S. Paulo – O poeta Felipe Nascimento estreia sua coluna em Afropress, tratando de temas diversos como literatura e atualidades. Felipe é graduando em Letras no Instituto Federal de São Paulo e tem dois livros publicados: “Alegria é Surda” (2019, independente) e “O Lado Sensacional da vida é o meu ou livro dos mortos” (2019, editora Patuá) e “Terra dos Papagaios (coletivo, Penalux) no prelo. Confira abaixo a primeira coluna de Felipe.

Pró-vida ou pró-poder?

Ter um filho é um desafio. Ter de sustentar um ser humano não só fisicamente e economicamente, mas também psicologicamente, eticamente. Como criar um filho para um mundo? É uma questão de todos pais e mães, pedagogos e psicólogos.

Mas como fazer quando esse filho é totalmente indesejado? Fruto de uma invasão, de uma tortura? É claro que será difícil ver o que poderia ser um sonho para algumas pessoas (com suas intempéries, claro, pois ser mãe ou pai é ser aluno e professor ao mesmo tempo) como algo bom. É simplesmente mais tortura psicológica.

Nós homens, reproduzindo o machismo que somos tão apegados, queremos exercer uma lógica de controle sobre o corpo da mulher (quando todos poderíamos reproduzir lógicas muito mais interessantes até para o ponto de vista da nossa própria humanidade). E por isso criamos PL como a conhecida no momento popularmente como Bolsa estupro. (PL 5435)

Ela consiste no seguinte: além de tirar o poder de escolha do aborto de uma mulher fragilizada por um recém-abuso, também dá o direito de o estuprador requirir a guarda da criança, assim podendo o abusador ficar em contato com a criança e a mãe.

Isso é um óbvio reflexo da nossa cultura de ver a mulher como um receptáculo. De onde nós podemos tirar e colocar nosso prazer, nossa raiva, nosso ódio. Isso não é ser “pró-vida” e nem “pró-feto” e sim pró-poder masculino.

Que crianças queremos criar, se elas são fruto do abuso? No país da delicadeza perdida, em um dos países mais desiguais do mundo, forçar uma mulher cuidar de uma criança e conviver com seu abusador é simplesmente uma barbárie inaceitável.

E quanto tempo, nós homens veremos com olhos passivos, a opressão que a humanidade causa em si mesma? Ficaremos cirandando por aí, dizendo que mulher pode tudo (sexualmente e dentro de quatro paredes para nos agradar claro) e não agiremos?

Mea culpa: estou fazendo nota de repúdio sobre a nota de repúdio. Mas enquanto estamos presos em casa, eu precisava exercitar minha empatia e humanidade.

Não estou dizendo que as mulheres não são capazes de se organizar por si mesmas ou que elas não têm força para mudar o mundo, pelo contrário, elas já mudaram bastante ele. Porém, temos que fazer mais do que o mínimo e sem ser por nossas mulheres, como objeto de nossa proteção e submissão, e sim para a humanidade toda.

Pode ser um pouco ingênuo ou romântico da minha parte, mas não é mais possível viver apenas de interesses individuais.