S. Paulo – Em entrevista concedida, com exclusividade à Afropress, Marinela Sant’Ana, irmã mais velha de Flávio Sant’Ana – o dentista negro assassinado pela Polícia – fala do trauma provocado pelo assassinato e conta que a morte a uniu novamente a família de quem estava separada há mais de 15 anos. “Depois disso não passo uma semana sem ligar ou ir ate lá. Mais tarde levei meus filhos para conhecer tias, tios, primos, avô, que nunca tinham visto. Precisou alguém morrer para vermos o quanto é precioso estar junto e dizer que nos amamos”. Ela também se tornou a porta-voz da família: “Daí em diante, tomei a frente comecei a ajudar, perceberam que eu falava muito bem e que era a melhor para dar entrevistas revezando com meu pai e eu também descobri que era inteligente a tal ponto e não sabia”, acrescentou.
Marinela também contou como no dia 30 de maio, do ano passado, oito policiais militares invadiram a casa onde mora na favela Flamenguinho, em Osasco, Grande São Paulo, para tentar intimidá-la, forjando flagrante de drogas e armas. Eles arrombaram a porta a chutes apontando armas para ela e os filhos de nove, seis e um ano. O caso foi denunciado a Corrregedoria da Polícia, onde os invasores foram reconhecidos para serem, posteriormente, afastados das suas funções e processados.
Flávio era dentista recém-formado por uma Faculdade particular de Guarulhos, onde conseguiu bolsa. Na madrugada do dia 03 de fevereiro de 2.004, ao voltar do aeroporto de Cumbica, onde fora levar a namorada – a suíça Anita Joos -, próximo a sua casa, na zona norte de S. Paulo, foi abordado pelos policiais que o confundiram com um ladrão. Segundo o hoje Secretário de Justiça, Hédio Silva Jr., que se afastou do caso por ter assumido o cargo, os policiais seguiram o conhecido procedimento de “atire, depois pergunte”. Flávio foi fuzilado à queima roupa com dois tiros e morreu no local.
Alegando atitude suspeita para justificar o assassinato, os policiais afirmaram ter encontrado no bolso do dentista a carteira da vítima de um roubo e construíram a versão de que Flávio teria resistido à prisão.
A versão, contudo, foi derrubada por que a perícia não encontrou vestígios de pólvora nas mãos da vítima. Alguns dias depois do crime, a vítima do assalto revelou ter sido pressionada pelos policiais para identificar o dentista como assaltante.
Ainda na entrevista à Afropress, Marinela, que fundou e atualmente preside a ONG Afrovida, em Osasco, diz que espera apenas uma coisa: “Justiça”. Veja, na íntegra.
Afropress – Qual é a expectativa da família de que se faça Justiça no julgamento dos PMs acusados pelo crime no julgamento do dia 17/10?
Marinela – A expectativa é que tenham respeito e que não adiem mais o julgamento e que se faça justiça, que estes homens sejam condenados ao máximo e que nunca mais possam trabalhar com a segurança pública.
Afropress – Passados quase dois anos da morte do Flávio, o que mudou na vida da família e na tua vida, em particular?
Marinela – Muita coisa mudou. Com certeza meu pai nunca se imaginou na TV
clamando por justiça pela morte de algum de seus filhos. Quanto a minha vida, é como se eu estivesse vivendo outra vida, nada ficou como antes, esta tudo diferente, nem o cotidiano é o mesmo. Hoje sou presidente de uma Ong montada por mim mesma, faço palestras em outras cidades, vou a debates de
programas, já recebi 3 homenagens importantes com medalhas, estatuetas, e com uma força interior muito maior do que eu pensava ter.
Afropress – Quais as lembranças que você guarda do teu irmão em vida e como foi a dor de saber da sua morte nas circunstâncias em que foi assassinado pela Polícia?
Marinela – As lembranças são muitas, brincando, briguinhas de irmãos, estudando no parque (a área verde onde morávamos) na escola, na igreja, em casa. O Flávio era o irmão mais pentelho que uma irmã poderia ter e também o mais palhaço. É muita a saudade. Vou revelar uma coisa que nunca tinha dito antes. Já fazia algum tempo que eu não ia até a casa de meu pai (onde o Flávio morava também), pelo menos há mais de 15 anos, nunca tinha tempo, achava muito longe (eu morava em Osasco e eles na Penha) apenas via o Flávio que sempre ia até meu serviço e o pai que às vezes ia até a minha casa quando eu precisava de alguma coisa. Quem tinha o meu telefone de cabeça era o Flávio (eu vivia trocando de celular). Quando o Flávio morreu ninguém achava o meu telefone; quando mataram ele eu estava em casa, me recuperando de um problema de saúde, por um acaso mudei de canal e, de repente, vi um rosto conhecido, parecia meu irmão mais novo o Tiago, fiquei olhando, depois parece que vi meu pai, aumentei a televisão vi cenas da formatura do Flávio, não tava entendendo nada. De repente vizinhos começaram a aparecer na porta de casa que já haviam vista antes de mim a reportagem e que conheciam meu pai e meu irmão, chegou minha sogra. Eu não tava entendendo nada, quando vi a cena seguinte de um velório e que o dentista havia sido assassinado. NOSSA que susto, pensei que ia enfartar, comecei a tremer a gritar desesperada (ainda choro quando lembro). Meu Deus que triste, que triste! Como era possível? Chamei o bispo da minha Igreja que me levou com meu marido na casa do meu pai, cheguei lá à noite, depois de quase mais de 15 anos eu entrava pelo portão do meu pai, fui recebida por ele, abracei ele e choramos. Que triste, meu Deus, que dor! Ele me disse: “você viu fia o que fizeram?” e eu disse: “me perdoa por não estar perto, pai” e choramos. Entrei na cozinha, tava lotada de familiares meus que não me viam desde pequena, meu irmão mais novo não me via há quase 20 anos, lá estavam minha madrasta e meu irmãozinho mais novo, tias que me viram quando criança, nos abraçamos com a dor da morte e a emoção do reencontro. Depois disso não passo uma semana sem ligar ou ir ate lá. Mais tarde levei meus filhos para conhecer tias, tios, primos, avô, que nunca tinham visto. Precisou alguém morrer para vermos o quanto é precioso estar junto e dizer que nos amamos. Daí em diante, tomei a frente comecei a ajudar, perceberam que eu falava muito bem e que era a melhor para dar entrevistas revezando com meu pai e eu também descobri que era inteligente a tal ponto e não sabia.
Afropress – E o teu pai, como reagiu e como está ele agora?
Marinela – No exato momento em que meu pai ficou sabendo eu não estava junto como já relatei, mas coloque-se no lugar dele e tente imaginar a dor. Com certeza o que você vai tentar imaginar sentir ainda será pouco perto do que ele sentiu (cada um sabe o tamanho da sua própria dor) ele perdia o filho amado, exemplar, honesto, esforçado e seu melhor amigo. Hoje meu pai está com o choro contido, sofre por dentro para ter forças para lutar por justiça, e tendo que continuar a vida, pois ainda tem filhos, netos, e toda uma família onde ele é o patriarca e pilar.
Afropress – Como está o trabalho na Ong Afrovida, que você dirige? Houve um caso de invasão de policiais, como está isso agora?
Marinela O trabalho de nossa Ong está andando com muita dificuldade, pois a demanda de pessoas pedindo ajuda é muito maior de que a de pessoas para ajudar. É um trabalho de formiguinha que faço quase que sozinha, luto com todas as minhas forças e quando me canso lembro que sempre tem alguém precisando e que meu pai está lutando mesmo com toda dor dele. Houve uma invasão de PMs, que diziam ter uma denúncia contra mim,
arrebentaram com tudo, traumatizaram meus filhos com armas, foi horrível, mas estou com a Corregedoria, e estou processando eles. Tentaram mas não conseguiram me incriminar de uma coisa que eu jamais fiz e faria que é mexer com drogas e armas. Minha filha ficou muito traumatizada, ficou três dias sem falar direito e até hoje fica, a ponto de desmaiar quando vê um policial.
Afropress – Como você, que não era militante, vê hoje o Movimento Negro e como avançou a sua consciência do racismo na sociedade, após o assassinato do Flávio?
Marinela – O movimento é muito rico, mas falta mais apoio e, principalmente, precisamos de mais ações para o povo extremamente carente. Força tem, o que falta é apoio. Tem muita coisa meio nebulosa, mas prefiro não criticar o trabalho dos outros e tentar fazer o meu.
Afropress – Vocês são de uma família de Mórmons – inclusive o Flávio era missionário retornado – e o senhor Jonatas, seu pai, é policial aposentado. Como foi pra vocês passarem pelo drama de ter uma pessoa da família assassinada em circunstâncias tão brutais?
Marinela – Não somos uma família de Mórmons, apenas eu e o Flávio somos batizados. Minha família é grande e de várias comunidades evangélicas. Cada um segue o que acredita e se sente bem. Meu pai e minhas tias que moravam junto com o Flávio são da Congregação, minha mãe e minha avó materna (falecidas) eram católicas, o Flávio era missionário retornado da Igreja Mórmon e membro ativo com cargo e tudo dentro da Igreja. Meu pai Jonas Santana é policial aposentado. Não apenas foi mas, esta continua sendo a maior tragédia que já passamos em nossa vida com consequências irreversíveis e perdas irreparáveis.
Afropress – Quais os projetos que você pretende levar adiante pela Ong Afrovida?
Marinela – Muitas pessoas nos procuram buscando ajuda, e procuro articular com a sociedade para conseguir a ajuda. Montei o Estatuto, organizei a diretoria, foi um jeito que encontrei de continuar como um trabalho missionário (já que o que meu irmão mais gostava de fazer era ajudar o próximo) e de mostrar para meu pai que o filho dele não morreu em vão. Quero montar uma biblioteca de afrocentrismo e africanidades, e tudo sobre a cultura negra no Brasil e no mundo, religião, artes, folclore etc. Ano que vem, provavelmente teremos o primeiro miss beleza negra em Osasco, município onde moro. Pretendo fazer parceria com o governo para instalar uma padaria comunitária, debates, palestras, sobre saúde, anemia falciforme, gravidez precoce, drogas, álcool, coisas assim… Projetos para adolescentes, jovens, adultos e idosos, um disque denuncia para crimes de racismo, enfim, tem muita coisa que queremos fazer e que vamos fazer, fora o que já faço, sem apoio e sem registro, imagina legalizada juridicamente e com apoio, o que não vamos fazer.
Afropress – Como mulher negra, morando na periferia, como você vê o nível de consciência hoje da população negra em S. Paulo e no Brasil?
Marinela – Nota zero, não temos identidade, estamos longe do que é cultura. Falta muito, muito mesmo.
Afropress – O que você diria se tivesse oportunidade de falar diretamente aos assassinos do teu irmão?
Marinela – Nada. Silencio. Repúdio. Repugnância. Dor. Dor. Dor.
Afropress – E aos integrantes do Tribunal do Júri que vão julgar os PMs acusados pela morte do seu irmão, no dia 17?
Marinela – Silencio e oração para que sejam honestos e justos,que Deus toque o coração deles e que faça justiça.
Afropress – Como mulher negra, o que diria para as mulheres negras como você?
Marinela – Todos somos iguais. Não tem essa de mulheres negras. Somos brasileiras e todas temos o sangue negro mesmo que não tenha a cor. Somos fortes porque somos mulheres; somos fortes porque somos brasileiras e quando somos negra no tom da pele também somos fortes mais ainda. Sou mãe grávida pela quinta vez e agora separada (meu marido foi embora), luto para sustentar tudo sozinha, educar, e amar meus rebentos, e tem a Ong. Se eu posso todas podem. Temos que aprender muito e digo que preciso de ajuda e espero que muitas mulheres se unam comigo, que me dêem forças pois ainda vamos governar mais, educar mais e mudar tudo o que está de errado. O Brasil precisa de mais mulheres como nós, na luta e, quem sabe, na presidência.

Da Redacao