Mas cinqüenta anos já é um bom tempo pra se aprender recordando. Como, por exemplo, no dia em que lemos, em editorial de O Globo, o que a opinião pública conservadora achava das religiões de matriz africana em 1954.
No mesmo O Globo, vemos agora reproduzida a seguinte nota, sobre um concurso de cães vira-latas em Vila Isabel, publicada em 09.02.57:
“Sua Majestade Canina, Jamelão I, até 16 de fevereiro, monarca absoluto dos vira-latas, deixando por um dia seus hábitos dominicais (…). Jamelão, num dos últimos atos do seu democrático reinado, presidirá ao desfile de candidatos a Rei dos Vira-Latas, que começará às 9h, na Praça Barão de Drumond em Vila Isabel”.
**
Em 1957, o admirável cantor Jamelão, ora amargando as seqüelas de um acidente vascular cerebral que o deixou inclusive sem fala, já era morador de Vila Isabel, onde reside até hoje. Já tinha feito sucesso com os sambas “Leviana”, “Exaltação à Mangueira”, “Eu Agora Sou Feliz”, e já tinha gravado o belíssimo samba-canção “Folha Morta”, de Ary Barroso. E, mais, já era, na avenida, o inconfundível intérprete de Mangueira – a qual, no ano anterior, num samba antológico, exaltara Vargas, “o grande presidente”, certamente para desespero do jornal da família Marinho.
Veja-se, então, que a nota zombeteira de O Globo, publicada nas proximidades do carnaval de 1957, parece ter tido endereço certo. Mas há 50 anos atrás, nossas coisas eram tratadas assim mesmo…
O que não se justifica é a republicação da nota agora. Quando o nome “Jamelão”, pronunciado, evoca de imediato, não mais o fruto de cor preta arroxeada, ou o apelido racista dele decorrente, mas, aí sim, um dos maiores intérpretes da música popular brasileira em todos os tempos.
Neste momento, em que esse artista sublime, muito doente e fragilizado, não tem nem como reagir, a publicação de tal nota foi uma brincadeira de mau gosto. É de extrema covardia.
Texto reproduzido com autorização do autor, da página “Meu Lote” – www.neilopes.blogger.com.br

Nei Lopes