Brasília – Nos nove minutos e 28 segundos em que atendeu o editor de Afropress, a ministra Luiza Bairros, além de demonstrar contrariedade em relação à avaliação de que sua atuação estaria sendo considerada apagada na Esplanada – considerou as matérias “exemplo de mau jornalismo”.
Socióloga de formação, a ministra, segundo ela própria admitiu, não entende do tema. “Não vou aqui me deter numa análise – até porque não sou especialista – mas, é o tipo de jornalismo, me parece que, principalmente, na condição em que nós negros nos encontramos na sociedade, não contribui em absolutamente nada, para situar melhor o que é a questão racial no Brasil, nem tampouco para situar o que é um órgão como a SEPPIR, acho que contribui inclusive para reproduzir uma série de preconceitos que existem contra nós em qualquer lugar que agente ocupe e uma série de idéias absolutamente negativas para um ministério como o nosso, ok?”, afirmou.
Por por iniciativa própria também explicou o episódio em que deixou o correspondente de Afropress por duas horas, sem qualquer aviso, esperando-a para uma entrevista que havia sido marcada e confirmada por sua assessoria. Ela explicou que não retornou porque o correspondente não deixara telefone de contato.
Na verdade, em e-mail enviado a assessora Juci Machado, Cadette deixou o seu telefone de contato em Nova York.
A ministra também se atrapalhou em relação a data da vista: foi 22 de setembro e não de agosto, conforme disse, no tenso monólogo.
Leia, na íntegra, a conversa.
Luiza Bairros – Então, eu li a sua matéria, que foi repercutida pelo Áfricas [Portal Áfricas]. Fiquei bastante preocupada com a forma com que aquela abordagem foi feita. Em função disso, inclusive, que nesse momento não estou me sentindo muito à vontade prá, tipo sentar com você, conversar etc.
Nesse sentido eu gostaria de, muito mais aproveitar esse momento para ter a conversa que eu acho que você deveria ter tido comigo, antes de escrever o que escreveu, ok?
Em primeiro lugar, para considerar que você se manifestou em cima de uma matéria da Folha de S. Paulo, que eu tenho certeza que você acha que é uma matéria que é um exemplo de mau jornalismo. Uma matéria que não considera a existência de fontes confiáveis porque ela faz afirmações que são afirmações importantes, não é? Afirmações categóricas a respeito do ministério e indiretamente a respeito da ministra e que seria, eu acho que para maior consistência daquela matéria, que as fontes tivessem sido identificadas.
Não vou aqui me deter numa análise – até porque não sou especialista – mas, é o tipo de jornalismo, me parece que, principalmente, na condição em que nós negros nos encontramos na sociedade, não contribui em absolutamente nada, para situar melhor o que é a questão racial no Brasil, nem tampouco para situar o que é um órgão como a Seppir.
Acho que contribui, inclusive, para reproduzir uma série de preconceitos que existem contra nós em qualquer lugar que agente ocupe e uma série de idéias absolutamente negativas para um ministério como o nosso, ok?
Então, minha expectativa, do ponto de vista do caso do Afropress que, enquanto Imprensa Negra, é que o Afropress tivesse a possibilidade de situar um pouco o que significa isso e, em cima disso, é… como é que eu digo? basear, criar bases mais sólidas para estabelecer uma crítica que aquele jornalismo demonstrado ali não foi capaz de fazer.
Afropress tem essas condições, né? As informações, o acompanhamento do que é essa agenda da igualdade racial, portanto, tem condições de fazer daquilo ali algo que contribua, digamos assim, para a reflexão das pessoas e não apenas fortaleça um processo de desqualificação nosso. Ponto.
O segundo aspecto que, naquele momento, nós poderíamos ter conversado a respeito, tem relação com a menção que foi feita a uma entrevista ao correspondente do Afropress em Nova York. Uma situação absolutamente simples e um desencontro, na minha opinião, absolutamente corriqueiro.
Foi feita, me lembre por favor, o nome do jornalista [Edson Cadette], o correspondente do Afropress em Nova York e que fez um contato com o conselheiro da embaixada brasileira em Nova York solicitando comigo uma entrevista.
Esse contato chegou ao meu conhecimento na manhã mesma em que se iniciou a reunião de alto nível da qual eu participei, no dia 22 de agosto [a reunião aconteceu em 22 de setembro]. Quando eu fui consultada sobre isso a entrevista com ele foi marcada para acontecer as 8h da noite no Hotel.
Acontece que essa reunião se estendeu até um pouco mais de 9h da noite, eu já não estava mais naquele momento em companhia do conselheiro e nem consequi contatar com ele para ver como é que faria para trocar o compromisso.
Quando retornei ao hotel, já em torno de 10h, havia um recado dele na secretaria eletrônica dizendo que tinha estado lá, que parece que tinha me esperado até ás 8h da noite como eu não compareci ele foi embora e deixou esse recado sem deixar o telefone dele.
Portanto, eu já estava saindo no dia seguinte, de manhã, não tive a menor possibilidade de recuperar esse contato.
Então, é, não me parece…. Não, é apenas isso, ok? que eu queria dizer, tá bom. Eu vou, inclusive, pedir a tua compreensão em cima disso, prá encerrar, entendeu, aqui. Não, acho que essa conversa que agente teve acho que situa um pouco as coisas.
Afropress – Na verdade a pergunta que eu faria para a senhora tem a ver com o debate, que não fomos nós que criamos, o debate que está em toda mídia e não apenas na Folha de S. Paulo. A posição da Presidente Dilma, especula-se, e isso é absolutamente legítimo…
Luiza Bairros – Isso eu deixo a teu critério como especialista prá analisar. Eu só reajo como leitora
Afropress – A grande especulação hoje no Brasil, no debate público, não só no jornal Folha de S. Paulo, na Afropress, é a decisão… anuncia-se a posição da presidente Dilma de promover uma reforma e nessa reforma – sem entrar nas considerações sobre a sua atuação especificamene -, anuncia-se a junção das três secretarias num ministério de Direitos Humanos. Gostaria de ouví-la sobre isso. Não vou aqui entrar no detalhe da avaliação que se faz na Esplanada e não apenas a Folha de S. Paulo, não é uma avaliação da Folha de S. Paulo, a respeito da atuação de cada uma das secretarias, mas é pertinente perguntar para a senhora, qual é a sua posição. O que a senhora acha disso, dessa possibilidade que me parece hoje, bastante pertinente, do ponto de vista da informação que circula a respeito das junção das três secretarias, entre as quais a Seppir, num grande ministério dos Direitos Humanos.
Luiza Bairros – Em primeiro lugar dizer, muito simplesmente, que essa discussão não está constituída oficialmente dentro do governo federal. Nenhuma das ministras ou dos ministérios envolvidos nesse debate levantado pela imprensa foi consultado a respeito dessa questão. A verdade é que é uma notícia que reiteradamente está sendo veiculada e comentada em alguns meios e que de uma certa forma até que eu tenha isso oficialmente, eu considero parte de um processo que não é novo, nós já assistimos a um debate dessa natureza ha cerca de cinco ou seis anos atrás.
Exatamente esse modelo que é especulado agora, foi especulado há tempos atrás e o que nós temos de fazer no momento é procurar fazer com que essa discussão se oficialize de algum modo dentro do governo, se é que é essa efetivamente a intenção dele, que como eu disse e repito oficialmente, a discussão não está instalada.
Afropress – A senhora acha que isso prejudica, por exemplo, a SEPPIR e a atuação da SEPPIR?
Luiza Bairros – Deu prá mim, querido.
Afropress – É?
Luiza Bairros – É.

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