Salvador – “Sair nas ruas nesse Carnaval me dá certeza de que, apesar de sermos maioria nessa cidade, agente não tem poder em nada”. Assim desabafa o professor de matemática Carlos Alberto Sales, pai do estudante de iniciais C. Conceição, de 17 anos, que no primeiro dia da festa em Salvador (quinta-feira, 23) foi agredido e preso por policiais civis no bairro de Ondina.
Por volta da meia-noite, o estudante alega que estava parado junto a amigos e irmãos, vendo a passagem do trio com a cantora Ivete Sangalo, quando começou um grande tumulto com muitas pessoas correndo para todos os lados. “Eu me apoiei em um batente, mas acabei caindo, nessa hora um agente civil chegou me puxando e me batendo”, conta C., ainda indignado. O estudante foi levado junto com seu amigo, o também estudante e vendedor, de 18 anos, Otacílio Nascimento, para o módulo próximo ao local, onde foram insultados a todo tempo por outros agentes. “Ficamos em um cubículo onde só cabiam três, mas tinham mais de sete lá dentro”.
Sob a acusação de terem furtado uma máquina fotográfica de uma turista, os estudantes ficaram detidos por mais de 5h, ainda que a suposta vítima houvesse, imediatamente, negado terem sido eles os agressores. “Agente tava chorando, dizendo que não éramos ladrões, mas eles só mandavam calar a boca e ficar quieto, me chamando de vagabundo”. Obrigados a ouvir ameaças e assustados com os gritos dos policiais contra os presos, C.Conceição e seu amigo foram algemados juntos e levados para a 11ª DP, nos Barris.
Chegando lá, foram obrigados a se despir e humilhados com frases do tipo “tá chorando porque, na hora de roubar você não chorou, marginal”, proferida por um dos policiais, “que também era negro como eu”, como pontuou o jovem.
Intolerância – “Eles não sabem mais distinguir quem é ladrão e quem não é, nas ruas, já tá tão natural prender e bater na gente”, reclama o jovem. Segundo ele, os policiais os prenderam alegando flagrante apesar de não terem nem o objeto roubado, muito menos o reconhecimento da vítima. “Meu filho e o amigo foram algemados junto a criminosos, como se fossem bandidos perigosos. Ficamos esperando a vítima aparecer para apontar os acusados dentre os presos, mas até a hora que saímos, já de manha, não tinha chegado ninguém”, relata o pai. Após conseguir o advogado por meio de amizades, os estudantes foram soltos.
Para C. Conceição, o Carnaval já não tem a mesma graça. “Perdi o espírito para brincar, vi minha mãe chorar por minha causa e pra mim isso é raro, então, decidi não sair mais pra rua”. Pensando no que pode ser registrado nos arquivos policiais sobre os rapazes, o professor Sales se diz preocupado com a imagem do filho. “Me preocupo com o futuro dele, já que nada foi provado. Não sabemos se eles vão continuar fichados como ladrões, o que pode prejudicar no trabalho e na vida deles daqui pra frente”.
Expressão do racismo que persiste nas instituições da sociedade e se representam no Carnaval, principalmente no âmbito policial, o caso destes jovens explicita a importância do trabalho do Observatório da Discriminação Racial, iniciativa da Secretaria Municipal da Reparação, que tem promovido ações a fim de garantir os direitos dos foliões afrodescendentes durante a festa. Indignado com a ação dos policiais, o professor Sales desabafa: “acho que o que falta em nós negros é se posicionar diante de certas estruturas e saber que não podemos nos deixar abater por pouco. Eles viram a minha atitude e minha postura e me respeitaram”.
Assim, após serem liberados, os jovens entraram em contato com a equipe do Observatório da Discriminação Racial para prestarem sua queixa e certificar de que o caso tenha o devido acompanhamento. Segundo a equipe de Assistência Jurídica, do Observatório, a ocorrência foi encaminhada para o Ministério Público.
Nesta terça-feira, 28/02, o Observatório da Discriminação Racial receberá a visita do Procurador Geral de Justiça do Estado, Lidivaldo Britto. O Procurador receberá das mãos do secretário municipal da Reparação, Gilmar Santiago, um relatório de todas as ocorrências registradas pela equipe do Observatório nos dias da folia. Casos como este do adolescente C. Conceição serão apresentados ao Procurador, buscando um encaminhamento por parte do Ministério Público, na tentativa de eliminar as possibilidades de impunidade.

Da Redacao