Lembro-me de um amigo lá do Rio de Janeiro que, já em 80, falava da pouca influência dos negros e negras dentro dos partidos, exatamente por falta de quadro dentro deles, quadros que definissem as políticas a serem adotadas, e mais, que decidissem quem ocuparia os cargos, quando este ou aquele partido chegasse ao poder.
Por isso, é quase sempre surpresa quando este ou aquele partido político chega ao poder e nomeia negros e negras até então invisíveis. Nos últimos trinta anos não foram poucas as vezes que perdi noites no telefone, para saber quem era a nova famosa liderança negra que surgia para falar em nosso nome.
Muitos se tornaram transparentes, ou seja, realizaram alguma coisa em prol dos negros, mesmo que com todas as limitações pertinentes a quem seja ungido por um momento político, mas que não tenha base de votos, que é o que conta nos partidos.
Muitos alcançaram os cargos, por pertencerem as esta ou aquela corrente de um partido ou outro. E muitos alcançaram os cargos por estarem, por coincidência, na reunião deste ou daquele partido na hora, em que se lembravam que precisavam colocar um negro ou negra para justificar a linha partidária.
Muitos fizeram política transparente e voltada para as causas negras, outros não.
O que foi – e é muito raro, e gostaria que minhas amigas e amigos que estão no Brasil me apontassem mais pessoas – é que conheço a dedo quem foi indicado pelo movimento negro, para ocupar este ou aquele cargo, ou que pelo menos tenha sido consultado pelo movimento negro.
Realizada esta transparência analítica da relação do MN e os partidos políticos e botando os pés no chão, vejo que atuamos todos estes anos nas relações com os partidos políticos mais como um vetor moral que decisório. E assistimos ao longo destes 32 anos de eleições, as nossas vitórias morais e derrotas de fato.
A sociedade brasileira hoje não pode mais ser pensada sem o viés racial. Esta é uma vitória moral de fato. Os partidos políticos ainda nos vêem como massas a serem cooptadas, isto é uma derrota.
Ainda não temos um candidato (pelo amor dos Orixás, quem souber me cite um) que diga: ‘eu sou uma candidata negra ou negro, que tem uma proposta para a sociedade brasileira, e quero ser votada/o como tal”.
Isto não é uma derrota, é um momento, um momento ainda não ideal, mas já considero um avanço, que tenhamos negros e negras nos partidos, e que coloquem a questão do negro e negra na pauta de seus partidos. Mas vejam só: é ainda uma colorização negra em um viés branco; o negro e a negra nos partidos são agora embaixatrizes e embaixadores de uma proposta branca de nos incluir.
Ao contrário de somente um espermatozóide que deu certo, como disse o nosso constituinte negro da era Tancredo, hoje temos muitos óvulos desejando e gastando uma transformação no note da sociedade brasileira.
Esta gestação de uma nova identidade nacional brasileira é, para mim, o parâmetro para escolher esta ou aquela candidatura de pele preta. O negro ou a negra nos partidos políticos precisa enfrentar o que chamo de “beco sem saída” da condição de álibi justificador, que a fazem prisioneira do imobilismo. Pois a cada frase que digam, confrontam-se com o olhar indulgente dos “companheiros” partidários como a dizerem: “lá vem ela/ele de novo falar dos bandidos, dos favelados, dos miseráveis, dos excluídos”.
De álibis passamos a ser os “Pelés”, que enchem o filó dos outros e não deixam ninguém curtir a vida. Vejam só o caso deste rapaz que acaba de escrever um livro desmentindo o óbvio ao afirmar que não somos racistas no Brasil.
Mesmo vivendo quinze anos fora do Brasil, enfrento este dilema de negro e migrante, na terra produtora intelectual do racismo moderno de direita e de esquerda. As pessoas realmente se espantam, quando falo, que para resolvermos o problema de integração das diferentes culturas que vivem na Alemanha, “nós” precisamos enfrentar de cara o nosso passado colonial”, no que eles perguntam se tenho cidadania alemã, e respondo que não, e que luto por ter uma cidadania negra, que seja reconhecida tanto aqui, quanto no Brasil, quanto no resto do mundo, África inclusive.
E que quando eu, “meu problema” de reconhecimento de cidadania mundial negra, estiver resolvido, eles vão poder dormir sossegados e sem muros em Lampaduzia.
Ser negro e negra, e ter um pouquinho de miolo na cabeça, e ainda por cima ser candidato por um partido político neste momento, é uma situação que não invejo, mas que apoio e digo vão em frente e busquem desatar este paradoxo de uma sociedade que ainda não colocou em seu centro de decisão política a superação das desigualdades raciais no país.
Aí, minha amiga e meu amigo, vamos ter candidatos e, quiçá, presidentes e governadores, que digam: “eu não vou dormir enquanto não acabar com o esquadrão da morte de minha esquina”.
Esquadrão que mata nossos meninos e vende nossas meninas. Esquadrões que usam 38 e canetas esferográficas. Esquadrões de 155s e 171s.
Aí nós vamos deixar de ser a mosca na sopa deles e vamos cuidar, junto com todo mundo interessado/a da reconstrução da sociedade brasileira.
Aí nós vamos chegar nas praias deles e ajudá-los com todo o carinho a desmontar as cercas que os impedem de conhecer o mundo aqui fora.
Recado para o Joel Zito
Veja só, você que é da área do visual, tem tudo para aproveitar este momento extremamente criativo da sociedade brasileira. Basta olhar para este espasmo da turma “psicanalizada” que acordou para a questão racial no Brasil, e que nos acompanha desde a entrada do 3° milênio com o filme “Feliz ano novo”. Como eles tem instrumentos acadêmicos, eles estão sacando que o discurso da sociedade brasileira está por aí, e estão atirando no mestiço por não saberem de onde vem o vento da mudança (é realmente um trauma confrontar-se com o que não se viu ao longo da vida). Pois a criação da ideologia do mestiço, por contraposição ao impedimento da mestiçagem, também foi uma política de ingerência do Estado nas relações raciais dentro do quarto de dormir.
Ao mesmo tempo em que, na década de trinta, se cristalizava o princípio da eliminação do negro, através da construção estatal da super-raça morena/mestiça aí no Brasil, Hitler e seus ministros organizavam os planos de inseminação do sangue ariano germânico nas mulheres suecas, finlandesas, ucranianas e dinamarquesas. Outro dia mesmo conversei com uma filha destas colônias de férias organizadas nas terras ocupadas pelo Exército alemão durante a segunda guerra.
A República brasileira conheceu até 1988 uma política estatal de promoção de uma hegemonia racial branca; o mestiço o é, consciente ou inconsciente fruto desta questão. Na Namíbia, até a independência, quem fôsse filho de alemão ou casasse com uma alemã, podia virar alemão. E se orgulhava de não ser mais africano. Conversando com um deles, ele me disse: “é como nascer de novo, redescobrir-se africano”.
Pois é, Joel, a nossa luta é estancar realmente esta visão ideológica do mundo, baseada em determinação racial das pessoas, como cachorros que se cruzam ao prazer do dono ou da dona.
A linguagem visual pode ajudar em muito, pois a linguagem sociológica esta morta.
É preciso uma linguagem nova que reflita esta luta para cortar pela raiz este princípio determinista e evolucionista que permeia os discursos sobre as relações raciais no Brasil.
Segregação por marca, por cor, por sangue são todas aparições de um mesmo fenômeno racista, que nossos pensadores não dão conta, pois só a partir da queda da última colônia na África, é que passamos a nos deparar com a possibilidade de vivermos em uma sociedade em que a cor do indivíduo não seja levada em conta.
Até 1975, enquanto lutávamos por liberdades democráticas, um negro ou negra de Angola, à 4 horas de avião do Rio de Janeiro, levava cem palmatórias ao ser flagrado levando para casa restos de comida de um restaurante em Luanda.
Estamos todos em um jardim da infância da criação de novas relações raciais. Por isso acho que a escrita visual pode nos ajudar a encontrarmos os caminhos da convivência. Cada linha para mim está sendo um parto, pois fiquei de boca aberta, quando assisti a um documentário das primeiras crianças que, com 18 anos, terminaram a primeira turma ginasial na Namíbia independente. Vinte e oito depoimentos de negros, brancos e “coloredes”, a primeira turma que desde o jardim da infância teve a possibilidade de estudar junto em um país sem segregação.
Estamos em um jardim de infância no mundo onde as relações raciais, estão sendo rediscutias, mais ou menos de igual para igual.
Quando eu vejo a destruição de rede pública brasileira de ensino, vejo que a segregação racial no Brasil só tende a aumentar. Imagino que, talvez venha dos primeiros cotistas alguma resposta, e os cineastas e repórteres precisam estar atentos. Quem sabe assim, nós sociólogos, mudemos o nosso discurso arcaico.
Muito axé prá vocês toda/as e bons votos.
P.S.:Talvez seja ilusão minha, mas pelo que recebo de emails e notícias do Brasil inteiro, a sociedade invisível, está produzindo culturas transparentes, vivas e criativas nos momentos de tréguas que nos dão os donos do poder. Quem nos trouxer este discurso é que merece o nosso voto, até segunda ordem. É minha opinião.
E para não esquecermos:A pior das democracias ainda é melhor que a melhor das ditaduras, até prova em contrário.

Marcos Romão