Primeiro, eles criaram, no início do século, o mito das três raças, que impregna o inconsciente coletivo dos brasileiros e brasileiras até hoje. Onde a maioria das pessoas se orgulha em ter no sangue a inteligência do branco, a agilidade do índio e a força do negro. Foi a busca do “super homem”, que predominou nas “cabeças científicas” do início do século XX. Na Europa o doligocéfalo branco, no Brasil a mula combinada. Ainda em 70 vivi na universidade este mito moreno.
Ao contrário dos Estados Unidos e da África do Sul, só para ficar em dois exemplos de racismos contra pessoas de pele negra, não tivemos no Brasil pós-abolição o controle e a separação institucional. Tivemos, como temos até hoje, o controle pessoal, familiar, de parentesco e relacional. Como fala o racista não assumido: “não sou racista pois tenho um amigo preto”. E como fala um negro comportado: “é melhor eu ficar calado para não perder um amigo branco”.
O racismo mantém-se, no Brasil, através de um sistema nevrálgico extremamente delicado, que depende de pequenas pressões na “vítima”, que passa a preferir ficar calada a ter que enfrentar a pecha de ser um “estraga-festa”.
O novo modelo científico do não racismo brasileiro é dizer que não tem raças. Descobriram a pólvora. Nao tendo raças, não tem discriminação. A mesma raça que eles inventaram, acabaram por decreto. O negro passou a ser igual, pois a raça negra deixou de existir. Beleza, né? Como se houvesse diferença para a pessoa discriminada o nome que dão à sua eliminação.
Bem, quanto à “inteligentzia”, ela ainda vai fazer muitos estragos em nosso meio. Até a hora que estivermos melhor organizados para respondermos rápido e com frieza, e ironia. Pois a batata quente das “raças ou nao raças” é problema deles, pois quem pariu Mateus que o embale. O nosso “problema” é responder rápido, pois é uma questão de sobrevivência. Pois com ou sem raças continuamos pretos e pretas discriminados.
Responder rápido e repetidamente, que eles são racistas e que fazem uma guerra contra nós, uma guerra sem fronteiras, das esquinas das baixadas até os bancos acadêmicos. Essa é a lição que tomo pra mim nesse “episódio” da ministra.
O escárnio com que colegas acadêmicos e jornalistas nos tratam, não tem nenhuma diferença da violência que é ter nossas regiões pudendas serem tocadas por qualquer vigilante de banco dos brancos.
Mas esse escárnio que recebemos me traz mais uma lição pessoal. A lição que os amigos e amigas que tenho acumulado em minha vida, brancos, pretos, amarelos, vermelhos e cor-de rosas, não lutam para defender um privilégio. Não lutam para destruir nem o caráter nem a vida de ninguém. Lutam, sim, para eliminar as discriminções raciais, ou seja lá como denominem, e os discursos que busquem justificar a supremacia racial branca no Brasil e no mundo.
A mesma luta que você enfrentamos nos tribunais, enfrenta toda mãe de família ao defender seu filho perante uma blitz. São lutas de vida ou morte no Brasil.
Aqui na Alemanha, dá cadeia negar a existência do holocausto. Sonho com um dia em que, no Brasil, tenha uma lei que mande prender quem negar publicamente a existência do racismo.
Só assim vamos botar os pingo nos is, e demonstrarmos, que discursos como os destes corifeus e coriféias do “Brasil não racista” produzem na realidade o discurso necessário para justificar os atos de cada membro de um esquadrão da morte.
Pois na realidade, discursos sibilinos como das “Ivones Maggies” assassinam o caráter de milhões que fazem parte da construção de nossa nação. Eles e elas criam o campo ideológico para que cada negro que pense em rejeitar o opressor, freie o seu impulso, e se deixe assassinar, seja física ou mentalmente.
A ministra (até quando) não declarou guerra a ninguém. Ela foi apenas a primeira voz oficial que tornou pública uma guerra que todos sabem que existe. Uma guerra em que os racistas tem todas as armas apontadas contra nós, da imprensa ao camburão. E nos só temos quatro:
A dignidade, a consciência, a solidaridade e o respeito humano. E acho que será o suficiente para vencê-los. Basta defini-los.

Marcos Romão