Brasília – O mais recente Estudo do Instituto de Pesquisas Aplicadas (IPEA) expõe sem retoques os números da desigualdade entre brancos e negros no Brasil: o Estudo baseado nos dados da Pesquisa Nacional de Amostra por Domícílio (PNAD 2008) revela que a renda média familiar per capita dos negros é um pouco mais de duas vezes inferior ao que ganham os brancos: a renda dos brancos é de R$ 791,00 contra R$ 398,00 dos negros.
“Isso quer dizer que mesmo que o País conseguisse acabar com a discriminação e racismo – outros motivos relevantes – ainda existiria uma diferença razoável entre a renda média de brancos e negros, explicada pelas desigualdades regionais”, afirma Pedro Ferreira de Souza, pesquisador do IPEA e um dos autores do Estudo.
Diferenças
De acordo com os pesquisadores do IPEA, da diferença entre negros e brancos – que é de R$ 393,00 – R$ 273,00, podem ser atribuídas à desigualdade racial em cada região. O restante, os pesquisadores creditam aos efeitos conjuntos da desigualdade econômica e de composição racial entre as regiões.
Segundo o Estudo, a desigualdade brasileira caiu 9,7% desde 2004, sendo que 31,5% dessa queda é resultante da redução da desigualdade entre grupos raciais, que foi de 13%¨. A desigualdade entre regiões caiu 12,6% sendo responsável por 22,4% do total.
O IPEA alerta que juntas, a desigualdade entre regiões e a desigualdade racial, respondem por algo entre um quarto e um quinto da desigualdade de renda domiciliar per capita de todo o País. Em 2008, esses dois índices respondiam por 22,3%, sendo 5,7% de desigualdade racial dentro das regiões e 16,6% de desigualdade regional.
Desigualdade regional
Para o técnico responsável pela área de desigualdade racial no Estudo, Rafael Ozório, o racismo e a discriminação são causas importantes da desigualdade racial no Brasil, mas não são as únicas. “A gente tem que olhar para outras coisas, como o elevado nível de desigualdade regional. Políticas específicas para a população negra são necessárias, mas não são suficientes”, disse.
De acordo com o estudo, é razoável considerar ser a desigualdade racial o fato de o negro nas regiões rurais do Ceará ter, em média, renda menor do que na região Metropolitana de S. Paulo. “Assim, negros e brancos devem ser comparados dentro de uma mesma região, onde a heterogeneidade das condições é menor do que entre grupos raciais em regiões diferentes.”
Segundo o professor do Curso de Pós-Graduação em Economia da Universidade Federal do Ceará (UFC), Flávio Ataliba, a descrição do Ipea bate com o pensamento comum da discriminação regional.
Veja alguns dados do Estudo
– O índice de analfabetismo entre jovens negros é duas vezes maior que entre brancos, segundo levantamento do Ipea. Contudo, a distância entre os grupos encurtou nos últimos 10 anos: em 1998, o analfabetismo entre jovens negros era quase três vezes maior que entre os brancos.
– No ensino médio, o número de jovens brancos que frequenta a escola é 44,5% maior em comparação ao de negros. Já no ensino superior, a frequência é cerca de três vezes maior entre os brancos. O Ipea destaca, no entanto, que houve significativa melhora no nível de adequação educacional entre os jovens negros nos últimos anos.
Enquanto se observou entre os brancos certa estagnação, entre os negros a melhoria na frequência ao ensino médio é bastante significativa: em 10 anos, quase duplicou.
– No que diz respeito à renda, a disparidade é alarmante. De 2004 a 2008, a diferença entre as rendas médias dos negros e dos brancos no Brasil aumentou R$ 52,92. O estudo também revela que a renda média dos brancos aumentou 2,15 vezes no período, enquanto a dos negros teve aumento de apenas 1,99 vez.

Da Redacao