Porto Alegre“Usos da Internet nos Movimentos Sociais Negros em Rede na Luta pela Igualdade Racial no Brasil: Estudo de caso da Agência Afropress”, foi o tema da tese de doutorado da jornalista gaúcha Leslie Sedrez Chaves, 32 anos, do Programa de Pós-Graduação de Comunicação da Universidade do Rio dos Sinos (Unisinos), de Porto Alegre.

O trabalho aprovado por uma banca presidida pela professora Adriana Amaral, do Programa de Pós-Graduação em Ciências da Comunicação da Unisinos, e constituída pelos professores Paulo Zarth, Ronaldo Henn, Liliane Brignol  e Laura López, em maio deste ano, foi o tema da TV Unisinos desta semana no Programa Idéias em Tese (http://youtu.be/nwSELhOc3yk?list=PLkdJ9gZlZDonM-UgG5PVofj_jp839ukacapresesentada pela jornalista Vanessa Ióris.

Para concluir a tese, Leslie, que teve como orientadora a professora Denise Cogo, levou os quatro anos do curso, fez viagens a S. Paulo onde visitou a redação da Afropress e entrevistou jornalistas e colaboradores que integram a rede da Agência. Durante o curso, ela ganhou Bolsa da CAPES e permaneceu por seis meses em Madrid, na Espanha, na Universidade Rey Juan Carlos, sob a orientação do professor José Carlos Sendín Gutiérrez, responsável pela cátedra que estuda Comunicação e África – a Cátedra AFRI-COM -, também sob a regência da Unesco. 

A jornalista, agora doutora em Comunicação, afirma na entrevista ao editor da Afropress, jornalista Dojival Vieira, que, embora a cara da Universidade no Brasil esteja mudando, nos cursos de mestrado e doutorado, a presença negra ainda é rara. “A Universidade está mudando aos poucos, mas ainda dentro dessa área de pesquisa, as assimetrias ainda se manifestam com muita força. Na minha turma de 10, só tinha eu e mais uma colega”, afirmou.

Também na entrevista ela falou da experiência no doutorado, das conclusões a que chegou ao pesquisar a Afropress, da permanência e dos contatos com o grupo de mulheres africanas da Fundación Mujeres por África, em Madrid, das diferenças e das modalidade de racismo na Europa e como o Brasil pode contribuir na luta contra o racismo e pela igualdade.

“Comparado a outros países, como a Espanha, por exemplo, que foi a experiência que pude ver mais de perto, acho que o Brasil tem mais facilidade de tratar com essas diferenças. Nesse ponto a experiência do Brasil nessa luta contra o racismo, nesse embate nas relações raciais, o Brasil consegue tratar melhor”, sublinhou.

Veja, na íntegra, a entrevista da professora e doutora Leslie Chaves ao editor de Afropress.

Afropress – Leslie, como é surgiu o teu interesse pela Afropress como objeto de estudo que resultou nessa tese agora aprovada pela banca da Unisinos e que consagrou teu trabalho agora como doutora, tendo como objeto de estudo o trabalho e a experiência da afropress?

Leslie Sedrez Chaves – Os temas em relação a negritude, e sobre o racismo, em geral, as relações raciais no Brasil, sempre me interessaram, desde a Graduação, desde que me formei em jornalismo já me interessava esse tema, foi o tema do meu TCC. Depois no mestrado continuei com esse mesmo interesse, trabalhei temas relacionados com isso, e no doutorado não podia ser diferente. Eu queria continuar nessa linha investigar mais sobre esse tema que é tão sério e que no Brasil as relações raciais não são bem resolvidas no nosso país.

Então, através de pesquisa minha idéia no início quando entrei no doutorado, o projeto que entrei era relacionado ao Estatuto da Igualdade Racial. Eu queria pesquisar e entender se o debate midiático influenciava de alguma forma nas decisões governamentais sobre o Estatuto da Igualdade Racial. Se tinha alguma relevância no debate feito pelas autoridades sobre esse tema. Se o debate midiático influenciava.

Orientada pela professor Denise Cogo e no decorrer do curso tendo contato com outras experiências, enfim, com outros artigos científicos relacionados com o tema da negritude e a mídia e a comunicação, eu tive contato com a experiência da Afropress.

Então, através de uma pesquisa realizada pela professora Denise Cogo e pela colega Sátira Machado que terminou o doutorado no final do ano passado e também já pesquisa há muitos anos esse tema, é militante do movimento negro, então, ela tem um conhecimento muito vasto sobre o assunto.

E elas fizeram uma pesquisa mapeando os espaços da Internet, onde o movimento negro atuava, onde tinham os principais sites e iniciativas. Além da Afropress, várias outras iniciativas foram citadas, outros portais de comunicação. E entre todas essas a experiência da Afropress me interessou por essa diferença que tinha em relação às outras.

Por se preocupar com essa questão do fluxo de comunicação, do fluxo informacional maior, porque essa idéia de entrar em outros meios e tratar dessa discussão não só no meio do movimento negro  mas no meio mais abrangente, mostrando que o racismo é um problema de todos, é uma questão relacional, não existe racismo só entre os negros, precisa haver a outra parte, é uma relação social, então deve ser discutida com todos. Então, eu sempre pensei nesse sentido e encontrei um discurso com que me identificou dentro desse debate e comecei a investigar mais. Me interessou muito a experiência.

Afropress – Você diria que esse é um traço que diferencia a Afropress de outras mídias, inclusive, de mídias que tratam do racismo e da desigualdade racial, de se reportar a todos, a sociedade como um todo e não apenas a nós negros? Esse seria um traço da Afropress que provocou o teu interesse?

Leslie – Esse foi uma das coisas que no início me interessou muito e eu fui investigar mais prá saber se realmente era dessa forma e como é que  a Afropress trabalhava a comunicação e foi uma das coisas que se afirmou, que é esse diferencial da Afropress se preocupar em criar um fluxo de informação. Quando eu falo em fluxo eu digo que é o espaço onde eu possa criar um canal de comunicação para pautar outras mídias, e pensar num sistema de retroalimentação. É o que descobri, que a Afropress pauta outros meios, às vezes se utiliza desses meios também para se pautar.

Então há uma troca, uma circulação de informações que acabam indo por diversos canais, pela mídia hegemônica, ou pelas mídias alternativas, pela mídias do movimento negro, então circula em diversos espaços. Não fica restrito a um espaço, você tem acesso a informação pelo site da Afropress, mas também essa informação circula em outros canais, não só no site. Então, isso foi um diferencial.

Afropress – Quanto tempo demorou a pesquisa e quais as principais dificuldades que você encontrou?

Leslie – Cerca de quatro anos, porque o doutorado a duração é quatro anos, mas quando a gente entra no curso, no primeiro ano a gente delineia melhor o objeto de pesquisa, o projeto todo em si. Então eu entrei com outro projeto, e a partir do segundo semestre é que fui ver melhor como poderia tratar desse tema que me interessava de uma maneira mais concreta, e aí que eu tomei contato com a experiência da Afropress. Então, foi mais ou menos quatro anos pesquisando direto sobre o tema.

Em relação as dificuldades em trabalhar esse tema, especificamente no meu caso, por ser uma pesquisadora negra, que se identifica como uma pesquisadora negra, sempre há uma certa cobrança. Eu como pesquisadora negra trabalhar um tema que me envolve diretamente, porque eu sou negra. E apesar de Academia ter evoluído muito nesse sentido, sobre essa questão da neutralidade da ciência hoje, todo mundo sabe que não existe ciência neutra, existe uma ciência que tem um lado, que tem um objetivo de pesquisa, e que quer dizer alguma coisa com a sua pesquisa e no meu trabalho eu faço isso. Deixo isso claro de que ponto de vista eu estou vendo, estou examinando essa experiência. Essa foi uma das dificuldades, porque apesar de ter havido uma evolução, sempre há uma cobrança nesse sentido.

Ainda bem que, uma outra dificuldade que é trabalhar o tema do racismo na Academia, na Unisinos não encontrei problemas em relação a isso. Então, consegui, através da professora Denise, ver o tema bem recebido, que interessava a ela. Em outros momentos já tive essa dificuldade. Seja pelo interesse sobre o tema, seja a dificuldade dos professores de orientar o tema sobre o qual eles não tinham conhecimento, não tinham trabalhado anteriormente. Mas na Unisinos não tive esse problema, porque tive orientação da professora Denise, que se interessava pelo assunto e tentou buscar subsídios sobre isso e se abriu para aprender também com a experiência. Então, foi gratificante. Tive mais acertos.

Enfim, as diciuldades normais no caminho de estudante. Quem já passou por um curso desses, sabe da dificuldade que é de levar a pesquisa adiante, mas isso é uma coisa que não faz parte só da minha pesquisa, mas de todos que entram nessa área acadêmica.

Afropress – Dentro do seu trabalho de pesquisa você ganhou, inclusive, uma bolsa da CAPES para ir à Espanha.

Leslie – Eu, na verdade, sou bolsista pela CAPES no curso de doutorado. Tive o meu curso pago pela CAPES, financiado pela CAPES, daí por isso a minha preocupação de tratar de um tema que trouxesse um retorno prá sociedade. Eu acho que gente como estudante já tem esse dever, como pesquisador, de tratar de um tema que fale de problemas sociais, que dê alguma resposta prá sociedade. E se essa pesquisa é financiada com dinheiro público eu acho que a gente tem uma obrigação ainda maior de tratar de temas que interessem a sociedade, que busquem soluções para problemas da sociedade, pelo menos o entendimento sobre esses problemas. 

E ainda dentro desse período tive a satisfação de receber uma Bolsa de Doutorado, Doutorado Sandwich, a ser realizado em Madri durante seis meses. Para receber essa Bolsa tive que fazer um projeto sobre a Afropress, a pesquisa que estava desenvolvendo, esse projeto foi avaliado dentro da Unisinos por uma comissão de professores e alunos, foi para outras universidades para ser avaliado, uma comissão externa que também avalia, para saber se a pesquisa era pertinente, para depois a CAPES aprovar ou não esse financiamento.

Então eu conquistei essa Bolsa para ir para Madrid e ficar durante seis meses estudando na Universidade Rey Juan CarloS, sob a orientação do professor José Carlos Sendin, que é um professor que trabalha sobre a África, um estudioso da Africa, jornalista também, doutor em Comunicação e ele trabalha a relação entre a África e os meios de comunicação. Fiquei estudando dentro de um Cátedra que é presidida por ele, Cátedra ÁFRICA-COM, que é de estudos de Comunicação e África, está sob regência também da Unesco como diversas outras cátedras de estudos que tem sobre temas diversos. Essa sobre comunciação e África está na Universidade Rey Juan Carlos e está sob esse guarda chuva da Unesco.

Afropress – E como é que foi a tua experiência durante esses seis meses. Você já tinha saído do país?

Leslie – Nunca tinha saído do país, nunca tive condições financeiras, não faltava vontade, mas nunca tive condições financeiras para ter uma experiência dessas. E consegui por meio do curso de Doutorado com o financiamento da CAPES. Mas, foi uma experiência fantástica tanto de cunho acadêmico, quanto pessoal.

Eu pude ver muitos aspectos culturais, mesmo relacionados ao Brasil e a Europa, como é que o Brasil é visto lá fora. E especificamente sobre o tema que fui pesquisar, sobre essa questão acadêmica, então foi muito interessante.

A perspectiva deles em relação a África, em relação ao Brasil, pude perceber que o Brasil está muito avançado nos estudos sobre a negritude. Por exemplo, essa questão do estudo do livro didático, a Lei que a gente tem aqui que obriga o ensino da África e a cultura afro-brasileira nas escolas, é uma evolução em relação a Europa e outros países, especificamente Madrid, não existe isso lá e a gente está um passo a frente nisso.

Fora a experiência de encontrar a comunidade africana que vive na Europa, vive em Madrid e revê aquelas pessoas… Como eu falei na banca, a gente constrói uma memória afetiva, que não é uma memória vivida, é uma memória afetiva. Eu sou brasileira, não sou africana, nunca estive na África mas no momento em que cheguei e tomei contato com essas pessoas que vieram da África, tomei contato com sua indumentária, com sua cultura, sua língua eu me emocionei muito com esse contato. E uma memória afetiva que a gente constrói e a gente se inclui nesse espaço. Apesar de não saber de que lugar da África vieram meus ancestrais, eu sei que eles vieram de lá, então me sinto parte dessa comunidade e foi muito emocionante.

Afropress – Interessante. Essa memória afetiva ela permanece viva por séculos, não é? Ela nunca morre, ela é uma identidade permanente.

Leslie – Eu me emocionei muito. Eu participei de um evento de uma Fundação, lá muito bonita, que é a Fundacióno Mujeres por Africa e as mulheres se reúnem para discutir sobre essa questão da imigração africana na Europa, principalmente Madrid, trabalhar esses temas, as dificuldades, os preconceitos que as pessoas sofrem, a questão da indumentária, porque elas andam com  as pessoas com as roupas típicas africanas, a questão religiosa porque muitos são muçulmanos então sofrem discriminação por isso, fora a xenofobia. Então, elas fazem reunião, e trabalham os temas e todos vão a caráter com suas roupas que para eles são cotidianas, e nesses momentos tem apresentações culturais, a música é uma coisa muito presente na cultura africana de maneira, geral, então tem outras manifestações culturais, então fiquei muito emocionada naquele momento, eu filmei, eu tirei fotos, em ver, mesmo sem nunca ter estado na africa, sem saber de que país eu sou descendente, me emocionei como se estivesse vendo meus ancestrais naquele momento.

Prá mim tocou no coração e a recepção deles também comigo, de conversar, de abraçar, porque estava muito emocionada. Eles tiveram essa mesma receptividade comigo: “Ah, você é negra também, é do nosso grupo". Eu era totalmente diferente deles, na aparência.

Afropress – É um sentimento de pertencimento, não é?

Leslie – Muito forte.

Afropress – Foram seis meses, o que você pôde notar que distingue a forma como o europeu, particularmente, o espanhol, vê a questão do racismo, da desigualdade, da nossa aqui? O que distingue um europeu racista, ou xenófobo, de um brasileiro, de um sul-americano racista? Dá prá caracterizar isso de alguma forma?

Leslie – A questão das relações raciais no Brasil, prá mim, é muito específica no nosso país, porque o nosso país é extremamente miscigenado e, neste caso das relações raciais, não são bem resolvidas. Porque há essa mistura, a miscigenação e também essa tentativa de separar, de excluir. E aí se torna difícil, porque todo mundo, diria que a maioria da população, tem um pouco do negro no seu sangue e aqui no Brasil a gente faz essa distinção também pela aparência física das pessoas. Nossa sociedade, não ficou birracial, ela é multirracial. Há diversas maneiras de ser negro no nosso país. E há essa confusão entre a miscigenação e esse discurso racista.

Já lá, pelo menos em Madrid, onde eu vi, há uma distinção muito grande porque essa miscigenação é bem menor. Ela é mais recente. Existem casamentos interraciais, agente percebe, mas é bem menos que no Brasil em que isso faz parte da formação da nossa sociedade. No caso deles lá não, é uma sociedade mais birracial, se separa mais claramente negros de brancos. A maioria é branca, quando se enxerga o negro já se imagina que ele é de um outro lugar, um outro país. 

Afropress – Está associado imediamente ao estrangeiro…

Leslie – Isso. Há o discurso da xenofobia juntos. A gente percebe o racismo e a xenofogia, mas o racismo é muito forte lá, a gente tem acompanhado a questões do futebol, mas or acismo se mistura muito com a xenofogia, mas não só com a questão do negro, mas o latino em geral, sofre muito, não só o negro africano como os latinos. Já há um lugar enviesado para latinos e negros africanos. Mas, como disseram as africanas desse encontro que eu fui nessa Fundação, muitas sofreram preconceitos e os espanhóis, diziam: “saiam daqui, vocês não tem de estar aqui no nosso país, voltem para o país de vocês”.

E uma delas, disse: “mas o mundo é de Deus, e a gente tem o direito de estar em qualquer lugar do mundo, nós temos o direito de povoar esse mundo, não é de A ou de B, é de todos”. Então elas lutavam pelo direito de estar onde elas quisessem.

Afropress – Pela experiência que você viveu, na tua avaliação, o que a luta pela igualdade e contra o racismo no Brasil, o que podemos contribuir nessa luta mais global, contra o racismo, seja ele ou não associado a xenofobia? Um país como o nosso pluriétnico, pluricultural, plurracial, o que pode ensinar, o que pode ser útil para o combate ao racismo na Europa, por exemplo?

Leslie – Eu acho que justamente esse traço nosso dessa pluralidade que existe em geral no nosso país – cultural, racial – essa diferença acho que é fundamental, porque o Brasil por mais que seja racista, que exista o racismo velado, ainda a gente precisa melhorar muito no nosso país, o povo brasileiro tem mais facilidade de lidar com a diferença. Comparado a outros países, como a Espanha, por exemplo, que foi a experiência que pude ver mais de perto, acho que o Brasil tem mais facilidade de tratar com essas diferenças, de conviver, porque é uma coisa que faz parte, apesar de ainda existir um estranhamento, com essa questão das diferenças e do racismo, ainda assim o Brasil está mais preparado para ter esse contato com a diferença.

Ainda que ela seja negada aqui no Brasil, mas ela é cotidiana, faz parte da nossa cultura essas diferenças. E lá já causa um certo estranhamento, um estranhamento maior, a questão da diferença, esse grupo que tem outra cultura, outra aparência, usam outras roupas, acho que eles tem mais dificuldade de tratar com isso. Nesse ponto a experiência do Brasil nessa luta contra o racismo, nesse embate nas relações raciais, o Brasil consegue tratar melhor.

Afropress – Nós tendemos no Brasil, a reproduzir ou mimetizar as formas de luta. O Movimento Negro brasileiro mimetiza muito as formas de luta do movimento negro norte-americano, no que eu identifico como equívoco. Na medida, inclusive, em que a forma como o racismo se manifestou nos EUA, o racismo de segregação, o racismo de origem e não de marca, como falava Oraci Nogueira, quando falava do racismo brasileiro. Na verdade, nós temos possibilidades de construir estratégias de luta e de combate ao racismo que são únicas, na verdade no mundo, que se diferenciam tanto do racismo nos Estados Unidos, como nesse aspecto que você coloca da dificuldade do europeu de encarar o outro, não o vendo como estrangeiro, mas o vendo como um igual diferente.

Leslie – Eu acho que a gente tem de usar dessas formas, dessas diferenças no nosso país, e da nossa cultura para conseguir fazer um debate mais efetivo em relação ao racismo e trazer a responsabilidade de todos. Nesse sentido acho que a gente peca ainda no Brasil é relacionado com isso. Vamos falar da questão do racismo, se fala só do negro. Não se fala da outra parte, do não negro. A questão é relacional. Se é uma relação social, existem duas partes envolvidas. Não se deve falar só de um campo. Acho que nisso a gente ainda peca nesse sentido.

Mas, enfim, essas diferenças sociais, essas especificidades que existem no nosso país, toda a miscigenação, toda a história que a gente vê na Casa Grande, na Senzala, todas essas relações, a gente tem de usar isso para criar formas de combater, formas mais eficazes pensando nessas especificidades.

Afropress – Você diria que deu prá ver inclusive na tua pesquisa, que há a necessidade de reflexão sobre a estratégia que é utilizada no combate ao racismo no Brasil?

Leslie – Eu acho que é importante. Acho que á luta contra o racismo no Brasil já cresceu muito. Passou por diversos estágios. De um período de denúncia que foi necessário naquele momento, para uma postura mais propositiva, os movimentos passaram a propor mudanças, passaram a dizer mais claramente o que querem, e eu acho que agora a gente está tendo mais uma…, isso é uma hipótese que ficou a partir da pesquisa e que pode ser desenvolvida mais adiante, a gente identifica pontos que podem ser desenvolvidos em outras pesquisas em outros estudos. Eu percebi que a minha pesquisa sinaliza para um fato que eu acho que o movimento está sofrendo mais uma modificação, parece, está criando outras maneiras de militância. Não posso dizer com certeza, mas o resultado da minha pesquisa sinaliza para isso, mas eu acredito que está havendo mais uma modificação nesse modo de militar, e talvez essa mudança que sinaliza, é ações efetivas, além de denunciar e de propor, o movimento está brigando por ações mais efetivas do Governo e também está propondo e também está se impondo para que haja essas mudanças efetivas e agente observa isso no caso da Afropress que vai lá entra na Justiça e procura ações de verdade, não fica só no discurso.  A gente ver o discurso junto com a geração de práticas que vão gerar essas mudanças. Penso que está havendo uma outra etapa, os movimentos buscando ações efetivas.

Afropress – Quais são os planos para o futuro?

Leslie – Buscar espaços para seguir a carreira acadêmica, dar aulas e com esse projeto continuar pesquisando as relações raciais no nosso país. Dentro da carreira acadêmica, como pesquisadora quero continuar trabalhando esses temas e como professora levar esses temas para a sala de aula e principalmente na área da comunicação. Sou jornalista e provavelmente vou dar aulas para outros jornalistas ou, em geral, pessoas que vão se formar em comunicação social, que vão trabalhar com publicidade, relações públicas, trabalhar esses temas dentro da sala de aula, sensibilizar os alunos para isso, porque serão futuros profissionais vão trabalhar dentro do sistema midiático e acho muito importante que eles estejam atentos a essas questões culturais no nosso país, das relações raciais e isso tem de ir se resolvendo de alguma forma no nosso país.

É um trabalho de formiguinha que a gente vai fazendo aos poucos mas é extremamente necessário que os alunos sejam sensibilizados para essas coisas porque serão profissionais e terão que tratar sobre esses temas, vão ter que falar sobre um caso do Amarildo ou do Januário e vão ter que estar instrumentalizados para falar sobre isso e estar compreendendo as relações raciais no Brasil que dizem respeito a todos no nosso país em não só aos negros.

Afropress – Gostaria que você fizesse as considerações finais. O que isso representa para você, para sua família para seus amigos, o que significou essa conquista, que deve ser celebrada.

Leslie – Primeiro gostaria muito de agradecer ao senhor e a equipe de Afropress, sem a colaboração de vocês esse trabalho não seria possível, sem a boa vontade de me receberem em S. Paulo por diversas vezes. Se não fosse a boa vontade de vocês e de todas as pessoas que conversei nesse caminho, dos colaboradores, das pessoas que tiveram contato com o trabalho da Afropress e fazem parte dessa rede enorme que a Afropress trabalha, quero fazer esse agradecimento público. Já fiz esse agradecimento durante a banca e quero agradecer aqui diretamente, tudo, tudo o que foi feito.

Depois, quero dizer que foi realmente uma conquista, não só prá minha família mas, principalmente, prá minha família. A gente sabe das dificuldades que é estudar nesse país, não é fácil, prá minha família não foi diferente; todo investimento que eles fazem e sempre fizeram, enfim, para que conseguir, a coisa mais importante que meus pais puderam me dar e toda a minha família foi o estudo. Antes de qualquer coisa material, o estudo sempre esteve na frente e esse foi o maior tesouro que eles puderam me dar e a gente se entusiasma muito com isso.

E, por último, entrar nesse contexto acadêmico, que é extremamente racializado, a gente observou isso durante a banca, inclusive, eu era uma negra trazendo um trabalho sobre uma questão negra e não tinha nenhum negro na minha banca de doutorado. Aí fica claro como é que funciona, quem são as maiorias e minorias dentro da universidade, esse quadro felizmente já está mudando muito com essas políticas governamentais, a cara da universidade já está ficando diferente, na graduação, mas quando a gente entra nesses outros extratos um pouco mais altos – mestrado, doutorado – as assimetrias sociais ainda são evidentes. A Universidade está mudando aos poucos, mas ainda dentro dessa área de pesquisa, as assimetrias ainda se manifestam com muita força.

Na minha turma de 10, só tinha eu e mais uma colega. No ano que a gente entrou no mestrado não me lembro quantos alunos de mestrado havia, mas entre mestrado e doutorado só tinha eu e mais um aluno e que já estava no curso, tinha a Sátira [Sátira Machado]. Na verdade, éramos só nós três. Na minha turma entraram 10, só 2 negros, e no curso todo só três alunos no curso todo, entre o mestrado e o doutorado.

Fico feliz que esses três alunos pesquisem essa questão da negritude, querem levar adiante isso, sensibilizar a academia prá isso. A outra vitória é que agora a gente tem voz. Não tem ninguém falando pela gente. Nós negros falando desse assunto. Eu coloquei no trabalho que a gente sai dessa posição de objeto de estudo e vira produtor do conhecimento.

 

 

 

 

Da Redação