Brasília – O antropólogo José Jorge de Carvalho, do Departamento de Antropologia da Universidade de Brasília (UnB), autor do projeto de cotas na Universidade, considerou a perda da Relatoria pelo Brasil na Conferência de Revisão de Durban, que se realiza em Genebra até sexta-feira (24/04), “um dos grandes fracassos históricos do Movimento Negro Brasileiro”.
Em conversa na tarde desta terça (21/04), com a relatora da Conferência de Durban em 2.001, Edna Roland, ouviu dela que a Conferência “praticamente já terminou”, após o discurso feito pelo presidente iraniano, Mahmoud Ahmadinejad, em que chamou o Estado de Israel de racista, provocando a saída de delegações dos EUA e União Européia.
Leia, na íntegra, a entrevista de José Jorge, ao editor de Afropress, jornalista Dojival Vieira.
Afropress – Como analisa o fato de a Relatoria da Conferência Durban + 8 ter sido entregue a uma pessoa não negra, o representante da Comunidade Bahá’í, no Brasil?
José Jorge de Carvalho – Primeiro, uma colocação acerca do modo como você formulou sua pergunta. Não importa aqui que o Prof. Iradj seja da fé Baha´í ou de qualquer outra fé, ou mesmo que não tenha fé explícita. O que está em questão é a escolha de uma pessoa branca (ou não-negra, caso ela não queira identificar-se socialmente como branca) em um país que tem a maior população negra do mundo fora da África; um país em que o grupo negro representa 48% da população nacional; e que é conhecido e já questionado internacionalmente inúmeras vezes como um país racista contra os negros.
Está claro que foi por esse conjunto de fatores que a Relatoria da Conferência foi mais uma vez oferecida ao Brasil: implicitamente se supunha que uma liderança negra brasileira ocupasse esse lugar estratégico na Conferência. Uma pessoa branca, por mais capaz que seja, não preenche o lugar simbólico que certamente contaria a favor de um não-branco, fosse uma pessoa negra ou mesmo indígena.
O que está em questão, em uma Conferência desse tipo, é em que medida uma pessoa branca pode representrar a comunidade negra que sofre racismo. Além da preparação técnica para o cargo, a Relatoria pressupõe uma capacidade do Relator de representrar o grupo discriminado (como foi o caso de Edna Roland em 2001). Um bom modelo analítico para equacionar os dilemas da representação que estamos discutindo foi formulado pela teórica indiana Gayatri Spivak, que distinguiu dois tipos de representação ao discutir a questão das mulheres e dos subalternos em geral. Há um tipo de representação que se dá por procuração, ou delegação a terceiros, como é o caso mais comum da representação parlamentar e que caberia ao Prof. Iradj: ele recebeu uma espécie de procuração do governo brasileiro ao ser indicado como Relator da Conferência, independente de sua condição racial. Mas há um segundo sentido do conceito de representação reintroduzido por Spivak que torna difícil para um Relator branco poder representar os negros brasileiros: a representação como auto-apresentação.
Nesse seguindo sentido, somente uma pessoa negra pode representar as vítimas de racismo na Conferência e ao mesmo tempo auto-apresentar-se também como vítima. Esse segundo sentido é obviamente muito mais forte do ponto de vista político e era de esperar que as autoridades brasileiras o seguissem, mas não foi isso o que sucedeu. Em termos do modelo de Spivak, tivemos uma grande delegação negra a Genebra, mas uma representação política pequena.
Dito tudo isso, que fique claro que em momento algum coloco em questão as capacidades, sejam técnicas, sejam pessoais, do Prof. Iradj para exercer o cargo de Relator. Trata-se de uma pessoa com uma trajetória consistente de luta pelos Direitos Humanos e nesse sentido potencialmente preparada para exercer uma relatoria de uma conferência internacional. Contudo, estamos falando aqui estritamente do lugar simbólico da Relatoria de uma Conferência Mundial contra o racismo.
O racismo moderno (e muito particularmente o racismo sofrido pelas comunidades negras da chamada Diáspora do Novo Mundo, e também o racismo sofrido pelos povos da África), é o racismo fenotípico: a pessoa negra carrega em seu corpo a história do sofrimento racial experimentado durante os últimos 500 anos de escravidão, colonialismo, destruição cultural e racismo pós-escravista e pós-colonial – enfim, ela expressa em seu corpo, e muitas vezes independente de sua vontade, a grande tragédia humana que se denomina pelo termo swahili Maafa.
Essa grande tragédia da escravidão africana já foi definida pela ONU como crime contra a humanidade. É neste contexto específico que estamos refletindo sobre a decisão do governo brasileiro de não ter indicado uma pessoa negra para assumir a Relatoria de Durban 2.
Afropress – O que significa isso em termos de Movimento Negro, depois que o Brasil ocupou a Relatoria da Conferência de Durban com a professora Edna Roland?
José Jorge – Minha interpretação desse episódio – e ofereço-a com tristeza e apenas em meu nome, pedindo que essa reflexão não seja tomada como uma crítica aos militantes negros envolvidos no episódio, pois desconheço as razões da escolha do Prof. Iradj, e sim como uma avaliação do estado atual da luta anti-racista no Brasil – é de que a perda da Relatoria de Durban 2 foi um dos grandes fracassos históricos do Movimento Negro brasileiro.
Se pensarmos nas várias tentativas do Movimento Negro de alcançar uma condição de igualdade racial no Brasil, desde a Frente Negra Brasileira Brasileira nos anos trinta, o Congresso Negro Brasileiro dos anos cinqüenta, a fundação do MNU nos anos 70, a Marcha Zumbi em 1995, o GTI durante o governo de FHC após 1995, a Conferência de Durban em 2001, a criação da SEPPIR em 2003, a explosão das cotas nas universidades públicas durante a presente década, tudo apontou para um crescimento constante da presença negra em postos de destaque da nação e também no plano internacional.
Edna Roland é um ícone desse crescimento interno e externo do Movimento Negro brasileiro contemporâneo. Ela chegou à Relatoria de Durban I por seu trabalho no Brasil e também por seu desempenho como uma liderança continental durante as preparatórias de Durban. Ora, se tivemos uma excelente Relatora negra em 2001, alguém que ajudou a salvar, literalmente, aquela Conferência do fracasso total; e se a comunidade negra cresceu em presença política no país de lá para cá, como é possível que não foi indicada de novo uma liderança negra para a Relatoria de Durban II em 2009? Esta pergunta merece uma resposta firme.
Lembremos apenas o que era o Itamaraty há trinta anos atrás, quando seu racismo crônico foi exposto mundialmente por Abdias do Nacimento no seu livro Sitiado em Lagos. A essa altura, era de se esperar do Itamaraty uma consciência maior sobre a política contra o racismo nos dias de hoje.
Das 30 pessoas que compõem a delegação brasileira a Genebra, identifiquei pelo menos 24 delas que são negras, incluindo lideranças conhecidas há décadas. O fato de nenhuma dessas lideranças ter sido escolhida para a Relatoria significa, a meu ver, mesmo sem conhecer a dinâmica interna da escolha, uma derrota da comunidade negra brasileira. A Relatoria dá um destaque muito especial à pessoa que a exerce.
Todos nós, envolvidos na luta anti-racista, sentimos orgulho por Edna Roland; e ela é um modelo e uma grande referência de realização para a nossa juventude negra. Resulta óbvio imaginar que a circunstância que a promoveu a esse lugar se repetisse agora. No momento em que o Movimento Negro perdeu a Relatoria, enfraqueceu-se nacional e internacionalmente. Independente das razões para a escolha do Prof. Iradj, fica uma primeira impressão (obviamente, aberta a correções) de que o Movimento Negro não conseguiu mais impor-se frente o Itamaraty.
Afropress – Qual a sua avaliação e o que o senhor espera dessa Conferência?
José Jorge – Escrevi recentemente um ensaio longo, chamado “Cimarronaje y Afrocentricidad”, para um número especial da revista espanhola Pensamiento Iberoamericano, sobre os predicamentos da Diáspora Africana nas Américas e ofereço ali uma avaliação do boicote norte-americano, tanto a Durban I como agora a Durban II, e reflito sobre como esse boicote afeta a luta anti-racista na América Latina.
Minha conclusão é de que ocorreu uma cisão grave na unidade da Diáspora Negra: é falso imaginar que os negros do Novo Mundo estão irmanados na luta anti-racista quando vemos o primeiro presidente negro dos Estados Unidos, Barack Obama, repetir o mesmo gesto intolerante de George Bush e se retirar de uma Conferência Mundial contra o Racismo, explicitamente para que o Estado de Israel não seja questionado pelas barbaridades que comete contra os palestinos.
Comuniquei-me com Edna Roland, que se encontra em Genebra não como parte da delegação brasileira, mas como Especialista das Nações Unidas, hoje, 21 de abril, às 14hs de Brasília, e ela me confirmou que a Conferência já praticamente terminou, com o mesmo impasse de Durban I: Mahmoud Ahmadinejad chamou Israel de racista no seu discurso de abertura e os diplomatas ocidentais se retiraram da Conferência. Como sabemos, o Primeiro Ministro iraniano, o único com coragem e disposição para criticar (justamente, há que dizê-lo) o massacre sofrido pelo povo palestino, nega o Holocausto; e os líderes ocidentais, que posam de democráticos, fazem qualquer manobra para defender o Estado de Israel, justificando todos os seus atos genocidas contra os palestinos.
Com esse impasse absurdo, de ambos os lados, perdemos mais uma vez a oportunidade de aprofundar a crítica ao racismo fenotípico que atinge mais de uma centena de milhões de negros da Diáspora Africana nas Américas e muito especialmente no Brasil. Mais uma vez os racistas mostraram sua força: não se aprofundou a discussão acerca da reparação ao povo negro por causa da escravidão e nem se condenou oficialmente Israel pela sua violência crônica contra o povo palestino. Mas o impasse indica pelo menos um estado constante de tensão e não uma derrota definitiva para os que lutamos contra o racismo. Não restará outra que insistir em uma quarta Conferência!
Afropress – Quais foram os critérios utilizados para a escolha do engenheiro Iradj?
José Jorge -Desconheço os critérios utilizados para essa escolha.
Afropress – Por quais critérios a delegação de negros avalizou essa indicação?
José Jorge – Reconheço a relevância da sua pergunta, mas desconheço os detalhes acerca da participação dos negros nessa decisão.
Afropress – Essa delegação representativa dos negros brasileiros não é uma delegação chapa branca?
José Jorge – Penso que essa pergunta somente pode ser respondida em profundidade após uma avaliação da participação da delegação brasileira na Conferência. O que podemos fazer por enquanto é acompanhar suas eventuais declarações.

Da Redacao