S. Paulo – O deputado estadual José Cândido, do PT, o único negro entre os 84 parlamentares da Assembléia Legislativa de S. Paulo, quer se reeleger para dar continuidade aos avanços que, segundo ele, foram conquistados nas três áreas em que se propôs a atuar: a luta pelos direitos humanos, a igualdade racial e a defesa do meio ambiente.
“Consegui trabalhar por essas questões e conquistamos alguns avanços, mas ainda há muito trabalho a ser feito e quero dar continuidade a este projeto. Por isso, sou candidato à reeleição”, afirma.
Cândido, que tem sua base principal em Suzano, município governado pelo filho, Marcelo Cândido, prefeito reeleito em 2008, disse, em relação ao Estatuto da Igualdade Racial recentemente aprovado pelo Senado e sancionado pelo Presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que “é necessário aperfeiçoá-lo”.
“Mesmo depois de quase 13 anos de luta, as principais reivindicações não foram contempladas, muitos pontos importantes do projeto foram retirados. Por exemplo, a questão das cotas raciais em universidades e o direito à reparação. Outros imigrantes, como os japoneses e italianos, tiveram terra e oportunidades quando vieram para o Brasil. O negro não. Veio raptado, foi escravizado e, depois de muita luta e sangue derramado, fomos “libertados” sem direito a nada. Foi excluído do Estatuto o trecho que previa reparações e indenizações a respeito dessa parte triste da nossa história”, acrescenta.
Confira, na íntegra, mais uma entrevista da série e que faz parte do esforço de Afropress para estimular o voto em candidatos negros e antirracistas a deputados estaduais, federais e senadores, em todo o Brasil nas eleições de 3 outubro. O espaço é aberto a todos candidatos comprometidos com esta agenda, independente de partidos, às 5ªs feiras e aos domingos.
Afropress – Por que é candidato à reeleição e quais são suas propostas se eleito?
José Cândido – Desde que assumi meu mandato, em 2007, assumi três compromissos importantes e difíceis, três segmentos para defender: a luta pelos direitos humanos, o que inclui todos os direitos da pessoa humana, como educação, saúde, moradia, trabalho e outras coisas difíceis de conquistar em curto prazo; a igualdade racial; e o meio ambiente, uma conscientização que também é difícil incutir na cabeça das pessoas.
Consegui trabalhar por essas questões e conquistamos alguns avanços, mas ainda há muito trabalho a ser feito e quero dar continuidade a este projeto. Por isso, sou candidato à reeleição.
Afropress – Como acompanhou o debate sobre o Estatuto da Igualdade Racial aprovado e qual a sua posição a respeito?
Cândido – Quando digo que quatro anos de mandato são pouco tempo, posso citar o Estatuto da Igualdade Racial como exemplo. O projeto ficou 12 anos esperando pra ser discutido e votado. Ele nasceu de uma ideia do senador Paulo Paim, da época em que ele ainda era deputado federal. Participei de várias audiências públicas e votações das comissões a respeito do Estatuto, mas ainda não estou satisfeito com a aprovação dele. Digo isso porque, infelizmente, considero este estatuto meio “oco”. A aprovação foi importante, mas ainda há muitas questões em aberto.
Afropress – Qual a sua posição em relação às cotas e ações afirmativas e se considera necessário o aperfeiçoamento do Estatuto aprovado e recém-sancionado pelo presidente da República?
Cândido – A questão das cotas raciais é um assunto polêmico. Vejo as cotas como uma oportunidade de buscar a igualdade de oportunidades. Num passado recente, se não houvesse a briga das pessoas portadoras de necessidades especiais, até hoje elas seriam discriminadas. Se as mulheres não tivessem reivindicado muitos direitos conquistados, também. Enfim: quando se fala em preparar os negros para as universidades, o mercado de trabalho, para disputas e conquistas, tem que se falar em universidade.
As cotas são necessárias assim como outras lutas foram. Mas acredito que seja uma coisa temporária, porque, em pouco tempo, com a conquista da igualdade, elas se tornam desnecessárias. Temos o exemplo de Cuba, um país semelhante ao Brasil em percentual de afrodescendentes. Lá, o sistema de cotas não durou nem 15 anos. Hoje, em Cuba, nem se fala mais em cotas, porque graças a elas a capacidade intelectual de brancos e negros se equiparou. Com essas oportunidades, hoje o país tem ministros, médicos e personalidades negros.
Acredito que no Brasil, com as oportunidades que o presidente Lula deu criando o ProUni, há mais pessoas pobres conquistando espaços em universidades e, consequentemente, no mercado de trabalho. Sabemos que nas favelas e bairros de periferia há muitas pessoas com potencial para se tornarem doutores, intelectuais, mas não têm oportunidades e não conseguem avançar. Ainda é necessário termos cotas raciais como uma forma de oferecer oportunidades iguais.
Sobre o Estatuto da Igualdade Racial, ainda é necessário aperfeiçoá-lo. Mesmo depois de quase 13 anos de luta, as principais reivindicações não foram contempladas, muitos pontos importantes do projeto foram retirados. Por exemplo, a questão das cotas raciais em universidades e o direito à reparação.
Outros imigrantes, como os japoneses e italianos, tiveram terra e oportunidades quando vieram para o Brasil. O negro não. Veio raptado, foi escravizado e, depois de muita luta e sangue derramado, fomos “libertados” sem direito a nada. Foi excluído do Estatuto o trecho que previa reparações e indenizações a respeito dessa parte triste da nossa história.
Afropress – Como se posiciona em relação aos assassinatos de jovens negros na cidade de S. Paulo, que ganharam a mídia com a morte dos dois motoboys e mais do ajudante de pedreiro Cristiano da Silva, nas mãos da Polícia Militar?
Cândido – Fiquei muito indignado. Os casos dos motoboys ocorreram em menos de dois meses e não é coincidência que ambos sejam negros. Discutimos isso na Comissão de Direitos Humanos da Assembleia Legislativa, da qual sou presidente, e também houve manifestações de indignação de várias entidades negras.
Agendamos uma audiência pública pedindo a presença de autoridades maiores, como o comando-geral da Polícia Militar e o secretário de Estado da Segurança Pública, mas, infelizmente, só um substituto do comando-geral da PM compareceu. O mais triste é que, depois disso, já ocorreram outros casos parecidos.
É preciso qualificar mais a Polícia Militar, para esses absurdos não acontecerem. No caso da PM, sem generalizações, uma minoria tem feito muitas desgraças em famílias pobres, porque agem como bandidos perigosos. Acredito que há preconceito, mas o maior problema é a falta de preparo. Há um ditado popular que, infelizmente, reflete a realidade racista: “O branco correndo é um atleta fazendo cooper, e o negro correndo é bandido”.
Alguns PMs, por falta de preparo, ainda pensam assim. Na mesma época do caso dos motoboys, um assessor meu estava a caminho de um estádio de futebol com seu filho, de 12 ou 13 anos de idade. Só porque o filho dele estava com as mãos no bolso dois policiais militares resolveram revistar o garoto, pensando que ele estava armado. O pai se apresentou, se identificou educadamente, mas não adiantou. Quando ele disse que era advogado e assessor parlamentar, foi pior.
Os policiais fizeram com que ele levantasse as mãos e fosse revistado, na frente de várias outras pessoas brancas que também estavam com as mãos no bolso ou com mochilas, e nem por isso foram revistadas. Ainda existe essa ignorância, falta de preparo e preconceito.
Afropress – Fale um pouco de sua trajetória pessoal e política e da importância da eleição de candidatos negros e anti-racistas nestas eleições.
Cândido – O papel de um deputado é representar seu segmento. Cada deputado possui suas bandeiras de luta. Muito poucos representam a periferia, o povo pobre, os negros. Infelizmente, nós negros somos maioria populacional e maioria na periferia, mas somos pouco representados. Na Assembleia Legislativa, de um total de 94 deputados, só há três afrodescendentes.
Dois não têm compromisso com a igualdade racial, mas tem dois brancos que ajudam nessa caminhada. Dos 94, só uns 10% se preocupam com projetos voltados aos necessitados, projetos que pensam nos moradores da periferia. Quando eu era candidato, havia mais dois deputados negros que, infelizmente, não foram reeleitos. Quero continuar lutando pelo povo afrodescendente e torço para que mais deputados comprometidos com a igualdade racial sejam eleitos, para fazermos um trabalho mais voltado para a população que precisa.

Da Redacao