A abolição da escravatura (1888) ocorreu sem inclusão social, restando aos libertos a pobreza, o subemprego e o estigma de 400 anos de escravidão. Este quadro excludente, o historiador Décio Freitas (1922-2004) conceituou de Brasil inconcluso.

 

Em nosso país, entre outras contribuições, o samba se constitui numa herança musical do negro, representando uma das formas da sua resistência cultural. "O Mestre-Sala dos Mares" (1975), de João Bosco e Aldir Blanc, é um relicário desse gênero musical, cuja letra foi censurada no regime militar (1964-1985) por trazer a público a figura de João Cândido Felisberto (1880-1969), o "Almirante Negro", personagem que a história oficial soterrou nos porões da memória nacional. Entre outras alterações na letra, destacam-se a substituição de marinheiro por feiticeiro e navegante no lugar de almirante.

 

Neste momento, no qual o país acaba de vivenciar o Carnaval, nada mais justo que nos lembremos do samba que evoca João Cândido. Essa composição, imortalizada na voz de Elis Regina (1945-1982), poderia, também, ser batizada com o título de "Mestre-Sala da Liberdade", devido à sua luta contra a opressão, a injustiça e o desrespeito à dignidade humana. Na escola de samba, o mestre-sala corteja e protege a porta-bandeira. No caso do "Almirante Negro", ele defendeu a porta-bandeira da liberdade no bailar das águas.

 

“O Mestre-Sala dos Mares” nasceu em Encruzilhada, no Rio Grande do Sul, em 24/6/1880. Filho dos ex-escravos João Felisberto e Inácia Cândido Felisberto, serviu na Marinha do Brasil durante 15 anos.

 

À noite, em 22 de novembro de 1910, eclodiu, no Rio de Janeiro, a Revolta da Chibata, devido aos castigos corporais sofridos pelos marujos. Após Marcelino Menezes ter sido punido com 250 chibatadas, no Encouraçado Minas Gerais, a marujada, composta por 90% de negros pobres, rebelou-se liderada pelo "Almirante Negro". O motim se estendeu a outros navios, sendo seus comandantes destituídos.

 

Cerca de 2.300 homens comandaram os navios de guerra, direcionando mais de 80 canhões para o Palácio do Catete. Além da anistia, os marujos exigiam o fim dos castigos, aumento do soldo e redução da carga horária. Em 25/11/1910, o presidente Hermes da Fonseca (1855-1923) lhes deu anistia, porém, três dias depois, decretou as expulsões da Marinha e prisões. Os marujos, após devolverem os navios aos oficiais, foram surpreendidos: haviam sido traídos.

 

Acusados de outro levante, que, segundo alguns historiadores, teria sido forjado pelos próprios oficiais da Marinha, 18 líderes foram presos na solitária do quartel da Ilha das Cobras. O "Almirante Negro" e outro marujo sobreviveram, os outros 16 morreram sufocados, devido à evaporação da cal misturada à água para lavar o local.

 

Em 1911, o "Almirante Negro" foi internado como louco no Hospital dos Alienados. Ao obter alta, retornou para a prisão da Ilha das Cobras, saindo em 1912. Viveu o resto da vida pobre, como estivador e vendedor de peixe na praça XV do Rio de Janeiro. Casou-se três vezes e teve 11 filhos. Faleceu, aos 89 anos, em 6/12/1969, vítima de câncer.

 

Na maior festa popular do Brasil – o Carnaval – a União da Ilha do Governador (RJ), em 1985, e Camisa Verde (SP), em 2003, homenagearam a figura de João Cândido, o "Almirante Negro" em seus enredos.

 

Porto Alegre (RS) presta homenagem a João Cândido, no Parque Marinha do Brasil, por meio de um busto criado por Vasco Prado (1914-1998). Essa é uma réplica de outro que se encontra na tradicional Sociedade Floresta Aurora, fundada, em 1872, por negros alforriados, sendo a mais antiga, na capital gaúcha. A Sociedade Floresta Aurora continua com suas atividades, visando a valorizar o legado cultural da população afrodescendente no Rio Grande do Sul.

 

Bibliografia:

CHEICHE, Alcy. João Cândido: O Almirante Negro. Porto Alegre: L & PM, 2010.

MOREL, Edmar. A Revolta da Chibata. Quarta Edição. 1986. Editora Graal.

 

 

Carlos Roberto Saraiva da Costa Leite