Manhattan, Nova York – Em 1963, com apenas 23 anos, John Lewis já era um veterano na luta pelos direitos civis dos negros norte-americanos, ao chegar em Washington para discursar nos degraus do Lincoln Memorial. Seu grito de urgência “Nós queremos nossa liberdade, e a queremos agora” foi ofuscado pela oratória do pastor Martin Luther King com seu legendário “I have a dream” (Eu tenho um sonho).

Mas isso não diminuiu a força das palavras de Lewis. Em 1965, dois anos depois, ele estava novamente em Washington, só que desta vez testemunhando a assinatura da Lei pelo direito dos votos aos afroamericanos (Voting Rights Act of 1965) assinada pelo então presidente Lyndon B. Johnson na presença de Martin Luther King. Detalhe: o jovem Jonh Lewis  ainda guardava na memória a passeata de Selma onde os manifestantes foram atacados pela tropa de choque da Polícia e apanhou tanto que, por pouco, não ficou desacordado.

O septuagenário John Lewis é o único sobrevivente do grupo que discursou no calorento dia 24 de agosto de 1.963. Como atual representante do Estado da Georgia em um Congresso dividido em diferentes posições políticas, ele ainda segue lutando com todas suas energias por um país mais igualitário e em que os negros vejam seus direitos respeitados.

Para aqueles que perguntam como a eleição do primeiro presidente norte-americano negro, Barack Obama, foi possível e se o país teria deixado para trás seu passado racista, Lewis  diz em entrevistas que a eleição de Obama foi só "o pagamento da entrada". “Ainda existe muita dor, muita gente machucada nos EUA”, disse do seu escritório, que mais parece a sala de um museu com fotos em preto e branco dos ícones do movimento pelos direitos civis.

Seu reconhecimento e tão grande nos EUA que ele foi tema de uma revista em quadrinhos chamada “March” (Marcha) contando suas experiências como parte da turma de jovens conhecida como “Freedom Riders” (trad livre – Viajantes da Liberdade) que saíam da parte leste do país para registrar os negros a votarem nos grotões racistas do sul. A revista foi inspirada numa edição antiga sobre o pastor Martin Luther King, jr. feita em 1958.

Numa recente convenção da “Liga Urbana” (Urban League em inglês) na cidade de Filadéllfia (Leste,) ele parecia aquele jovem de 50 anos atrás cuspindo fogo com sua retórica, enquanto explicava para a enorme platéia que o acompanhava atentamente como seus pais reagiram quando ele perguntou a eles sobre as placas “somente para pessoas de cor” nas remotas regiões do sul do pais.

“Eles diziam: "É desse jeito meu filho, não mexa com isso, não arrume encrenca", disse Lewis com sua voz poderosa mais parecendo um pastor batista. “Porém, um dia eu fui inspirado a me meter, a me encrencar. E por mais de 50 anos, eu tenho entrado naquilo que eu chamo uma boa encrenca, uma encrenca necessária. Está na hora de todos nós entrarmos nesta encrenca novamente!”, afirmou numa alusão às manifestações que se seguiram por todo o país logo após o veredito absolvendo o vigia George Zimmerman, o assassino do adolescente Trayvon Martin.

Na convenção em Filadélfia, um panteão de líderes do movimento civil, entre eles o pastor Jesse Jackson e o pastor Al Sharpton se misturaram nos bastidores atrás do palco, mas todos os olhos estavam sobre Lewis. Trabalhadores pediam fotos, Benjamim Crump, o advogado da famíla do pastor Martin Luther King Jr., segurava uma cópia da revistinha “March” esperando ser autografada. Estranhos com lágrimas nos olhos imploravam por um abraço.

Foi realmente um longo caminho para um menino filho de meieiros de uma suja cidadezinha chamada Troy no Alabama. Lewis era apenas mais uma das 10 crianças ajudando a colher algodão e pregando o evangelho às galinhas a sua volta. Sua vida deu uma guinada quando, aos 18 anos, escreveu a King. Estudava num seminário Batista em Nashville no Tennessee, mas estava pensando mesmo era como integrar alunos negros e brancos na faculdade de sua cidade, chamada Troy State, hoje Universidade Troy.  O jovem Pastor Martin Luther King Jr. enviou a passagem de ônibus para Lewis para encontrá-lo na vizinha cidade de Montgomery.

Nestes 50 anos o país mudou, mas não o suficiente para que este senhor saia de cena. Ele continua naquilo que os norte-americanos chamam aqui de "good fight ", uma boa briga na tradução livre para o português.

Viva Nova York

Por dois meses no começo deste ano, a galleria Gagosian, localizada na rua das galerias no número 555 West 24th Street, em Manhattan, apresentou uma mostra com mais de 50 trabalhos do artista Jean-Michel Basquita (1960-1988).

Basquiat, como era chamado, morava com a família no bairro do Brooklyn, porém, aos 15 anos deixou o conforto do lar para viver nas ruas da Big Apple. Autodidata com um apetite voraz para o aprendizado, o jovem Basquiat tornou-se rapidamente conhecido no mundo cultural explosivo e decadente da cidade . Um admirador do Jazz, e poeta de rua que rabiscava com  um marcador seus poemas na parte baixa da ilha de Manhattan deixando nos seus trabalhos sua marca registrada SAMO.

Em 1981 ele abandonou tudo isso e começou a pintar em matérias que resgatava e depois em telas fazendo colagens com materiais que recolhia das ruas de Nova York. Desde o início começou a pintar compulsivamente. Vendeu seu primeiro trabalho em 1981 aos 21 anos. Um anos depois a demanda pela sua arte era enorme. Ele comecou o movimento Novo Expressionismo.  Em 1985 foi capa de um elogioso artigo na conceituada revista cultural que acompanha o The New York Times aos domingos ligando sua arte com o novo e exuberante mercado de arte internacional.

Foi um precedente para um artista afro-americano e tão jovem. Na foto de capa da revista, o jovem Basquiat se deixa mostrar de forma cool, esparramado numa cadeira em frente de uma de suas pinturas, vestido num elegante terno com colete e uma gravata usando dreadlocks e descalço.

A exposição mostra a meteórica, mas curta carreira que terminou prematuramente com sua morte aos 27 anos. Oito anos depois de uma grande retrospectiva apresentada pelo Museu do Brooklyn, os visitantes tiveram a chance de observar o papel central que este jovem artista teve na sua geração e como tornou-se tambem uma inspiração, e uma ponte entre culturas diversas.

Viva Nova York II

Numa das saídas do Metrô novaiorquino, mais precisamente na Sexta Avenida, atrás da Biblioteca Municipal, onde está localizado o Parque Bryant, está a disposicao dos passageiros e tambem admiradores da atriz Marilyn Monroe cinco painéis de fotografias em preto e branco tiradas enquanto ela filmava “O Pecado Mora ao Lado”. Nesta série está a famosa cena em que o vento da tubulação do Metrô na Rua 59 com a Avenida Lexington levanta o vestido da atriz. O vestido desta cena foi vendido em 2011 pela bagatela de mais de US$ 5 milhões.

Há tambem fotos de Marilyn lendo um jornal, observando a vitrine de alguma loja na 5ª avenida, olhando para o seu marido, o dramaturgo Arthur Miller, comendo um hot dog ao lado de novaiorquinos, sentada num dos botes do Central Park, e ascenando de dentro do carro para algum fã. Estas fotos foram tiradas pelo fotógrafo Sam Shaw e fazem parte da campanha cultural do Metrô.

 

 

 

Edson Cadette