Maduro, como ser humano e musicalmente, Jair de Oliveira fez show na Symphony Space,o famoso teatro novaiorquino, que não conhecia e diz ter gostado muito, inclusive da reação do público.
Jairzinho, que muita gente lembra quando, ainda criança, apareceu no “Balão Mágico” ao lado da Simony, já esteve nos EUA outras duas vezes para apresentações, inclusive tocou em Manhattan, com o pai, sozinho e em um show, em 2001, junto com Marx de Castro e Dona Ivone Lara no Lincoln Center.
Foi em Nova York e no Symphony que ele encontrou com o correspondente Edson Cadette, paulistano da Zona Leste, que há 18 anos vive nos EUA e há três escreve regularmente para a Afropress. Falou do tipo de música que costuma ouvir, e disse que o Hip Hop, é mais do que um estilo musical. “No final dos anos 90, acho que na metade pro fim da década de 90, o Rap conquistou um espaço muito importante no Brasil, principalmente, em São Paulo e Rio, que tem um periferia muito forte e acabou revelando grandes artistas”, afirmou, citando como exemplos Happin’ Hood e os Racionais.
Veja, na íntegra, a entrevista concedida por Jair de Oliveira à Afropress
Afropress: Primeiro Jair, gostaria de agradecer em nome da Afropress, esta sua disponibilidade em falar com a gente um pouco sobre a sua carreira. Gostaria que você falasse um pouquinho do seu “background”, onde nasceu, onde cresceu e estudou?
Jair de Oliveira – Bom, eu nasci em São Paulo mesmo, na capital. Morei minha vida quase toda aqui, fora alguns anos que eu passei em Boston. Fiz o ensino básico em São Paulo mesmo, num colégio chamado Santos Anjos. Depois passei pelo Rio Branco, um colégio tradicional de São Paulo, depois entrei na USP para fazer Jornalismo, mas não fiquei nem três meses lá. E aí já fui para o “College of Music”(Faculdade de Música), em Boston(EUA); aí fiz faculdade de música.
Afropress: Desde que você se lembra, sempre esteve envolvido no mundo artístico, não é? Provavelmente até ouvindo as famosas canções de seu pai, desde o útero de sua mãe, não é? Depois cantando com seu pai quando tinha mais ou menos 6 anos de idade. Entretanto, sua fama começou a aparecer mesmo com os membros do Grupo o “Balão Mágico”, o famoso programa infantil que durou mais ou menos uns 3 anos na Rede Globo, na década de 80. Depois, você fez dupla com a cantora Simoni, e há algum tempo vem trabalhado como compositor, cantor, produtor e, recentemente, até como ator. Você carrega o sobrenome de uma das pessoas mais conhecidas como cantor no país como cantor e ídolo. Quais foram os benefícios e tambem os problemas que o sobrenome Oliveira trouxeram para você?
Jair de Oliveira: Ah!, cara, não sei, não costumo pensar muito nesta coisa do benefício do nome nem problema. Acho que cada um constrói sua carreia. Acho que vai muito mais da mídia, do peso do nome. Acho que ele existe e, óbvio, existe porque, quando você é filho de um cara muito bem sucedido e tem as vantagens e desvantagens, mas como tudo, né? O fato de você também não ser filho de artista também tem as vantagens e desvantagens. Então eu sempre penso de uma forma muito natural. Tem gente que acha que ajuda, tem gente que acha que atrapalha. Em alguns momentos isto acontece,alguns momentos atrapalha o fato da pessoa querer ficar comparando meu trabalho com o do meu pai. Mas, isto não parte de mim. Eu não fico pensando nestas coisas. Em outros momentos ajuda sim, manter a referencia. É como você ser filho de um grande médico e você decidir ser um grande médico, né? Tipo, você só vai se tornar um grande médico não vai ser pelo nome do seu pai. Vai ser pelas suas atitudes, pelas suas ações, pelas suas consultas e tal. E a pessoa também só vai confiar a vida na sua mão, se você provar que é um grande médico, ninguém vai confiar a vida na mão de um médico só pelo fato dele ser filho de um grande médico. Eu acho que com a música acontece meio parecido também. É bom você ter a referencia de um grande músico na sua família, mas você precisa provar para as pessoas que você tem o talento também para a música, né? Se não, não conquista nada.
Afropress: Você acha então, nesse caso, a prova é mais difícil ainda porque você tem que provar muito mais que tem talento, ou não?
Jair de Oliveira: Eu acho que é igual, Cara. Na música, para você conquistar as pessoas, você tem que provar que é talentoso, né? que tem talento mesmo, que tem a música; é muito subjetivo. Às vezes você faz um trabalho que agrada muita gente, mas desagrada muita gente tambem. Então esta coisa de música de qualidade, o talento, é muito subjetivo, mas, eu acredito assim que para conquistar um público, você não conquista um público só no nome da sua família entendeu? Eu não conquisto meu publico e não conquistei meu público só pelo fato de ser filho de Jair Rodrigues. E até, em alguns casos, ajuda sim, da pessoa querer ter um interesse porque eu sou filho do Jair Rodrigues, mas o interesse só continua se a pessoa se encanta com o meu próprio trabalho entendeu? Acho que não tem essa da pessoa se encantar com o trabalho do artista pelo fato dele ser filho de outro artista. Acho que o encanto com arte acontece pelo que o artista faz, não pela sua herança, né?
Afropress: Você, recentemente, se apresentou aqui em Manhattan (NY), para uma platéia predominantemente de novaiorquinos bastante exigentes. Como você se sentiu debutando aqui em Nova York?
Jair de Oliveira: Olha, na real, não foi meu debut porque eu já toquei em Manhattan outras vezes. Algumas, acompanhando meu pai, mas tocando meu próprio trabalho em 2001, eu fiz um show junto com o Marx de Castro e a Dona Ivone Lara lá no Lincoln Center. Mas, é sempre bom, né? Como eu não estou sempre tocando nos Estados Unidos, para mim esta foi minha primeira turnê americana,tocar em vários lugares na mesma ocasião, então para mim foi demais tocar no “Symphony Space”. Eu nunca havia nem ido ao “Symphony Space” para assistir um show, mas pelo que eu ententi eu acho que é um teatro até relativamente novo. Eu achei demais, achei o lugar muito legal, achei que o público reagiu super bem ao meu show. E achei que foi uma experiência muito gratificante. Certamente foi um dos melhores shows fora do Brasil que eu fiz.
Afropress: Você, certamente, teve muita influência musical do seu pai que canta samba. Entretanto, quando seu pai começou a carreira, no final dos anos 50, este ritmo musical estava mais associado aos afro-brasileirios. Havia também, na época, um certo esteriótipo negativo do negro compositor com pouca escolaridade e morando, principalmente, nos morros cariocas. Você acha que hoje em dia isto ainda prevalece ou está mudando?
Jair de Oliveira: Acho que muita coisa mudou e muita coisa ainda continua igual, né? E, óbvio, que esta noção de que o compositor do samba vem dos morros cariocas, claro que muita gente boa do samba ainda ainda vem, ainda surge nos morros do Rio de Janeiro. Mas este tipo de percepção acabou morrendo um pouco até pelo sucesso que o samba conquistou, principalmente, com a maior parte do povo brasileiro, né? Você vê assim caras que até vem desta origem, mas que hoje em dia atingem um público muito grande, como o Zeca Pagodinho, o (Dudu) Nobre, o Arlindo Cruz, enfim, muita gente boa do samba que hoje fala com todo mundo, fala com todas as classes sociais brasileiras e fora do Brasil também. Muita coisa mudou. Hoje em dia acho que não é mais aquela coisa, mas tem também muito esta noção. Acho que as coisas foram mudando gradativamente, o músico foi conquistando um espaço maior e uma importância maior na sociedade, assim como o jogador de futebol também que, no começo, tipo poderia ter aquela imagem de ser um cara meio sem muito rumo na vida, mas hoje em dia você vê a importância até social do esportista, do musico, do artista. Isto mudou bastante, mas ainda tem muita gente que considera… As vezes você pega, você vê pais de família que quando o filho fala ou a filha fala que quer seguir na música, o pai já se preocupa e fala: “Porra, o que você vai fazer realmente da sua vida?”, e tal. É uma visão muito retrógrada, muito antiga. Acho que hoje em dia pelo poder que a música tem internacionalmente, não só o samba, mas a música, em geral, a visão das pessoas em relação ao músico ao artista mudou. Mas, é claro que ainda não é… grande parte da sociedade ainda espera que os filhos sejam médicos, advogados, ainda não é uma profissão que a sociedade abraça com todas as forças.
Afropress: A Bossa Nova foi trazida para os EUA no começo dos anos 60 por brasileiros brancos da classe média carioca, tipo Tom Jobim, mesmo o Francis Hime, esse pessoal todo, né? E continua sendo, até hoje, o gênero musical brasileiro mais conhecido no exterior. Na sua opinião, por que o samba brasileiro nunca teve o mesmo alcance e a mesma popularidade que a Bossa Nova alcançou fora do Brasil?
Jair de Oliveira: Cara, é difícil de dizer isso, né? A Bossa Nova, acho que ela tem este poder por ela ter optado e se aproximado do Jazz americano. Porque a Bossa Nova começou a fazer sucesso mesmo internacionalmente depois que passou pelos EUA, e ai todo aquele pessoal de Jazz abraçou, todo mundo começou a gravar clássicos do Tom Jobim e tudo. A Bossa Nova tem esta proximidade harmônica né? Até melódica com o Jazz e tudo. Então acho que ela teve esta abertura, principalmente nos EUA por ter esta relação com o Jazz. Que é coisa que fica mais próxima do universo americano, do público americano. O público americano entende melhor a Bossa Nova porque ela tem muito das caracteristicas “jazzisticas”. O Samba é, tipicamente, brasileiro, né? O americano, ele não entende perfeitamente, ele gosta, ele acha exótico, ele acha bonito. Até pela dificuldade também de língua. O português é um negócio que o americano não entende. Então esta coisa da proximidade da Bossa Nova com o Jazz, acho que facilitou muito a entrada da Bossa Nova nos EUA e depois para o resto do mundo. Coisa que o Samba não tem. O universo do Samba mesmo, tipo do Samba canção, do Samba enredo, enfim de todos estes outros tipos de Samba que não a Bossa Nova, é um universo muito diferente do universo americano, né? É mais complicado do público americano entender o samba como o brasileiro entende.
Afrorpress: O que você gosta de ouvir musicalmente?
Jair de Oliveira: Puxa, eu gosto de ouvir tudo, cara. Eu não tenho muito preconceito assim com música. Claro que tem muita que eu não gosto e não ouço, mas os estilo assim, eu acabo ouvindo tudo. Acabo ouvindo muita música clássica, muito Jazz. Eu gosto muito de Jazz, de Soul, de Rock, gosto de muita coisa de Rock, de Samba, obviamente, música brasileira, ouço sempre. É uma coisa que me influencia muito e tal. Mas ouço de tudo. Agora, por exemplo, tenho ouvido muito Astor Piazolla, ouvido muita coisa de Tango, então eu acabo ouvindo de tudo, cara.
Afropress: O que você acha do gênero da música Rap e o Movimento Hip Hop no Brasil?
Jair de Oliveira: Olha, eu acho muito válido, eu gosto bastante, ouço muita coisa, tem muito artista de Rap brasileiro, com muita qualidade. Happin’ Hood, por exemplo, os Racionais. Eu acho que Rap também conquistou, como o movimento Hip Hop conquistou também nos EUA, esta identidade muito forte com a periferia, com o gueto, né? É o movimento que é a palavra do gueto, é a palavra da periferia, né? Então, além de ser um estilo musical, acho que ele carrega também junto com o movimento, uma responsabilidade social muito grande para as pessoas da periferia. Uma identidade social também muito grande para este pessoal mais marginalizado politicamente, né? É um pessoal que não tem muita atenção, não tem muito apoio, e o Rap acabou se tornando a voz destas pessoas, né? Nos Estados Unidos a gente vê que o Rap conquistou geral, né? Hoje em dia é um tipo “mainsteam”(escutado por todos dentro da sociedade) coisa que antigamente era um estilo menos executado, hoje é “mainstream”, até virou moda, até quem não tem muito a ver com movimento Hip Hop hoje em dia faz Rap. E no Brasil isso também acabou acontecendo. No final dos anos 90, acho que na metade pro fim da década de 90, o Rap conquistou um espaço muito importante no Brasil, principalmente, em São Paulo e Rio, que tem um periferia muito forte e acabou revelando grandes artistas.

Jair de Oliveira em entrevista ao correspondente de Afropress em Nova York, Edson Cadette.