Rio de Janeiro – O cineasta Joel Zito Araújo, diretor do “Filhas do Vento”, filme premiado em Gramado e que será lançado no mês que vem em Belo Horizonte, (dia 09/09), e São Paulo e Rio de Janeiro, (dia 16/09), disse que o filme pode representar “um marco de um novo cinema sobre o negro no Brasil”. “Se ele for abraçado como militância, poderemos fazer história. Estou esperançoso”, acrescentou.
Na entrevista exclusiva que concedeu à Afropress Joel Zito falou do filme, das dificuldades enfrentadas para botá-lo em cartaz com um orçamento extremamente reduzido, dos novos diretores e atores negros que estão despontando e se disse esperançoso ao falar da necessidade de lideranças negras capazes de pensar o Brasil como um país multirracial “que é racista não somente contra nós, mas contra índios, ciganos e outros”.
“A maioria de nós, líderes somos tímidos e pensamos para dentro. Muitos de nós somos destruídos por rancores e amarguras, justificadas, mas que não ajudam a dar um passo à frente. Temos que impulsionar intelectuais que enfatizem as necessidades do povo negro e, ao mesmo tempo, busquem discutir com a sociedade brasileira como um todo sem esquecer o seu lugar de intelectuais negros que foram vê-lo, estou esperançoso”.
Veja, a seguir, na íntegra a entrevista:
Afropress – Quais foram às dificuldades que você enfrentou até aqui para lançar o filme em circuito comercial?
Joel Zito Araújo – As maiores dificuldades que encontrei foram de ordem econômica. Tenho uma longa carreira como documentarista, e todo o meu trabalho autoral é em torno da questão racial e voltado para a promoção da identidade dos afro-brasileiros. Enfatizar uma visão diferente do país, contrariando a idéia ultrapassada de que somos um país miscigenado que superou o problema racial, não gera boa impressão. Creio que a minha carreira, principalmente porque bato muito na denúncia da ideologia do branqueamento como valor estético fundamental da indústria audiovisual brasileira, gerou desconfianças quando comecei a captar recursos para realizar FILHAS DO VENTO. Os patrocinadores, mesmo aqueles de empresas estatais, não gostam de colocar dinheiro em trabalhos que enfatizam a denúncia da discriminação racial que ainda contamina as relações sociais, econômicas, culturais e afetivas no Brasil. Eles estão mais propensos a apoiar trabalhos sobre a cultura negra lights. E o sucesso do meu trabalho anterior, A NEGAÇÃO DO BRASIL, confirmou a suspeita de que eu estava com um projeto para mexer no nosso maior tabu. No entanto, se a minha carreira gerou desconfianças e dificuldades, gerou também admiração e apoio. Muita gente queria trabalhar comigo, muita gente apóia minhas idéias e gostam dos meus filmes e vídeos. Portanto, em outros campos, só vi portas abertas.
Afropress – O lançamento acontecerá simultaneamente em todas as capitais? Quais?
Joel Zito – Infelizmente, não temos recursos para colocar o filme em todas capitais na fase de lançamento. O nosso lançamento é modesto, semelhantes aos outros filmes brasileiros independentes, como CABRA CEGA, BENDITO O FRUTO e outros. Sairemos com 15 copias em 3 capitais (Começamos dia 09 em Belo Horizonte, e dia 16 em São Paulo e no Rio de Janeiro). Depois vamos para Salvador, Porto Alegre, Brasilia…
Afropress – – Qual o custo do filme?
Joel Zito – O custo justifica nossa estratégia de lançamento. Realizamos o filme com um milhão e trezentos mil reais. O custo médio de um filme no Brasil é de 3 milhões de reais. Gastaremos cerca de 280 mil reais no lançamento. O custo total ultrapassará levemente um milhão e meio. A nossa realidade, portanto, é muito diferente de um filme brasileiro lançado por uma major norte-americana com um, dois ou três milhões de reais apenas para publicidade (como Cidade de Deus, Carandiru e outros). Corremos o risco de muita gente não ter notícias de que o filme existe e está sendo exibido nos cinemas. Portanto, temos de queimar bastante a nossa massa cerebral para aproveitar ao máximo o pouco que temos. Por outro lado, o apoio dos amigos, dos admiradores, dos parceiros, dos companheiros para dar visibilidade ao filme é o que fará a diferença. Eu acho que o meu filme pode tornar-se um marco de um novo cinema sobre o negro no Brasil se o movimento negro abraçar a causa e apoiá-lo ostensivamente. Se ele for abraçado como militância, poderemos fazer história. Portanto, considerando o impacto que ele causou em todos os militantes que foram vê-lo, estou esperançoso.
Afropress – Que balanço você faz do cinema negro no Brasil? Quais os nomes que você destacaria como promessas?
Joel Zito – Nós ainda não temos um cinema negro no Brasil, temos tentativas que começaram muito antes de mim. Tivemos até o ano 70 filmes dirigidos por negros, mas com pouca ênfase na questão racial. Acho que o Zózimo Bulbul deu a virada no início dos anos 80, enfatizando um cinema negro. Mas foram alguns documentários e curtas que tiveram pouca repercussão, apesar de sua batalha. Portanto, temos uma história de tentativas. Mas acho que estamos no ponto da mutação. O meu filme sai agora com 8 kikitos em Gramado – um fato inédito. E muitos outros virão, dois novos cineastas negros, Jefferson De e Rogério Moura, que são promessas, estão preparando os seus primeiros longas que devem ser lançados no próximo ano. E grandes atores buscam realizar os seus longas, como o Milton Gonçalves, Jorge Coutinho, Antonio Pompeo… Portanto, se sucesso de público do meu filme, se o povo negro for ao cinema para conferir, várias portas podem se abrir para um cinema negro no Brasil.
Afropress — Que avanços são possíveis registrar hoje, com relação à visibilidade do negro na mídia, em relação aos tempos em que a TV pintava brancos (Sérgio Cardoso, em A Cabana do Pai Tomás) para fazer papel de negro?
Joel Zito – Desde os anos setenta como o MNU, o movimento negro gerou vitórias em várias áreas e formou simpatizantes e militantes na área cultural. Hoje temos um movimento muito mais forte, organizado e presente em vários setores da sociedade brasileira do que no tempo de A Cabana do Pai Tomás. E estamos na ofensiva. Esse crescimento da nossa força e da nossa consciência irradia pela sociedade e pela cultura brasileira. E, obviamente, provoca mudanças na própria mídia. No entanto, este território (a mídia) é ainda uma torre em que está encastelada uma gente criativa, mas viciada em repetir as formulas de sucesso do passado, com uma visão racialmente equivocada. Temos muito ainda que conquistar.
Afropress – Como militante e ativista da Causa, que balanço você faz do Movimento Negro Brasileiro e do avanço da Causa Anti-Racista? Você não acha que ainda estamos carentes de lideranças com visibilidade nacional, capazes de assumir como tarefa a construção de uma agenda nacional que unifique os 80 milhões de afro descendentes?
Joel Zito – Acho. A maioria de nós, líderes somos tímidos e pensamos para dentro. Muitos de nós somos destruídos por rancores e amarguras (justificadas, mas que não ajudam dar um passo à frente). Temos que pensar o Brasil como um todo – como um país multirracial que é racista não somente contra nós, mas contra índios, ciganos e outros. Temos que ser propositivos e buscar ocupar postos de comando e nos tornamos líderes nas instituições de poder (empresas privadas e públicas, além dos governos). Temos de impulsionar empresários negros comprometidos com o povo negro. Temos que impulsionar intelectuais que enfatizem as necessidades do povo negro e, ao mesmo tempo, busquem discutir com a sociedade brasileira como um todo sem esquecer o seu lugar de intelectuais negros.
Afropress – Quem são os atores negros que você destaca no cinema e na Televisão?
Joel Zito – São muitos, começaria por todos aqueles que participaram de FILHAS DO VENTO. Ruth de Souza, Milton Gonçalves, Léa Garcia, Tais Araújo, Maria Ceiça, Thalma de Freitas, Rocco Pitanga, Danielle Ornelas. Mas, não poderia esquecer de Zezé Motta, do Lazaro Ramos, da Isabel Fillardis, do Antonio Pompeo e de tantos outros que não caberia nesta folha. Peço perdão a todos por não cita-los.
Afropress – – Como você encara a recente polêmica envolvendo personagens negros e indígenas na novela da Globo, escrita e dirigida pelo Miguel Falabela “A Lua me disse”?
Joel Zito – Quem leu o meu livro A Negação do Brasil sabe muito bem o que penso. Em síntese, uma vergonha! Uma lástima!

Da Redacao