Na conversa por telefone com o editor de Afropress, jornalista Dojival Vieira, João Jorge disse que tem um grande respeito pelo compositor Carlinhos Brown e que a manifestação em defesa de sua candidatura ao Governo da Bahia continua repercutindo em toda a parte e só isso já é positivo porque fomenta o debate que precisa ser amplo e ampliado.
As dificuldades, porém, não são poucas, entre elas a falta de dinheiro, a falta de base social e política em todo o Estado e também a candidatura à reeleição do governador Jacques Wagner (PT), que faz uma administração bem avaliada.
Sem militância em Partidos – dos quais mantém-se afastado e independente -, ele considera que é preciso discutir um projeto para qualquer um que queira se habilitar nas eleições de 2010 e 2012. “Não podemos mais só fazer cultura ou bater tambor. Nem tampouco fazer barulho midiático. Eu não sou de Partido nenhum, mas é preciso começar a influenciar a agenda política do país com as nossas propostas que não podem ficar presas a lógica de quem é negro e de quem não é negro”, afirma.
Agenda Pós-Racismo
A proposta de João Jorge e o que ele chama de passo adiante é começar, desde já, a preparar um projeto que inclua todos os negros, para além da discussão do racismo, que envolva toda a população negra brasileira (49,3% da população do país), no debate em torno de políticas públicas, relacionadas a violência, à moradia e aos temas que atingem todo o povo brasileiro branco, preto e pobre.
“Esse discurso que separa preto de branco nos jogada na armadilha do discurso do outro. Agente cai numa gaiola que não tem começo nem fim. Vamos discutir entre nós os efeitos da política econômica, vamos conversar sobre a crise. Precisamos de uma agenda pós-racismo, uma agenda plural. Eu mesmo sou filho de branca com negro. Essa coisa da cor da pele já foi superada lá atrás”, acrescenta.
Falar além do umbigo
Segundo ele, esse passo adiante, a agenda pós-racismo, significa por exemplo, construir um projeto para influenciar a agenda política do país. Além dele próprio, cujo nome foi proposto por Brown, acrescenta o nome do apresentador negro e empresário José de Paula Neto (Netinho, eleito vereador pelo PC do B de S. Paulo) e do rapper MV Bill, lançado pelo compositor Caetano Veloso ao Senado, pelo Rio.
Os dois, respectivamente, por São Paulo e Rio, e mais ele próprio pela Bahia, poderiam ser lançados por esse Projeto ao Senado ou a Deputado Federal, para a partir daí poderem falar para o Brasil. “É preciso avançar porque hoje nós temos parlamentares de pele preta, mas sem nenhum compromisso conosco. É preciso que comecemos a falar para além do nosso umbigo e com uma agenda ampla, inclusiva”, propõe.
Como parte dessa iniciativa, é de opinião de que um movimento desse tipo, que materializa um processo de renovação dos quadros do Movimento Negro Brasileiro, que considera “muito interessante”, não pode ser atropelado pela urgência de lançar candidaturas, que acabariam servindo muito mais para expor e desgastar do que construir alternativas para o futuro. Tanto Netinho quanto Bill não são lideranças oriundas de militância nos vários grupos que se reivindicam do Movimento Negro.
Poder político
Lembra que, no caso da Bahia, não apenas o espaço está interditado pela boa posição do atual
Governador Jacques Wagner, mas também pelo fato de que as duas vagas ao Senado pelo bloco que apoiará a reeleição de Wagner, estão praticamente reservadas ao deputado Walter Pinheiro e a Lídice da Mata, do PSB, o que inviabilizaria sua postulação, ainda mais um ano antes das eleições.
“Um passo adiante é pensar num projeto mais amplo. Por exemplo: uma Secretaria de Desenvolvimento Social, com recursos, com dinheiro para fazer as coisas. Não adianta ficar com Secretarias que não tem dinheiro prá nada. Agora quero ver uma Secretaria com orçamento onde se possa colocar na prática políticas públicas para a população negra e brancos pobres…”
As conversas nessa direção, segundo João Jorge, vão começar e poderão gerar uma primeira posição pública nacional com o lançamento no dia 13 de Maio de um Manifesto ao País com as propostas centrais do Projeto que sintetize o que ele chama de uma Agenda Pós-Racismo. “Ficar olhando prá trás é um trem voltando de onde a gente saiu. Até agora não disputamos poder porque não temos projeto. Nossa saída é disputar o poder político”, conclui.

João Jorge conversou, de Brasília, por telefone, com o editor de Afropress, jornalista Dojival Vieira.