – entre os quais, escritores e artistas renomados – criticaram decretos recentes de rabinos proibindo o aluguel de apartamentos a cidadãos árabes e a promulgação de leis de caráter discriminatório no Parlamento.
O protesto ocorreu na Alameda Rotschild, no centro de Tel Aviv, em frente ao prédio onde foi realizada a histórica declaração da fundação do Estado de Israel, em 1948, conhecida como Declaração da Independência.
Segundo os organizadores, o local foi escolhido para marcar o que consideram a contradição entre a realidade atual no país e o conteúdo da declaração, que garantia “igualdade total de direitos políticos e sociais para todos os cidadãos, sem discriminação de religião, raça ou gênero”.
O jornalista e escritor Uri Avnery, 87, que lutou na guerra de 1948 pela criação de Israel, disse à BBC Brasil que participou do protesto “porque quando eu tinha nove anos vi a ascensão do fascismo na Alemanha e não quero vê-la, pela segunda vez, no Estado que ajudei a construir”.
De acordo com o escritor Sefi Rachlevsky, “a Declaração da Independência está sendo pisada pelos atos e as leis que vemos hoje”.
“Em um país em que tantos cidadãos já sofreram perseguições e racismo, não podemos permitir que coisas como essas aconteçam.”
Aluguéis vetados
No dia 25 de outubro, o rabino-chefe da cidade de Tzfat (norte de Israel), Shlomo Eliahu, e mais 17 rabinos publicaram um decreto proibindo os habitantes da cidade de alugarem apartamentos para cidadãos árabes.
O decreto atinge centenas de estudantes árabes que cursam a Faculdade de Tzfat.
Segundo o decreto, os habitantes da cidade devem boicotar aqueles que alugarem propriedades a “não judeus”.
O presidente da união dos estudantes árabes da Faculdade, Mahmoud Abu Salah, disse que a maioria dos proprietários de imóveis está obedecendo ao decreto dos rabinos.
Abu Salah também afirmou que esta é a primeira vez em que os estudantes árabes se deparam com tal rejeição por parte de proprietários de apartamentos em Tzfat.
O decreto foi endossada pelo rabino Ovadia Yossef, líder espiritual do partido Shas, que faz parte da coalizão governamental.
Para o escritor Yoram Kaniuk, “não é possível parar o fascismo com palavras, são necessários atos significativos”.
Durante a manifestação deste domingo, o escritor anunciou que pretende exigir que o Ministério do Interior apague seu registro como judeu da carteira de identidade e o defina como “sem religião”.
‘Não quero ser Judeu’
“Se isso é judaísmo então não quero ser judeu”, declarou Kaniuk. O jurista Mordechai Kremnitzer mencionou projetos de lei em tramitação no Parlamento que podem atingir diretamente a população árabe de Israel. É o caso de uma lei que, se aprovada, permitirá que comissões de admissão em povoados pequenos vetem a entrada de novos membros “que possam afetar o caráter da comunidade”.
Para a professora de História da Arte Gila Balas, existem hoje em Israel “todos os sintomas que havia na Europa no começo do fascismo”.
“Não podemos ficar quietos, temos que fazer algo para impedir que esse processo continue”, disse Balas à BBC Brasil. “Estão utilizando caminhos supostamente legais para promulgar leis antidemocráticas, justamente como aconteceu na Europa.”

Da Redacao