Segmentos cada vez mais numerosos da população afro-descendente são atraídos e manipulados por discursos que aproveitam a crescente situação de aflição, insegurança e carência, resultante do agravamento da pobreza e do desemprego, em situações de crescimento urbano desordenado, perda do convívio social e aumento da marginalidade e violência. Estas seitas propagam a afirmação de novos modelos e sistemas de valores totalizantes, pautados na ideologia de um sucesso pessoal que só pode ser alcançado através da plena entrega nas mãos do Deus Salvador, conduzidos então pelos seus legítimos representantes: bispos e pastores. Estimulam, agressivamente, o distanciamento, a rejeição e o abandono das tradições e das raízes culturais da nossa gente, apontando-as como principais responsáveis do insucesso, da pobreza e do sofrimento humano em geral.
Nos diversos bairros das cidades do Brasil, novos Templos evangélicos surgem a cada dia, colados aos Terreiros de Candomblé, e disputando com estes em condição de desigualdade, tanto pela disponibilidade cada vez maior de recursos, como de infra-estrutura, influência política e controle dos meios de comunicação.
Esta ação agressiva e a todo campo (religioso, cultural, econômico, político e social) das seitas integralistas está produzindo paulatinamente o esvaziamento e isolamento das nossas comunidades tradicionais. Como efeito, o que é mais grave, a perda de relação com as novas gerações afro-descendentes, que são induzidas a encarar o nosso próprio e peculiar patrimônio cultural e religioso como algo negativo, herança demoníaca, causa de atraso e perdição.
Paralelamente, num outro âmbito, e com um olhar mais local, como efeito do crescimento da economia do turismo na cidade do Salvador, e da sua lógica mercadológica, assistimos com tristeza ao esvaziamento e a banalização das nossas profundas raízes culturais e da nossa religiosidade, através da sua folclorização.
No intento de defender-nos destas ameaças, a comunidade afro-brasileira está alerta e junta-se para denunciá-la, combatê-la e contrasta-la, nos seus múltiplos e diferentes planos, afirmando o seu pleno direito a existir e ser reconhecida como expressão original e valiosa da população brasileira e da própria identidade nacional. Ao mesmo tempo queremos também divulgar, para toda a sociedade, os princípios e valores que norteiam, desde a ancestralidade, a nossa religiosidade e visão de mundo, convencidos do seu extraordinário e atualíssimo significado.
Uma religião que sabe vivenciar os convívios com a juventude, os princípio e valores que fundamentam a visão de mundo da religiosidade afro-brasileira, o respeito e integração com a natureza e pelos anciãos em geral, sedimenta valores e o poder matriarcal e do seu papel sagrado na reprodução da vida, descortina o reconhecimento pleno do direito à diversidade, em todos os campos e situações (sexual, religioso, político, etc..) e respeita a busca individual e a liberdade de escolha (negação do proselitismo) resgatando e fortalecendo o senso de pertencimento, a unidade e o coletivo, como valores norteadores das ações, não é algo comum e fácil de encontrar hoje em dia. As Religiões de Matrizes Africanas são o que há de mais ancestral e moderno em concepção filosófica religiosa na atualidade.
Sendo assim, torna-se urgente e imediato à elaboração mais precisa de um movimento afirmativo de resgate, sendo necessário identificar como sujeitos e protagonistas da sua ação a juventude afro-descendente, das comunidades populares, e propondo-se trabalhar em articulação estratégica com todos os diferentes segmentos organizados do movimento negro, e suas expressões religiosas, desenvolvendo assim, ao longo de anos, um processo sistemático de formação e fortalecimento de jovens lideranças negras, instrumentalizando-as com os mais avançados recursos tecnológicos, para que possam atuar como multiplicadores na defesa e na afirmação do nosso legado cultural.
Ibá Egum,
Ibá Exu,
Ibá Orixá,
Ibá ô!
(Honra aos ancestrais,
Honra ao que nos liga,
Ao que nos mantém em comunicação,
Honra aos Orixás,
Para todo o sempre!)

Marcos Rezende