Brasília – Surpreendido pela truculência do presidente do Superior Tribunal de Justiça (STJ), Ari Pangendler, que arrancou o seu crachá e o demitiu apenas porque aguardava a sua vez na fila do caixa eletrônico, na sede do próprio Tribunal, o estudante negro Marco Paulo dos Santos (foto), estagiário do STJ, denunciou o magistrado por injúria real e registrou queixa na 5ª Delegacia da Polícia Civil do Distrito Federal.
O caso aconteceu na última quarta-feira (20/10) na sede do Tribunal em Brasília e, nesta segunda-feira (25/10), Pargendler, que é branco de descendência alemã, disse, por meio da Assessoria do Tribunal que não falará a respeito.
O estagiário, de 24 anos, é nascido na Grécia e filho de mãe brasileira e pai africano, de Cabo Verde. Os pais são separados e Marco veio para o Brasil com apenas 2 anos, com a mãe e o irmão mais velho. Antes do estágio no STJ fazia bicos dando aulas de violão.
Ele começou a trabalhar no STJ em março, e passou entre os 10 primeiros colocados, recebendo salário de R$ 600 e mais auxílio transporte de R$ 8 por dia. Das 13h às 19h dava expediente em função administrativa. No período da manhã, freqüenta a Escola de Choro Raphael Rabello, onde aprende violão desde 2008. À noite, atravessa de ônibus os 321 km que separam a cidade de Valparaíso de Goiás, onde mora, de uma faculdade particular, em Brasília, onde cursa o quinto semestre de Administração. “Trabalhava com processos, com arquivos, com informações da área de pagamentos”, contou sobre o estágio no STJ.
O estagiário disse que ainda está atônito com a reação do ministro. “Ainda estou meio sem saber o que fazer. Tudo aconteceu muito rápido. Mas já tinha planos de montar uma escola de música na minha região onde moro”, afirmou.
O caso
O caso da agressão do presidente da segunda mais alta corte de Justiça do país contra um jovem negro, aconteceu na quarta-feira. Incomodado com a proximidade de Marco, Pargendler não se conteve: “Você quer sair daqui por que estou fazendo uma transação pessoal? Sai daqui. Vai fazer o que você tem quer fazer em outro lugar”.
O estagiário tentou ponderar: “Mas estou atrás da linha de espera”.
Parglender, então, foi conclusivo: “Sou Ari Pargendler, presidente do STJ, e você está demitido, está fora daqui”.
Uma hora depois do diálogo, o estagiário recebeu uma carta com a demissão e um susposto aviso de que havia cometido uma “falta gravíssima de respeito”, mas que o ocorrido não seria registrado.
“Era só o que me faltava mesmo, ser demitido dessa forma e ainda sair do estágio com ficha suja. Me senti agredido tanto fisicamente como moralmente pela forma como fui demitido. Foi uma falta de respeito tremenda. Uma audácia. Ainda mais por ser o presidente de um tribunal superior, de quem se espera toda classe e elegância. Pelo contrário, ele dá o pior exemplo possível, usando sua autoridade em benefício próprio”, afirmou.
Ainda abalado com a reação intempestiva do magistrado, Marco saiu direto para a Delegacia e registrou o Boletim de Ocorrência de Nº 5019/10, que é assinado pelo delegado Laércio Rossetto.
No STF
Por não ter competência para investigar o caso, o delegado enviou o BO ao Supremo Tribunal Federal. A agressão do presidente do STJ ao jovem negro poderá ter dois desdobramentos: 1 – o presidente do STF designa um ministro relator que pode determinar a abertura imediata de inquérito para que sejam ouvidos os envolvidos – no caso o ministro presidente do STJ e o jovem negro; o ministro relator encaminham o caso diretamente à Procuradoria Geral da República para que seja dado parecer.
Segundo a Assessoria, caso fique configurado crime contra a honra do estudante, o ministro Pargendler receberá notificação. Poderá então se retratar ou não. Se não se retratar, nada acontecerá e o caso vai para o arquivo.

Da Redacao