Piracicaba/S. Paulo – A juíza da 3ª Vara do Trabalho de Piracicaba, Patrícia Glugovskis Penna Martins, cancelou na última segunda-feira (15/04), o leilão em que o patrimônio do Clube Treze de Maio, de Piracicaba, um dos clubes negros mais antigos do Brasil, fundado em 1.901, foi arrematado.

O arrematante Antonio Augusto Maniero desistiu do leilão. Os valores do depósito de R$ 900 mil foram devolvidos sem multa, e o clube manteve o patrimônio. O acordo foi homologado pela juíza e, segundo advogado José Silvestre da Silva, responsável pelo pedido de anulação do leilão, o processo será arquivado por que o clube não tem mais dívidas pendentes.

O leilão aconteceu dia 12 de dezembro do ano passado, porém, o presidente, José Alexandre, o Xandão (foto), que se mantém no cargo há décadas, e Silvestre, que também preside o Conselho da Sociedade, só tomaram conhecimento 69 dias depois por terceiros.

A decisão judicial que determinou o leilão do patrimônio para fazer frente a uma dívida com o INSS, de apenas R$ 3 mil reais, foi anulada porque o clube foi citado na pessoa de um advogado que não tinha procuração para representar a entidade.

O caso, segundo ativistas da área cultural e do movimento negro de Piracicaba, reflete o abandono a que o clube está relegado pela atual direção. No leilão o patrimônio foi arrematado por R$ 900 mil, o que, segundo avaliação de corretores de Piracicaba, representa menos de um terço do valor real do imóvel, sem contar o valor histórico do imóvel.

 Afropress tenta há pelo menos um mês ouvir Xandão e o advogado José Silvestre, sem sucesso, porém, apurou que a dívida com o INSS já foi paga e, portanto, não há mais risco de novo leilão.

Nova direção

Com a anulação do leilão começam agora as gestões para a renovação da direção da entidade. Segundo ativistas do movimento negro de Piracicaba, que falam sob o compromisso de terem os seus nomes preservados, a recuperação do patrimônio ameaçado conseguida graças a uma mobilização inédita na cidade, com repercussões por todo o país, também “representa o fim de um tipo de gestão do Clube Treze”.

De acordo com esses ativistas o clube tem sofrido desvio de suas finalidades e passou a servir como depósito e até estacionamento, o que representa a descaracterização de suas atividades.

Segundo o coordenador do Núcleo de Teatro Paulicéia, o ator Joel Cardoso de Oliveira, diretor da mobilização em defesa do patrimônio do clube, que ele chamou de “Amigos do Treze”, o processo de questionamento de gestões antigas que está ocorrendo em Piracicaba, é similar ao que está acontecendo em outras entidades do país.

“Há uma pressão no município para se discutir a gestão da entidade. A juventude de Piracicaba está mais mobilizada, está questionando. Por que o Treze não consegue mais ser o representante da comunidade negra de Piracicaba? O risco da perda da sede mobilizou a cidade. A maior parte da população não tinha noção da importância do clube para a cidade e passou a ter”, afirmou.

Segundo ele, agora é necessário canalizar essa energia positiva “para fazer com que o clube seja um farol para nortear a juventude da periferia, para entender a história da cidade, para entender a cultura". “O ideal é que essa direção promova a transição para um novo momento da vida do Clube. Que o Treze seja ativo, vivo, dinâmico que acorde de manhã e se mantenha aberto, em atividade todos os dias”, concluiu.

Da Redacao