Rio de Janeiro – O documentário Raça, do diretor Joel Zito Araújo, tem pré-estréia nacional prevista para esta quarta-feira (10/10) no Festival de Cinema do Rio. O filme, inédito, tenta captar o debate sobre a identidade racial no país, ao mostrar as estórias de três cidadãos negros que se destacaram pelo trabalho em defesa da igualdade racial: o cantor e empresário Netinho de Paula, vereador reeleito pelo PC do B de S. Paulo, o senador Paulo Paim, do PT do Rio Grande do Sul, e Miúda dos Santos, neta de africanos escravizados e ativista quilombola.
O diretor Joel Zito Araújo (foto) – que dirigiu o documentário em parceria com a norte-americana Megan Mylan – anunciou que, por decisão de ambos, toda a renda obtida com a bilheteria do filme será destinada ao Fundo Baobá, entidade voltada à promoção da equidade racial da população negra brasileira e ao apoio a projetos com esse objetivo. “Vamos tentar manter o filme em cartaz o maior tempo possível e toda a renda que nos caberia será doada ao Fundo Baobá”, explica, Joel Zito, que é um dos membros do Conselho da entidade.
Os três personagens foram escolhidos pelo trabalho que tem desenvolvido em favor da igualdade racial: Netinho pelo projeto da TV da Gente, que não foi adiante; o senador Paulo Paim pela luta em defesa do Estatuto da Igualdade Racial (transformado na Lei 12.288/2010) e Miúda dos Santos, pela luta em defesa dos territórios quilombolas.
Em entrevista concedida à Afropress e que estará no ar nesta quarta-feira, data da pré-estréia, Joel Zito fala da sua expectativa em relação ao filme.
Quem são Joel Zito e Megan Mylan
O cineasta brasileiro Joel Zito Araújo e a documentarista norte-americana Megan Mylan – vencedora do Oscar com o documentário Smile Pinki (2008) – se tornaram amigos em meados da década de 1990, mas foi em 2004 que surgiu a ideia de dirigirem um filme juntos. Fruto dessa parceria, o documentário de longa-metragem “Raça”, coprodução entre Brasil e Estados Unidos.
Para captar o debate racial que se tornou constante na mídia desde o início do século XXI, os diretores decidiram acompanhar de perto, durante cindo anos, três personalidades negras que estão – cada uma a sua maneira – na linha de frente dessa batalha pela igualdade: Paulo Paim, único negro no Senado Federal; Netinho de Paula, cantor, apresentador de TV e empresário; e Miúda dos Santos, neta de escravos e ativista quilombola.
O documentário foi filmado entre os anos de 2005 e 2011. A preocupação dos diretores em examinar o tema de forma ampla se revela por meio de personagens de diferentes regiões do país – Brasília, São Paulo e Espírito Santo – envolvidos em projetos díspares que têm em comum a busca da superação da desigualdade racial.
“A ideia por trás da escolha dos personagens foi mostrar histórias que contemplassem a diversidade de renda e gênero no universo específico da população negra brasileira”, diz Joel Zito.
“Foi um privilégio acompanhar este momento histórico de transformação social no Brasil. Queremos utilizar o poder de cinema, de uma história bem contada, para discutir como um Brasil moderno pode ser um país que valoriza a diversidade e a inclusão”, explica Megan Mylan.
Foram dedicados cerca de três anos para cada personagem. O filme acompanhou os esforços do senador Paulo Paim para fazer aprovar a Lei do “Estatuto da Igualdade Racial” no Congresso Nacional, em Brasília. Autor do projeto original que demorou quase uma década para ser aprovado, Paim se emociona ao discursar no Supremo Tribunal Federal, em um debate tenso: “Eu não quero nada. Só dêem oportunidade para um povo que foi sempre excluído. Só quem é negro sabe o quanto que é difícil essa caminhada”.
O senador ressalta que, apesar de o Brasil ter a segunda maior população negra do mundo e de ter a reputação de harmonia racial, os negros permanecem praticamente ausentes da mídia e da política brasileira.
O documentário apresenta a luta de Miúda dos Santos – neta de africanos escravizados e ativista quilombola – pela posse das terras e pelo respeito às suas tradições ancestrais da Comunidade Quilombola de Linharinho, no Espírito Santo.
Junto com os moradores da região, Miúda briga contra um gigante do ramo da celulose, a empresa Aracruz. “Desde a década de 70 que uma grande plantação de eucalipto tomou todos os territórios. Os quilombolas são povos tradicionais que têm sua cultura, sua religião de matriz africana, danças e comidas típicas. Ficamos confinados”, conta Miúda durante o protesto organizado pela Coordenação Nacional de Articulação das Comunidades Negras Rurais Quilombolas (Conaq).
“Raça” mostra também os bastidores da trajetória do cantor, apresentador e empresário Netinho de Paula durante todo o processo de criação e tentativa de consolidar do seu canal TV da Gente. Fundado em 2005, no interior de São Paulo, o canal formado majoritariamente por profissionais negros foi idealizado por Netinho, que explica, durante uma entrevista, que “a democracia racial no Brasil não existe no campo das comunicações. O país está caminhando para uma mudança e a TV faz parte de uma mudança”, diz o artista.
Sessões do documentário “Raça”:
Festival do Rio / Mostra Première Brasil – Hors Concours
Sábado, dia 06/10, às 20h, no Ponto Cine
Quarta, dia 10/10, às 19h15, no Cine Odeon Petrobras
Quinta, dia 11/10, às 15h e às 19h, no Cine Santa
Sobre os diretores
Megan Mylan – Documentarista norte-americana baseada em Nova York (EUA), Megan já recebeu prêmios como o Academy Award, Independent Spirit e o Guggenheim. Produziu e dirigiu o filme “Smile Pinki”, exibido no canal HBO e ganhador do Oscar. Seu filme “Lost Boys of Sudan” foi exibido em 70 cidades americanas e em rede nacional no programa “POV” da rede PBS, a TV pública americana. Megan trabalhou em documentários para os canais HBO, PBS, Sundance, Showtime e BBC, incluindo o filme “Long Night’s Journey Into Day”, indicado ao Oscar. Antes de trabalhar com cinema, Megan trabalhou no Brasil e nos Estados Unidos com a Ashoka, uma organização filantrópica internacional. Graduada pela Universidade Georgetown, Megan obteve o título de mestre em Jornalismo e Estudos Latino-Americanos pela Universidade da Califórnia em Berkeley (EUA), onde também foi professora-visitante na faculdade de jornalismo.
Joel Zito Araújo – Premiado cineasta brasileiro, há vinte anos produz documentários e filmes de ficção sobre temas sociais relevantes para o país, especialmente aqueles ligados à população afro-brasileira. O longa-metragem de documentário “Cinderelas, Lobos e um Príncipe Encantado”, sobre o turismo sexual no país, foi exibido no Brasil e no exterior. Seu documentário “A Negação do Brasil”, sobre a participação de atores negros em novelas, ganhou o prêmio de melhor documentário no festival É Tudo Verdade.
O longa-metragem de ficção “Filhas do Vento” reuniu o maior elenco negro da história do cinema brasileiro e ganhou oito kikitos no Festival de Gramado, além de ter sido o filme vencedor do Festival de Tiradentes. Joel escreve extensamente sobre a mídia e a questão racial no país e foi bolsista da Fundação MacArthur. Joel é PhD em Comunicação pela Universidade de São Paulo (USP) e foi professor-visitante na Universidade do Texas, em Austin (EUA).
O que é o Fundo Baobá
Criado em 2011 e com sede em Recife (PE), o Fundo Baobá para Equidade Racial é uma organização sem fins lucrativos e tem como objetivo mobilizar pessoas e recursos no Brasil e no exterior para apoiar projetos pró-equidade racial de organizações da sociedade civil (OSCs) afro-brasileiras.
O Fundo Baobá também promove uma agenda para estimular a filantropia para a justiça social no país, baseada nos princípios de efetividade, transparência e ética. A Fundação Ford e a Fundação Kellogg são as duas mantenedoras da entidade. A Fundação Tides, o Synergos e o Africare também são parceiros do Fundo Baobá.
A ideia que deu origem ao Fundo Baobá surge em 2008 com a decisão da Fundação Kellogg em deixar o Brasil até 2012. Intelectuais e ativistas afro-brasileiros foram convidados pela Fundação para discutir alternativas para a sustentabilidade das OSCs afro-brasileiras e a criação de um legado, a ser deixado pela Fundação, para apoiar o trabalho destas organizações no país.
O Fundo Baobá fez sua primeira doação em setembro deste ano ao Centro de Estudos das Relações de Trabalho e Desigualdades (Ceert) para ampliar os impactos do prêmio “Educar para a Igualdade Racial”, uma iniciativa que valoriza professores que incentivam o ensino da história e cultura afro-brasileira e da África nas escolas públicas e privadas. O Fundo Baobá também atua junto à Rede de Fundos Independentes, uma coalisão de organizações doadoras brasileiras cujo objetivo é consolidar, ampliar os impactos e promover a atuação dessas organizações no Brasil.
Ainda em 2012, o Fundo Baobá lançará seu primeiro edital público para financiamento de pequenos projetos voltados para a promoção da equidade racial. Para essas iniciativas, serão destinados R$ 200 mil.

Da Redacao