A juventude negra não está feliz nem acomodada e está forte politicamente para intervir nas estruturas sociais do país. Isto é o que pensa Thaís Zimbwe, que participou da organização do I Encontro Nacional da Juventude Negra, realizado no final do mês de julho, em Lauro de Freitas na Bahia, que reuniu jovens de 450 municípios de 23 Estados do país. Veja a entrevista na íntegra.
Afropress – Qual o balanço que você faz do I Enjune, na Bahia?
Thaís Zimbwe – O ENJUNE é a oportunidade real de a juventude negra expressar suas questões, anseios e demandas. A garantia da efetivação destas pontuações está a cargo da própria juventude, a vontade e o desejo de mudança desta conjuntura de extermínio e opressão irá impulsionar as resoluções apontadas pelo Encontro.
Hoje temos a certeza de que a juventude negra não está feliz e nem está acomodada com esta situação.
O ENJUNE chega para apresentar, muito mais do que as estatísticas, que nós jovens negros(as) estamos articulados(as) nacionalmente, convergimos no propósito de que uma articulação nacional é potente para intervir politicamente nas estruturas sociais do país.
Afropress – Quais as discussões que despertaram maior atenção dos mais de 600 jovens participantes de todo o Brasil?
Thaís – O ENJUNE trabalhou com 14 eixos temáticos, temas que a juventude participante julgou pertinente para discussão de sua conjuntura. O genocídio da juventude negra foi transversal em todas as discussões do Encontro. A participação política também foi um tema bastante abordado e pontuado nas discussões.
Afropress – Que propostas você destacaria como as mais importantes surgidas nos debates?
Thaís – O relatório final do ENJUNE está sendo organizado, em breve será disponibilizado para sociedade. O documento reúne cerca 900 propostas sobre os 14 temas do Enjune, sendo eles: Cultura; Educação; Segurança, vulnerabilidade e risco social; LGBT: Identidade de Gênero e Orientação Sexual; Meio Ambiente e desenvolvimento sustentável; Comunicação e Tecnologia; Religião do povo negro; Gênero e feminismo; Trabalho; Intervenção dos espaços políticos; Saúde da população negra; Ações Afirmativas e Políticas de Reparações; Inclusão de Pessoas com Deficiência.
As propostas destes eixos giram em torno de participação cidadã e protagonismo das lideranças juvenis negras, efetivação dos espaços sociais para a participação da juventude, além de questões referentes às principais pautas do movimento negro brasileiro.
Afropress – Qual a posição do I Enjune sobre o Estatuto da Igualdade Racial e PL 73/99? Houve alguma posição sobre?
Thaís – As Rodas de Discussão sobre Educação e Ações Afirmativas e Políticas de Reparação debateram intensamente estas questões apontando para o Fortalecimento e ampliação das discussões sobre reparações, ações afirmativas, políticas de cotas e estatuto da igualdade racial; Desenvolvimento de campanhas para a implementação do Estatuto da Igualdade Racial; Criação de um grupo de trabalho com a incumbência de avaliar, fiscalizar o andamento da política de cotas universidades; Fomentar nas comunidades o debate mais específico sobre reparações/estatuto da Igualdade Racial, ações afirmativas/cotas e sua importância para povo negro.
Afropress – Como viu a participação do Governo, nos níveis municipal, estadual e federal no I Enjune?
Thaís – O Diálogo com as instituições governamentais, assim como com as organizações da sociedade civil organizada, sindicatos, entre outros, possibilitou uma interação e garantia não só de estrutura, apoio político e financeiro para a realização do Encontro, mas compromisso político e garantia de comunicação para a implementação das resoluções dos apontamos do Enjune.
O diálogo nas Rodas de Discussão entre sociedade civil organizada, governo federal e juventude negra, nas perspectivas de políticas públicas para a juventude, possibilitou um nivelamento conceitual dos temas entre os delegados(as) participantes, além da elaboração de propostas mais efetivas.
Afropress – Quando acontecerá o II Enjune?
Thaís – Os apontamentos dos debates durante este Enjune indicam uma próxima realização para daqui a dois anos, entretanto agora se inicia a segunda fase desse processo, que é a implementação do Fórum Nacional de Juventude Negra.
Foi constituída uma comissão organizadora com 2 representantes dos estados participantes do Enjune que irão preparar e organizar uma assembléia nacional para efetivação deste Fórum. A previsão que esta assembléia aconteça em janeiro de 2008.
Afropress – A articulação e participação organizada da juventude negra, que acontece pela primeira vez, pode mudar os rumos do Movimento Negro Brasileiro?
Thaís – A realização do I Encontro Nacional de Juventude Negra marca a história do movimento negro brasileiro. Um processo autônomo, totalmente protagonizado e realizado pela juventude. Envolvendo efetivamente 23 estados brasileiros, cerca de 450 municípios, totalizando um número aproximado de 5.000 jovens negros e negras que hoje acreditam que o protagonismo juvenil negro é uma das alternativas para a participação social e cidadã desta juventude.
Por ser uma iniciativa pioneira, ousada e inovadora, muitos empecilhos surgiram neste processo. Entretanto devemos ressaltar o caráter desafiador desta iniciativa, que articulou em 18 meses 23 estados brasileiros, garantindo a participação efetiva de 21 estados durante 3 dias de construção política.
O que torna este processo mais rico e a oportunização do surgimento de lideranças juvenis negras. O Enjune de fato se deu nos estados, nas articulações preparatórias e organizativas do processo, com a articulação e mobilização nacional, a concepção do projeto político da juventude negra.
Afropress – Qual a posição do I Enjune em relação ao Congresso de Negros e Negras. Que Congresso de Negros e Negras, querem os jovens negros brasileiros?
Thaís – Desde o processo de articulação nacional para a realização do ENJUNE que os(as) jovens atuantes no processo participam ativamente das construções do Congresso, tendo inclusive participação na Coordenação Política enquanto articulação nacional de juventude negra.
O movimento negro brasileiro vive um importante momento político com a realização deste Congresso, uma oportunidade real e objetiva de articulação e construção política do povo negro brasileiro, e a juventude deve estar intensamente envolvida nesta participação.
Nossa conjuntura agora é de envolver os estados participantes do Enjune, através de suas articulações estaduais nas construções do Congresso, potencializando esta ação e promovendo o sucesso desta iniciativa.
Além disso, estamos finalizando e concluindo o processo de realização do Enjune apontando para a realização da Assembléia do Fórum Nacional de Juventude Negra. Outra ação importante que pretendemos nos inserir fortemente é a participação efetiva da juventude negra no processo da Conferência Nacional de Juventude

Entrevista concedida por Thaís Zimbwe ao editor de Afropress, jornalista Dojival Vieira.