Ìyá Mi*

Me toma uma dor profunda quando vejo tudo o que éramos, tudo o que somos, sendo repetidas vezes pisoteadas intencionalmente.

Quando vejo minhas irmãs e irmãos se envergonharem de dizer que sua Deusa é preta que seu Deus é preto, servindo de armas contra nós mesmos sem entender que nos mata aos poucos e que a conta gotas mata a si próprio.

Quanto ardiloso é o sistema que nos oprime!

A todo momento minha identidade é arrancada para expurgar pecados em uma louca batalha contra um demônio a quem nem conhecemos, como se cada traço da minha origem me fizesse pior. Sinto-me mutilada a cada propaganda a cada cartaz que tentam me fazer renegar o que me trouxe até aqui.

A cada instituição que se abre com o único objetivo de me ridicularizar, meus ancestrais choram por ainda ter que me dar forças para suportar, resistir, insistir, como a 500 anos como a milênios!

Quando o capital se sobrepõem e inverte nossos valores, perdemos por desconsiderar tudo o que temos de importante, nossa comunidade,nossos rituais, nossos templos que incluem plantas, terra, água, bichos e gente coexistido num respeito sagrado, deixamos de ser o que somos e nossa lógica se altera e não nos reconhecemos nos nossos iguais e queremos ser diferentes do nosso passado e é nesse momento que deixamos de ser.

Em dias como hoje que minha alma parece tomada pela tristeza da realidade é que um calor diferente me toma o corpo e me tira o controle dos atos me mostrando que meus Orixás não desistiram e se elas e eles não me abandonaram sou forte suficiente para fazer com que o nosso grito seja alto.

Não tenho direito de descansar e nem de esquecer que minha força vem d’África e me mantenho firme como o Iroko*!

Por aqueles que morreram e pelos que ainda viram, entre sangue, suor e lágrima muito bem acompanhada por Exú, Alaroye, retorno à luta e, *lesse Orixá, aqui estou!

“BÁAYÍ KÍNKÍN BÁAYÍ OLÁ BÁAYÍ KÍNKÍN FÚN MI BÁAYÍ OLÁ”

  1. “De-nos um pouco de perseverança
  2. Perseverança e que sejamos honrados
  3. Faça-me perseverante e honrado.”

 

* Iyá Mi – Palavra em Iorubá, dialeto africano utilizado nos terreiros de Candomblé. Significa –  Minha Mãe

* Iroko – Árvore sagrada dos Iorubás.

* Iesse – Palavra em Iorubá que significa aos pés, seguidor.


.

Watusi Santiago