Salvador – O mestre em Direito pela Universidade de Brasília, João Jorge Rodrigues, 53 anos (foto), presidente do Olodum – grupo conhecido nacional e internacionalmente como uma referência da cultura negra baiana – quer se transformar no senador negro do Brasil, nas eleições de outubro.
Mesmo concorrendo pela Bahia e não tendo ainda a garantia da legenda do PV, partido ao qual está filiado desde o ano passado, quando aderiu a candidatura da senadora Marina Silva à Presidência da República, João Jorge mostra-se confiante na possibilidade de sua candidatura galvanizar não apenas o movimento negro do país, mas aos setores anti-racistas da sociedade, sensíveis à necessidade de incluir a temática étnico-racial na agenda do país.
Com uma população de 50,6% de pretos e pardos, segundo o IBGE, o Brasil tem um único senador negro, entre os 81 que compõem o Senado Federal – o ex-sindicalista Paulo Paim, eleito pelo PT do Rio Grande do Sul.
“O que pretendo é criar uma idéia positiva. A eleição de um senador negro pela Bahia será uma ação afirmativa para todo o Brasil. Não é possível mais ter medo. Temos que disputar com as elites brancas o projeto político de Nação. Uma eleição como essas vai representar uma mensagem de que é possível”, afirmou.
Segundo João Jorge, o Brasil está vivendo um grande dilema, pois não pode continuar com a profunda desigualdade que o atinge a população negra, exposta em todos os indicadores. “A democracia brasileira precisa incluir os milhões de brasileiros negros, independente de quem seja o presidente ou governador. Nós somos construtores, protagonistas desse Brasil contemporâneo. Esse é o maior desafio da minha vida e do movimento negro nacional no lugar do racismo mais forte desse país, que é a Bahia”, acrescentou.
Para atingir esse objetivo, ele pretende promover atos de apresentação da candidatura nos próximos três meses, em S. Paulo, Rio, Brasília e em Salvador. Esses atos, segundo avalia, serão irradiadores do programa que pretende apresentar ao movimento negro e anti-racista do país.
Em abril, ele viaja para os Estados Unidos para encontrar-se com lideranças negras, a começar pelo professor Henry Louis Gates Jr., da Universidade de Harvard, um dos mais importantes intelectuais negros norte-americanos e amigo do Presidente Barack Obama, que no carnaval esteve na Bahia e desfilou no Olodum.
Na conversa com o Editor de Afropress, jornalista Dojival Vieira, no último dia 05 de março (o último dia da Audiência Pública promovida pelo Supremo Tribunal Federal para tratar das Ações Afirmativas e das Cotas), numa mesa de um restaurante no Shopping Venâncio 2000, em Brasília, o presidente do Olodum, falou dos projetos que defenderá como senador e como pretende levar adiante a campanha.
À mesa, importantes lideranças negras do país como Marcos Cardoso, de Minas, Flávio Jorge, de S. Paulo, Carlos Alberto Medeiros, do Rio, Magno Lavigne e Sérgio São Bernardo, ambos da Bahia, não necessariamente integradas ao projeto, mas todas simpáticas à ousadia de João Jorge.
Sem recursos, nem estrutura de campanha, e em um Partido pequeno como o Partido Verde (PV) que, na Bahia, ainda nem decidiu se terá candidato a governador, nem se abrirá o espaço para uma candidatura ao Senado com as pretensões que propõe, João Jorge, contudo, não perde a fé. “Nós queremos o sol e a sombra para todos”, acrescentou, lembrando Bob Marley.
Veja os principais trechos da conversa de Afropress com o presidente do Olodum
Afropress – Como é que nasceu essa idéia de tentar se tornar o primeiro senador negro pela Bahia?
João Jorge – A origem desse sonho vem de 1.798, ano da Revolta dos Búzios. É a partir desse momento que negros, mestiços e brancos se juntaram numa confraria para promover a igualdade. Vem da luta do movimento social negro pela igualdade; da pobreza do Estado da Bahia. Represento o movimento social negro. Quero expressar a vontade de todos os negros que postulam atuar politicamente.
A Bahia é o quarto colégio eleitoral do país. É um Estado do tamanho da França, de Angola, com 14 milhões de habitantes, três biomas, o maior litoral do país, apto a ser o terceiro Estado da Nação, quando hoje é apenas o sexto. Temos apenas uma Universidade Federal, a infra-estrutura é precária e apesar de termos o maior litoral do Brasil, importamos pescado porque toda a atividade pesqueira é feita como se fazia há 200 atrás.
Por exemplo, o caranguejo que é pescado na Bahia, é vendido a R$ 0,04 centavos; o coco a R$ 0,10 centavos. Toda a riqueza produzida é subestimada. As forças políticas não colocaram essa riqueza a serviço do desenvolvimento da Bahia, nem do seu povo e quem mais sofre com isso, somos nós os negros, a maioria.
Temos 9,2 milhões de eleitores – 1,5 milhão e meio só em Salvador – uma história de tradição do movimento trabalhista. Contudo a Bahia é muito pobre. Quero inaugurar uma nova forma de fazer política. Sendo eleito, quero ser o senador do povo, vou estar onde a população da Bahia está e inaugurar uma época em que o senador esteja presente no dia a dia.
Afropress – Por que o PV?
João Jorge – É o instrumento em que acredito seja possível viabilizar uma nova alternativa. Meu papel no PV é de dialogar com todas as forças que o Partido tenha uma bancada capaz de interferir no debate nacional. A senadora negra Marina Silva, do Acre, é a novidade nessas eleições para Presidente.
Afropress – Como você pretende mobilizar os setores sociais em torno dessa candidatura, juntando negros e não negros em torno de uma agenda afirmativa?
João Jorge – Quero que o movimento social negro no Brasil inteiro se manifeste. Essa eleição pode se tornar tão simbólica quando a que terminou com o apartheid na África do Sul, claro que ressalvadas as proporções e a história de cada país. A partir de uma mobilização por uma nova Bahia, baseada na defesa de Democracia e no desenvolvimento para todos, podemos e devemos influenciar o Brasil.
Afropress – Como pretende dar forma a esse movimento
João Jorge – Estou andando pelo país. Quero percorrer e conversar com as lideranças negras e anti-racistas. Vou ao Maranhão, Minas Gerais, Rio Grande do Sul. É hora de mudar as condições do nosso povo e da nossa gente, com a eleição de representantes qualificados a promover a democracia e o desenvolvimento. É a oportunidade de testarmos a República no Brasil. Se as pessoas do povo podem ser eleitas e serem gestoras de um projeto político democrático. A possibilidade de eleger afro-brasileiros, mas com capacidade de falar para todos, trazendo o futuro para o presente. O futuro já chegou, mas não chegou para todos. Nós queremos o sol e a sombra para todos, como dizia Bob Marley”.
Afropress – Como pretende fazer isso, sem estrutura nem dinheiro para a campanha?
João Jorge – Estou fazendo um apelo para que os interessados na luta anti-racista se manifestem com a doação de recursos – de R$ 10,00 a R$ 100,00. Vamos abrir uma conta para isso. Sei que uma campanha para o Senado custa de R$ 15 a 16 milhões. Claro que não tenho isso, mas vou usar todas as ferramentas possíveis, inclusive para baixar esse custo. A minha proposta é desencadear um movimento popular. O Estado brasileiro não oferece ao cidadão a possibilidade de participar.
Afropress – Que papel terá o movimento negro nessa campanha?
João Jorge – Esse é o maior desafio da minha vida e do movimento negro nacional. A Bahia é o lugar de racismo mais forte nesse país. É fácil ter um candidato negro ao Senado no Espírito Santo, no Rio de Janeiro, no Rio Grande do Sul. Isso só não tem sido possível na Bahia.
Parece que ainda estamos nas capitanias hereditárias. Desde 1549 a Bahia reproduz as desigualdades. Os baianos tem de dar os primeiros passos, mas todos os brasileiros precisam ajudar nisso.
Afropress – Como é que essa sua idéia de sair candidato a senador foi recebida no Olodum?
João Jorge – A recepção está sendo muito boa. No Olodum, nos Blocos Afros, nas entidades negras de Salvador, como a Steve Biko. Dentro do Olodum há uma alegria muito grande. O Carlinhos Brown ficou muito feliz. Falei também com o Gil, e ele achou a proposta bacana e interessante.
Afropress – O que pretende fazer na viagem aos EUA?
João Jorge – Pretendo viajar no final deste mês. Tenho encontro com lideranças negras como Henry Gates Jr., vou ao Centro Martin Luther King, em Atlanta, e pretendo convidar, por meio da Secretária de Estado, Hilary Clinton, com quem estive em S. Paulo, o presidente Obama a visitar a Escola do Olodum e nos fazer uma visita de cortesia, em agosto, quando está prevista sua vinda ao Brasil.

Da Redacao