Rio – A jornalista Rosiane Rodrigues, ex-Assessora de Comunicação da Comissão de Combate a Intolerância Religiosa do Rio, propõe que todos os religiosos e adeptos de religiões de matriz africana compareçam às urnas de branco, no dia 31 deste mês – data em que se realizará o segundo turno – em protesto pelo descaso dos dois candidatos – José Serra, do PSDB, e Dilma Rousseff, do PT -, em relação ao tema da intolerância religiosa.
“Sei que somos milhões. Milhões de sacerdotes, ekedes, ogans, ebomes, yawos, abians, simpatizantes por este Brasil à fora. E mais que nunca precisamos, muito – mas muito mesmo – de união. Dia 31/10, quando estivermos sendo obrigados a ir as urnas, definir o futuro Presidente do Brasil, vamos todos de branco. Coloquemos nossos ojás, panos da costa, alakás, eketés, ou simplesmente o nosso bom e eterno branco. Levemos nossos filhos (carnais e de santo), nossos amigos… Vamos armar afoxés nas praças, jogar capoeira, lavar as escadas das zonas eleitorais. Vamos mostrar que este país tem a nossa cara e o nosso sangue. Por séculos nossos ancestrais construíram a riqueza do Brasil. Por séculos fomos perseguidos e humilhados”, afirmou.
Pressão de evangélicos
Para a jornalista, a reunião desta semana da candidata Dilma com 50 líderes evangélicos, em que se comprometeu a lançar manifesto contra o aborto, a união estável entre os homossexuais e a liberdade religiosa, é motivo de reflexão.
“Se para garantir o voto do rebanho “evangélico”, Dilma rompeu com princípios históricos dos movimentos sociais (discriminalização do aborto, bandeira primeira do Movimento de Mulheres; união estável e a possibilidade de adoção por homossexuais, idem ao Movimento LGBT) o que dizer sobre liberdade religiosa? O que diremos sobre a salva-guarda dos direitos de uma parcela da população que não se faz representar?, pergunta.
Serra
Ela diz não acreditar que o candidato tucano, José Serra, tenha mais sensibilidade que Dilma em relação ao tema. “Os dois candidatos pautaram a campanha neste segundo turno polarizando entre católicos e evangélicos. Mas, os católicos e evangélicos eleitos como consultores políticos dos candidatos – os que eles acreditam que darão milhares de votos de cabresto – não são aqueles que nos respeitam. São justamente aqueles que nos demonizam e nos apontam nas ruas. E foram justamente esses grupos que disseram para Serra e Dilma o que eles poderiam e não poderiam fazer. E é claro, isso não nos incluiu”, frisou.
Segundo a jornalista, Serra, além de representar o que há de pior na política não tem a menor sensibilidade e simpatia pelos candomblecistas e umbandistas. Ela cita o caso do fechamento da Casa de Pai Flávio de Yansã, a pretexto do cumprimento de uma lei municipal. “É de São Paulo também que nos chegam as piores – e mais cotidianas – perseguições a religiosos de matriz africana;
“Para nós, considerados por muitos políticos como “marginais religiosos” e definidos como “essa gente pobre e ignorante que só sabe fazer macumba”, não sobrou nada. Muito menos respeito. Acredito até que se eleitos, tanto um quanto outro, devem continuar distribuindo cestas básicas nos terreiros e barracões (porque assim como se fazia na escravidão, não podem deixar seus escravos morrerem de fome, porque nós precisamos trabalhar para eles) e fazendo mapeamento (para que possamos ser mais facilmente encontrados e manipulados). Agora, os incentivos fiscais, os canais de rádio e televisão, a doação de terrenos para construção de templos, o fomento para hospitais e escolas confissionais… ah, esses não são direitos que nos pertençam. Essas benesses são somente destinados àqueles que dão votos e são poderosos”, acrescenta.
Apelo
A jornalista termina fazendo um apelo. “Se você, meu irmão e irmã, não aguenta mais ser discriminado e tripudiado em canais de rádio e TV, nas escolas de seus filhos, por seus vizinhos ignorantes, pense que a situação, a partir do ano que vem, pode piorar muito. E é hora de união e ação. Na Bahia tem um filme chamado “Até Oxalá vai à guerra” – que traz atrocidades vividas pelo povo de santo. Cada um de nós tem uma história de humilhação e discriminação para contar. Não deixe que essas histórias aumentem. Vamos pra rua mostrar para o PSDB e o PT o quanto nós valemos e o quanto a política brasileira nos deve. Vamos continuar esse país porque só assim seremos ouvidos. Por amor e honra à memória de nossos ancestrais”, conclui.

Da Redacao