Porto Alegre – A jornalista gaúcha Vera Daisy Barcellos lança em março (a data ainda não está definida), o livro “Os Lanceiros negros na Guerra dos Farrapos – 1835/1.845)”, que integra a coleção Cadernos CEAP, que faz parte do Projeto Camélia da Liberdade, do Centro de Articulação de Populações Marginalizadas (CEAP), do Rio de Janeiro.

O livro, feito em cerca de 60 dias dedicados à pesquisa e escrita, trata da participação das duas milícias negras gaúchas que atuaram na Revolução Farroupilha, a mais longa de todas as rebeliões enfrentadas pelo Brasil durante o 2º Império.

“A construção deste texto foi um grande desafio para mim. Primeiro, porque a temática Revolução Farroupilha tem uma intensa e expressiva coletânea de livros produzida pelos mais renomados professores e historiadores do Rio Grande do Sul, negros e brancos. Segundo, porque eu quis oferecer aos leitores um novo olhar, ou seja o olhar mais atento sobre a participação dos escravos nesse combate e mais especificamente sobre a Batalha do Cerro dos Porongos, ocorrida em novembro de 1844, episódio ainda não bem esclarecido pela historiografia oficial no qual o exército imperial de Dom Pedro II, sob o comando maior do barão de Caxias, massacrou centenas de negros, integrantes dos corpos de lanceiros, previamente desarmados”, acrescenta Vera Daisy, que faz parte da diretoria do Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Rio Grande do Sul.

Ela conta que o interesse por essa parte da história é antigo. “Vem desde o início da minha militância no movimento negro, ainda como integrante do Grupo Palmares, sob a liderança do professor e poeta Oliveira Silveira (1.941/2009, quando pautávamos a Revista Tição, um marco na imprensa alternativa gaúcha na década de 1.970”, afirma.

O livro, que tem 90 páginas e tiragem de cerca de mil exemplares, é o terceiro da  jornalista. Anteriormente ela foi coautora do livro Negro em Preto e Branco – História Fotográfica da População Negra de Porto Alegre (Prêmio Açorianos/2005) e Colonos e Quilombolas – Memória fotográfica das colônias africanas de Porto Alegre (2011).

Leia, na íntegra, a entrevista da jornalista à Afropress.

AfropressVera, qual é o tema do seu novo livro e qual a razão do seu interesse por esse tema?

Vera Daisy – Escrever sobre “Os Lanceiros Negros na Guerra dos Farrapos (1835-1845)” surgiu de um convite feito, em outubro de 2011, pelo Centro de Articulação de Populações Marginalizadas – CEAP, do Rio de Janeiro. Esta publicação, com 90 páginas, atende os preceitos da série Cadernos CEAP que faz parte do Projeto Camélia da Liberdade que busca a cada edição dar contribuições inovadoras que possibilitem a consolidação da Lei nº 10.639/03, que estabelece a obrigatoriedade do ensino da História da África e da História e Cultura Afro-brasileira nas escolas das redes pública e privadas do país.

Com um tempo muito exíguo – cerca de 60 dias dedicados à pesquisa e escrita – para abordar  a participação das duas milícias negras gaúchas que atuaram na Revolução Farroupilha, a mais longa de todas as rebeliões enfrentadas pelo Brasil Império, a construção deste texto foi um grande desafio para mim.

Primeiro, porque a temática Revolução Farroupilha tem uma intensa e expressiva coletânea de livros produzida pelos mais renomados professores e historiadores do Rio Grande do Sul, negros e brancos.

Segundo, porque eu quis oferecer aos leitores um novo olhar, ou seja o olhar mais atento sobre a participação dos escravos nesse combate e mais especificamente sobre a Batalha do Cerro dos Porongos, ocorrida em novembro de 1844.  Este é um episódio ainda não bem esclarecido pela historiografia oficial no qual o exército imperial de Dom Pedro II, sob o comando maior do barão de Caxias, massacrou centenas de negros, integrantes dos corpos de lanceiros, previamente desarmados pelo comandante das forças revolucionárias farroupilha, David Canabarro. Este episódio é conhecido como o Massacre de Porongos.

De uma certa forma, Dojival Vieira, mesmo me baseando em fontes de reconhecido saber, eu sabia que não encontraria e não encontrei quem foi  efetivamente este grupamento militar formado por escravos. Os livros dão destaque a eles de forma generalizada e reproduzem citações ufanistas das lideranças brancas participantes do evento. Na verdade, os Lanceiros Negros gaúchos não possuem nomes, famílias, trajetórias de vida, lideranças, números de mortos.

O trabalho de minha pesquisa me apontou que as duas guarnições de lanceiros negros – criadas em 1836 e 1838 – exigem estudo de maior densidade para que se tenha um perfil  definidor desses farrapos negros. Suas identidades estão perdidas na historiografia reveladora do protagonismo de seus senhores. O mesmo ocorre com os escravos negros que foram incorporados às forças do Exército Imperial. Anonimato e invisibilidade total.

O interesse por esta fatia da historiografia da Revolução Farroupilha data de muito tempo, ou seja desde o início da minha militância no Movimento Negro, ainda integrante do Grupo Palmares, sob  a liderança do professor e poeta Oliveira Silveira (1941-2009), ou quando pautávamos a Revista Tição, um marco na imprensa alternativa gaúcha na década de 1970.

Os espíritos dos lanceiros negros nos acompanham, portanto, por toda esta vida de militância, escrever sobre eles, mesmo com esta grande carência de dados, foi um privilégio, considerando que não sou uma pesquisadora e historiadora. Foi um trabalho motivador, jornalístico e de grande responsabilidade.

AfropressQual a tiragem do livro, a editora e quando o livro será lançado nacionalmente?

VD – Como explico acima, o livro é uma publicação do Centro de Articulação de Populações Marginalizadas – CEAP detentor dos direitos autorais, além disso a obra teve o patrocínio da Petrobras. Conversei há pouco com Luiz Carlos  Semog, secretário executivo do CEAP, Luiz Carlos Semog – Èle Semog, que  me disse que a tiragem foi em torno de mil exemplares e o lançamento ocorrerá, no Rio de Janeiro, por ocasião de mais uma apresentação do Concurso de Redação Camélia da Liberdade, em data a ser marcada.

Afropress – Na sua opinião porque ainda se escreve tão pouco sobre personagens e fatos relacionados à história da população negra brasileira?

VD – A literatura em nosso país tem cor e sexo, ou seja, é branca e dominada pelos homens, embora o número de mulheres escritoras venha crescendo. Há um componente que perpassa a construção literária que é a naturalização do  racismo no país, que define o espaço a ser ocupado pela população negra e o grau de sua invisibilidade.

Eu antecipei e assinalei esta situação ao falar dos “Lanceiros negros do Rio Grande do Sul”, eles existiram, os escritores fazem referências a eles, mas só referências e não avançam numa descrição mais detalhada. Ou seja, os fatos relacionados à história da população negra e seus heróis, ainda carecem de mais pesquisa, interesse, ou  seja, é um campo aberto a novas semeaduras.

Afropress – Também é escassa a produção de filmes, documentários e séries de televisão sobre personagens negros. Você acha que isso pode mudar com o lançamento dos editais para produtores e diretores negros pelo Ministério da Cultura?

VD – Eu tenho certeza que sim. Esses editais vão favorecer o protagonismo dos produtores culturais e diretores negros porque existem muitas ideias, propostas e projetos que não se desenvolvem por falta de incentivo financeiro. Por outro lado, é preciso que se crie mecanismos que possibilitem amplo acesso da população negra a esses editais para que  não fiquem restritos a determinados feudos privilegiados.

Afropress – Na área do jornalismo, como está vendo o processo de inserção do tema do racismo e da discriminação racial na pauta da grande mídia?

VD – Eu percebo esporádicas inserções, mas algumas pesquisas apontam que os principais jornais do país estão ampliando seus espaços a esta temática, não se dedicando ao assunto apenas em datas comemorativas.

Mesmo assim, eu avalio que o tema racismo e discriminação racial não faz parte da pauta diária das redações da grande mídia. Não há uma convergência de que esta temática componha a realidade do dia a dia do nosso país. A pluralidade e a diversidade não são observadas no cotidiano das notícias e das redações.

Observando o comportamento de muitos colegas jornalistas, a impressão que me causam é que eles não conseguem identificar que o Brasil é um país racista e excludente. E quando é proposto um diálogo mais profundo sobre a questão étnica racial, eles apresentam reações que demonstram total desconhecimento sobre este assunto específico e que eles não tivessem nada com isto. É como se esta pauta fosse exclusiva de nós, jornalistas negros. 

Foto: Irene Santos

Quadro Lanceiro de Juan Manuel Blanes do Acervo da fotógrafa Irene Santos

Da Redação